Enredos definem o tom dos pandeiros na Passarela do Samba

Alegorista terminando escultura que compõe o carro Mar de Clara
Personalidades, imigrantes, histórias infantis, flores, perfumes e penteados irão conduzir os desfiles das escolas de samba do Grupo A este ano. Uma variedade de temas definidos por cada agremiação, escolha decisiva na identificação dos foliões com a escola e o sucesso da passagem pela Passarela do Samba. Pois é o enredo que norteia todo o trabalho nos artesãos, fornece material para os carnavalescos e inspira sambistas. É importante que seja claro, de fácil assimilação do público, o que não significa que tenha que ser pobre.
Pelo grupo especial, seis escolas iniciam seus desfiles na segunda-feira (20). O palco será a Passarela do Samba, montada na Avenida Brasil, e quem dá início aos trabalhos é a Feliz Lembrança. Com reduto no Bairro Barbosa Lage, Zona Norte, a escola apresentará o enredo "Pode ser liso, crespo ou ondulado, mas todos querem ter um bom penteado". De acordo com o presidente da agremiação, Jair de Castro Filho, a escola fará um passeio pelos diversos penteados que fizeram a cabeça do povo, desde os tempos imperiais, passando pelas tendências da televisão e do cinema, até chegar aos tempos atuais com o famoso corte moicano, popularizado pelo Neymar. "A Feliz Lembrança vai apostar na irreverência e, com um carnaval diferente, a nossa meta é permanecer no primeiro grupo", explica Jair.
Em seguida é a vez do Unidos do Ladeira fazer uma homenagem à Clara Nunes com a reedição do enredo campeão do carnaval de 1984, "Clara, clareia, clareou… 70 anos da guerreira", de Romeu Biazzollo. Para o carnavalesco da agremiação, Fábio Esteves, "assim como no ano passado, quando apresentamos à Juiz de Fora as ‘Marias’ do Ladeira, este ano vamos continuar a homenagear as mulheres. Não é à toa que a intérprete oficial será Sandra Portela, que além de ser uma guerreira, tem uma ligação muito forte com a história da Clara Nunes".
Já a Mocidade Independente do Progresso, a terceira a passar pela passarela do samba, trará para seu desfile "As belas histórias que vovó contava". O enredo fará um passeio lúdico pelo mundo da literatura infantil. "Estamos muito entusiasmados com o tema do enredo. À frente da bateria, por exemplo, teremos uma grande surpresa para o público", instiga a presidente Leila Petrato.
Mocidade Alegre defende o título
A Mocidade Alegre do São Mateus defende o título de campeã com o enredo "Se as flores pudessem eleger uma rainha, essa só poderia ser a rosa". A escola promete um passeio pelo universo das flores e de seu misticismo e simbolismo, até a famosa "Rosa de Hiroshima", que trata do bombardeio atômico ao Japão em belo poema de Vinícius de Moraes. "Esta ano estamos tentando manter o padrão do ano passado, com grandes alegorias articuladas. Mas a disputa no primeiro grupo é muito acirrada, e não gostamos de falar em favoritismo. Estamos empenhados em permanecer no grupo especial, se acontecer de ser bicampeã será uma consequência.
A penúltima escola a desfilar, já na madrugada de terça-feira (21), será a Real Grandeza, que promete um desfile para mexer com os sentidos do público presente. O enredo este ano será "Perfume. Fonte de desejo e humor, amor e paz". Além de explorar a importância das fragrâncias para os diversos povos, o Real promete perfumar a avenida com seus carros alegóricos.
Encerra o último dia de desfiles o Partido Alto. Este ano, com o enredo "Amore mio… Partido Alto canta a Itália na avenida", a agremiação cruzará o atlântico para contar a chegada do imigrante italiano em solo brasileiro. "É um enredo muito rico na parte histórica, e nós vamos tratar, sobretudo, da história do povo, do imigrante. É ele quem será o ícone do nosso desfile", destaca o carnavalesco Sérgio Murilo Passos.
Entre enredos inéditos e reedições, grupos B e C abrem a folia na avenida
Ao contrário do que aconteceu nas últimas edições do carnaval de Juiz de Fora, este ano, quem abre os desfiles são as escolas do terceiro e segundo grupo. No próximo dia 19, às 22h30, a Vale do Paraibuna fará um desfile simbólico e garantirá seu acesso ao Grupo B. Em seguida, seis escolas partem em busca de uma vaga na elite das agremiações da cidade. Engana-se quem pensa que, por se tratar da segunda divisão, o trabalho apresentado será inferior. Vale lembrar que, no ano passado, a Feliz Lembrança venceu o grupo B com 10 em todos os quesitos, nota equivalente a da agremiação campeã pelo Grupo A. Para 2012, a disputa promete ser ainda mais acirrada, e entre dirigentes e carnavalescos não há quem palpite sobre favoritismo. Nos barracões de fantasias e alegorias, o clima é de muito trabalho e poucas palavras.
Mesmo dependendo apenas dos seus esforços para garantir o acesso ao grupo B, a Vale do Paraibuna quer apresentar um bom trabalho. "Não é porque não temos concorrentes que faremos um desfile ruim", garantiu o autor do enredo Marco Conegundes. A agremiação levará para a passarela o enredo "O negro é arte na Bahia" e contará a importância da matriz africana na formação da cultura e da fé baiana. A plateia será convidada para um passeio pelas diversas frentes de atuação da raça negra, desde a sua chegada por meio dos navios negreiros, passando pela sua contribuição na fundação do samba, com influência direta de ritos angolanos, até os dias atuais.
Em seguida, abrindo os trabalhos no Grupo B, é a vez da Juventude Imperial convocar a comunidade para realizar um desfile de superação. A escola apresentará o enrede "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". 2011 foi uma ano complicado, pois, além de ser rebaixada, a escola teve de lidar com um incêndio que queimou duas alas completas durante a noite de Réveillon. "Foi um ano difícil, e com este enredo queremos resgatar e restaurar o orgulho da comunidade, que sempre esteve junto da Juventude, para um desfile de força para um retorno ao Grupo A, que é o nosso lugar", explica o presidente, David Chaves. Na letra do samba, dois personagens fundem suas histórias com a da agremiação, Antônio Conselheiro, responsável pela insurreição em Canudos, e Zumbi dos Palmares, rei quilombola, forte defensor da liberdade e soberania da raça negra.
Unidos do Retiro será a próxima a entrar na Passarela, e fará uma homenagem a cidade com o enredo " Juiz de Fora – a pioneira Manchester Mineira". Segundo o carnavalesco da agremiação, Anderson Silva, o desfile será dividido em quatro partes. "No primeiro setor, vamos falar do surgimento e das viagens da corte pelas nossa região em busca de pedras preciosas. Na segunda parte, vamos falar do tradicional carnaval da cidade. Vamos homenagear os 40 anos da Banda Daki e os carnavais de clube que, com suas batalhas de confetes, contribuíram para a formação das duas primeiras escolas, Turunas do Riachuelo e Feliz Lembrança". No barracão de alegorias, um carro se destaca, trata-se de uma réplica do Cine-Theatro Central, homenageando o desenvolvimento de um pólo cultural e esportivo na cidade, no terceiro setor da escola. Encerrando seu desfile, a escola trará a Velha Guarda saudando e exaltando os mineiros. A agremiação promete uma passagem nostálgica pela avenida, para levar o espectador por entre as muitas histórias do município que, durante anos, esteve na vanguarda do país.
Bahia, Lua e café
A terceira agremiação a desfilar no domingo de carnaval será a União das Cores. Com reduto no Bairro Milho Branco, na Zona, o samba escolhido também fará uma homenagem ao povo baiano, mas o mote será outro. A escola cantará a alegria da Bahia com o enredo "Sou feliz, ninguém é mais feliz do que eu. Bahia, o senhor do Bonfim me atendeu". Os contrastes de Salvador estarão representados, como as diferenças entre a arquitetura barroca da Cidade Alta e a modernidade da Cidade Baixa. A mistura de temperos e sons do Pelourinho também estarão homenageados, assim como o carnaval, um dos maiores do Brasil.
Depois de retornar ao grupo B, a Acadêmicos do Manoel Honório agora quer alçar voos mais altos. "Este ano, a meta é subir para o grupo A", sentencia o presidente da agremiação, Marcos Ribeiro. O enredo defendido pela escola, "Do luar que clareia a academia: histórias, magias, mistérios e lendas fascinantes", pretende homenagear a Lua, satélite que acompanha a Terra e inspira a todos, além de influenciar o funcionamento do planeta azul. "Nossa ideia é homenagear este astro maravilhoso que age diretamente sobre as marés, sobre os amores e que, desde sempre, fascinou os homens", conta o carnavalesco, Aloísio Costa. A agremiação promete hipnotizar a plateia e produzir um verdadeiro eclipse de alegria e transportar a todos para outra órbita.
A Rivais da Primavera será a penúltima a desfilar, já na madrugada de segunda-feira (20). Seus componentes trarão para a avenida a história do café. "Vamos contar toda a história desta bebida que veio da África, passou pela corte europeia e encontrou um novo lar em terras brasileiras", conta o carnavalesco da escola, Carlos Alberto Rachid, sobre o enredo "A saga do café em terras brasileiras". A agremiação recém chegada ao grupo B pretende fazer um desfile irreverente e, no último setor da escola, trará seus baluartes degustando a bebida.
Aposta em sucessos passados
Encerra a primeira noite do carnaval de Juiz de Fora a tradicional Turunas do Riachuelo, primeira escola a ser fundada em Minas Gerais e a quarta no Brasil. A exemplo da Unidos do Ladeira, também fará uma reedição do enredo campeão de 1978. "A, E, I, O, Urca" virá com novidades para a versão deste ano. Além de abordar o Cassino da Urca, com suas vedetes, jogatina e glamour, a agremiação também homenageará a malandragem carioca, sobretudo no primeiro setor, quando será retratada a região da Lapa. "O último setor será o ponto alto do nosso desfile", pontua o carnavalesco e presidente da escola, Diomario de Deus "Faremos um revival da extinta TV Tupi, com seus programas de auditório e ilustres apresentadores, como o Chacrinha".









