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Contemporâneas, as palavras e as coisas


Por MAURO MORAIS

15/01/2016 às 07h00- Atualizada 15/01/2016 às 08h06

“O corte do poema”, de Mario Alex Rosa

O conta-gotas, aquele que segundo o dicionário é um “aparelho ou dispositivo com que se pingam as gotas de um líquido”, pinga letras no “Conta-letras”, do mineiro de São João del Rey Mario Alex Rosa. A pequena caixa de 15cm de largura, altura e profundidade preserva um conta-gotas “cravejado” de consoantes e vogais, que também se espalham pelo cubo. Cotidiano, o pequeno objeto se desloca de seu sentido original, sem perder sua forma. A poesia surge, então, nesse movimento que confere ludicidade, dramaticidade e uma singular narrativa a coisas vistas no mais trivial dia a dia. Como o martelo do potiguar radicado em São Paulo, Marcelo Gandhi, cuja ponta tem o formato da cabeça do pop Mickey Mouse. Ou o machado enrolado em atadura, com marcas de sangue, feito pelo goianiense Siron Franco. Ou as escovas reunidas e avermelhadas de Turinha Borém. Ou o garfo como uma espinha dorsal de Ricardo Cristofaro e os livros como tijolos de Renato Abud.

No primeiro andar do Museu de Arte Murilo Mendes, na galeria Poliedro, as formas identificam as peças, mas a infidelidade com suas funções primeiras justificam seus lugares na arte. Em “Outras coisas, outras lições”, o verbete do dicionário, localizado ao lado de cada obra, insere a discussão sobre os deslocamentos (ou descolamentos) do comum nos cubos brancos. O artifício é antigo. Para tal, o francês Marcel Duchamp cunhou o termo no início do século XX, logo após criar “Roda de bicicleta”, conjugando uma roda sobre um banco. Considerado um dos principais nomes da filosofia a discutir a importância desses trabalhos para a história das artes, o norte-americano Arthur Danto defende, em obras como “Após o fim da arte”, que esses novos fazeres impuseram uma nova narrativa das visualidades.

“O que uma obra de arte significa não é sempre algo óbvio, é preciso descobri-lo. Identificar o sentido é o que eu chamaria de uma ‘hipótese interpretativa’. A justificativa para a hipótese implica em mostrar como o sentido é corporificado”, explica Danto em entrevista de 2006 à pesquisadora Virgínia Aita, responsável pela edição de seus trabalhos no Brasil. De acordo com o supervisor do Museu de Arte Murilo Mendes, José Alberto Pinho Neves, ainda que haja uma intencional ressignificação dos sentidos, também existem, nas obras, dados afetivos embutidos. “O ralador do (Marcos) Benjamin recupera as latas de gordura do Norte, que eram transformadas, inclusive, em raladores. No interior, onde o artista morava, tinha uma pessoa que fazia isso. Então, o ralador tem esse valor de coisa da memória também”, aponta Pinho Neves. Para o arte-educador do museu, Vinicius Steinbach, “os objetos não estão ocultos, e a leitura que se faz se relaciona com o sentido literal, acabando por resultar em um jogo de interpretações”.

Grandes e atuais lições

O mesmo Mario Alex Rosa do “Conta-letras” é quem assina “O corte do poema”, numa caixa com as mesmas dimensões de 15cm e uma tesoura abaixo de letras formando “poe”. O “ma”, ali, sugere ter sido cortado. A poesia da obra, porém, surgiu antes: nas folhas de “Poliedro”, prosa poética de Murilo Mendes. Mais especificamente na página intitulada “A tesoura”, no “Setor microlições de coisas”, no qual o poeta cria seus próprios verbetes. “Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito. Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentido de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história”, diz o poeta no prefácio do livro, publicado originalmente em 1972.

Exposta em 2004, no Centro de Estudos Murilo Mendes, a mostra “Microlições de coisas” convidou artistas contemporâneos para a releitura de algumas definições criadas por Murilo. Grandes nomes, como os de Adriana Varejão, Sandra Cinto, Victor Arruda, dentre outros, aceitaram o desafio de fazer poesia da poesia. Pouco mais de dez anos depois, a exposição é reeditada, com alguns nomes a mais e outros a menos. “Buscávamos o diálogo do modernismo com artistas contemporâneos. A arte é atemporal. Havia, então, não só uma conversa com o Murilo poeta, mas com o colecionador. A própria obra dele cria esse elo com a plástica”, afirma Valéria Faria, pró-reitora de Cultura da UFJF, curadora da primeira mostra e agora integrante da nova edição.

Na época, a exposição inaugurava um acervo de arte contemporânea no Centro de Estudos Murilo Mendes. “Tivemos ótimas doações”, comemora Valéria, citando as peças de, entre outros, Marcos Benjamin e Liliza Mendes, que ficaram para a casa e agora retornam em cartaz. “Naquele tempo, alguns artistas eram estudantes pouco conhecidos. Hoje são maiores, muito reconhecidos e respeitados”, pontua a pró-reitora, dizendo de um João Modé então iniciante, estudante do mestrado na UFRJ e hoje um conceituado expoente da cena atual. Ainda completam a mostra reeditada os artistas André Burian, Fabrício Carvalho, Celeida Tostes, Renato Abud, José Damasceno e Frederico Merij.

Contemporâneos, os trabalhos também se alinham à proposta de ressignificação de objetos, como o de Gê Orthof, um dos mais surpreendentes e emocionantes, sobre o texto “A caneta”. Fixadas à parede, duas canetas se postam paralelas ao chão, com uma terceira pendente numa corda e, sobre a tampa dela, uma mínima escultura humana. Como se o pensar fosse infinitamente maior que o corpo. “A caneta conhece todos os caminhos, do grão de poeira à totalidade do cosmo: máquina mínima, microscópio do macrocosmo”, observa Murilo em seu “Poliedro”. Segundo José Alberto Pinho Neves, supervisor do Museu de Arte Murilo Mendes, o museu tem a missão de revisitar a vida e, principalmente, a obra do poeta. “O texto do Murilo é muito mais importante que sua coleção e precisa ser discutido e oxigenado, sempre.”

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