O inferno é aqui e agora

Máscaras e trilha sonora criam clima diabólico ao espetáculo
Livremente inspirado em “A divina comédia”, de Dante Alighieri, José Luiz Ribeiro escancara as barbáries da atualidade em “A comédia da falha trágica”, espetáculo que o Grupo Divulgação estreia hoje, às 20h30, e segue em cartaz até 29 de novembro, sempre de quarta a domingo, no Forum da Cultura. “Estamos numa fase muito difícil e precisamos mostrar o que não está bom para ver se conseguimos uma redução desses tempos de total falta de escrúpulo”, afirma Ribeiro.
Nessa história, Dante volta ao inferno na contemporaneidade brasileira e não encontra diferença entre o inferno medieval e a violência do nosso cotidiano. Segundo Ribeiro, que por mais de 50 anos segue botando o dedo na ferida da sociedade através de um teatro engajado com os nossos tempos, a peça é eminentemente política. ” Sabe aquilo que estava na garganta das pessoas e que não podia ser dito porque os outros falavam: ‘ah você é coxinha?’. Nós disparamos, praticamente, para tudo quanto é lado negativo, mas não estamos aqui falando sobre Dilma ou Lula. A gente vai falar se tem corrupção, se tem bandido, se tem pessoas covardes”, explica o diretor, destacando que o próprio brasileiro é convidado a seguir viagem nesta embarcação.
“Semioticamente, o povo entra na barca do inferno todo animado, o que causa uma euforia no demônio. ‘Antes, todo mundo entrava aqui chorando e tudo. Por que é que esses brasileiros estão felizes da vida?’ As pessoas não sabem o que estão fazendo, né? Essa é a grande questão”, diz Ribeiro, que também assina a trilha sonora com arranjos de Dionísio Giovanini. Ao som de “Tango das almas desesperadas”, “Olha a barca que chega”, “Mercadores do prazer”, “Negação do corrupto”, além de “Onde está a honestidade”, de Noel Rosa, o público entra no clima diabólico do espetáculo.
Nada mudou
Bem ao estilo do distanciamento brechtiano, desfilam diante da plateia figuras, como o diabo, o belzebu, a rainha diaba, o capeta e o demônio, mas também personagens bem palpáveis, como o ladrão, o traficante, o covarde, a pessoa omissa e a vereadora que desvia verba da merenda escolar para arcar com seus próprios luxos. “Todos aqueles elementos que, num certo sentido, já se apresentavam no tempo de Dante e que hoje encontramos de forma direta. Acredito mesmo que o público vá reconhecer o que está acontecendo”, diz o diretor, ressaltando o que foi pensado para a cenografia.
“O cenário é uma descida em profundidade, com uma grande escadaria. Temos uma cortina de veludo chamuscada e uma iluminação entrecortada. O pentagrama invertido assinala a posse do mal, é o símbolo do diabo. O figurino remete ao clássico”, comenta ele, chamando atenção para as máscaras usadas pelos atores. “São confeccionadas em papel machê. O elemento coreográfico é quase como um coro grego do Aristófanes, aquela comédia em que eles tiravam a máscara e começavam a falar mal do governo. Esse é o ponto básico.”
Em cena, estão Wall Oliver e Márcia Falabella, no papel dos reis do inferno, Victor Dousseau, na pele de Dantes, e ainda Marcos Saramela, Rebecca Gramlich, Johnes Drummond, Mariana Sampaio, Felipe Vasconcelos, Júlia Buttenbender, Lorenza Cris, Saulo Machado, Diogo Miranda, Renan Souza, Michell Costa, Fabrício Alves, Ana Santos, Marina Lopes. A sonotécnica é de Marina Metri.
A COMÉDIA DA FALHA TRÁGICA
De quarta a domingo, às 20h30. Até 29
de novembro
Forum da Cultura
(Rua Santo Antônio 1.112 – Centro)









