Escriba do presente
Falando com a clareza e a precisão que caracterizam os comunicadores do rádio, o editor geral da Tribuna, Paulo César Magella, registrou seu depoimento no projeto "Diálogos abertos", do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). Durante as duas horas de gravação, PC – como é conhecido por amigos, colegas, leitores e ouvintes – resgatou episódios que marcaram seus 37 anos de trajetória no jornalismo, revelando detalhes curiosos de sua carreira, que inclui momentos pitorescos e também emocionantes. As perguntas dos jornalistas Denise Gonçalves, Renato Dias, Elizabeth Gouveia e Ricardo Miranda, do colunista César Romero, e do pró-reitor de Cultura José Alberto Pinho Neves, ainda deram margem para reflexões sobre as questões éticas do jornalismo e o futuro dessa profissão diante de um cenário em transformação.
Nascido em Santos Dumont, PC dedica-se a registrar a história de Juiz de Fora há quase quatro décadas. A vinda para a cidade aconteceu em 1974, quando, aos 17 anos, foi aprovado para uma vaga na Super B3, que depois se tornaria a Rádio Solar. O ingresso na imprensa juiz-forana não foi tão fácil assim. Depois de perder o horário do teste, recebeu uma segunda chance de Paulo Emerich. No dia seguinte, no mesmo horário, teve nova oportunidade de comprovar sua vocação, sob avaliação de Natálio Luz. A notícia da aprovação veio dois dias depois em um telefonema cheio de expectativa.
Sem irmãos, mas com muitos primos, PC define a si mesmo como "filho único de família grande". Do pai e da mãe, ambos analfabetos, recebeu uma educação rigorosa e o exemplo de perseverança. "Foi nesse ambiente que eu cresci, muito rígido em termos morais", afirmou. O jornalista ressalta o perfil empreendedor do pai, apesar da pouca instrução. Ferroviário de profissão e diretor de uma escola de samba e de um time de futebol por amor, não era do tipo que entregava os pontos. Se não havia dinheiro para a equipe, comprava uma sessão de cinema e encarregava os jogadores de vender os ingressos.
Na Super B3, exerceu diversas funções até chegar ao jornalismo, ofício complicado em tempos de ditadura militar. A repressão, entretanto, rendeu situações engraçadas. Segundo PC, a rádio estava submetida a uma vigilância mais áspera, com veto de muitas notícias de Brasília. Sem a agilidade da internet e dos celulares, a informação era um artigo difícil, e, não raras vezes, os jornalistas tomavam ciência de determinados acontecimentos através dos próprios censores. Com a notícia proibida na emissora, o jeito era ir até a redação do "Diário Mercantil" e repassar a novidade, que era publicada na edição do dia seguinte.
A carreira no grupo "Diários Associados" seguiu até 1981, quando PC foi trabalhar na equipe inaugural da "Tribuna de Minas". No jornal, foi editor de política e economia, secretário de redação e editor geral, cargo que ocupa desde 1995. Os tempos iniciais trazem boas recordações. "A Tribuna estava a pleno gás. Todos éramos muito jovens e dispostos a revolucionar", comenta.
Embora tenha tomado gosto pelo impresso, PC não esconde a paixão pelo rádio, veículo que ocupa um espaço importante na vida do jornalista desde os 12 anos, quando operava o som de uma igreja em Santos Dumont. Às virtudes e percalços do radialismo, PC credita sua habilidade de falar de improviso sem tropeços, característica fundamental na missão de prender a atenção do ouvinte. "Éramos obrigados a ter argumento para tudo."
O mesmo jogo de cintura e profissionalismo foram decisivos na carreira de locutor de futebol, ofício que exigiu certos sacrifícios, como narrar gols contra seu querido Flamengo. As rivalidades esportivas, aliás, renderam momentos hilários, dignos das grandes paixões humanas, como ser acusado por torcedores de ambos os lados de favorecer determinado time, ou ser coagido em território adversário. Durante o depoimento, o jornalista relatou uma célebre partida entre Tupi e Alfenense, na cidade do Sul de Minas. Indignados com uma matéria exibida por uma emissora de TV, que acusava o time local de doping, os alfenenses receberam a imprensa juiz-forana com extrema animosidade. Mesmo sem ser responsável pela tal reportagem, PC foi vigiado de perto por um segurança durante toda a transmissão do jogo. Diante do gol adversário, anunciado sem entusiasmo, recebeu o conselho: "Estica o gol, moreno".
Curiosamente, a trajetória de PC no jornalismo esportivo começou no susto, quando foi obrigado a substituir um locutor que havia faltado. As viagens para cobrir as partidas exigiram incontáveis finais de semana longe da família, mas permitiram que o jornalista testemunhasse episódios históricos, como o célebre caso do goleiro chileno Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido por um foguete no Maracanã. "Estava acompanhando a rota daquele lúmen, e ele caiu a uns dois metros do Rojas. Quando ele caiu, eu gritei: é mentira", relata.
Depois de tantos embates futebolísticos, hoje, PC confessa que prefere evitar a tensão dos jogos. Não consegue assistir mais que os minutos iniciais das partidas do Flamengo e da Seleção Brasileira. Para preencher o tempo nesses minutos críticos, caminhadas e longos passeios de carro.
O acaso também levou o jornalista ao programa que tornou seu nome ainda mais popular, a "Ronda policial". Na opinião de PC, a atração vespertina da Rádio Solar foi a comprovação da própria força do rádio, capaz de estabelecer uma aproximação franca com o ouvinte e promover uma integração com o público maior e mais intensa que em qualquer outro meio. "Sou de uma geração em que fazíamos do rádio uma sala de estar. As pessoas se sentiam ouvidas", comenta.
Além do rádio e do jornal impresso, a carreira de PC estendeu-se para a TV durante os três anos do programa "Cenário", comandado por ele na extinta TV Visão. Apesar da duração relativamente curta, a atração deixou momentos marcantes, como duas entrevistas com o deputado federal e ex-ministro José Dirceu e um debate com os candidatos a prefeito de Juiz de Fora. PC acredita, ainda, que a experiência tenha permitido sua aproximação com o meio acadêmico, algo que incentivou seu retorno à universidade. Graduado em direito, pelo Instituto Vianna Júnior, o jornalista frequenta atualmente o curso de filosofia. "Os participantes que recebi me abriram a cabeça para o manancial teórico", diz.
Apesar das perspectivas pessimistas, PC acredita que o jornal impresso não terá fim rapidamente."Será apenas uma migração de plataforma. Mesmo assim, é uma realidade ainda muito distante do Brasil. Como o jornal vai acabar sem as pessoas terem condições de navegar decentemente?" A sobrevivência do veículo também estaria na produção de material diferenciado, que aprofunda assuntos e contextualiza o leitor a notícias divulgadas mais superficialmente pela internet. "O jornalista tem que ficar aguçado em seu trabalho. Se fizer só arroz com feijão, perde a preferência. Saber, as pessoas sabem. Mas, muitas vezes, elas não entendem o porquê."
Essa responsabilidade é compatível com a visão que PC mantém do próprio papel do jornalista, enquanto profissional que registra a história e permite a perpetuação dos fatos para as gerações futuras. "Devemos estar atentos ao que fazemos, porque são informações que ficarão. As pessoas fazem os fatos, e são eles que contam a história do mundo. Somos apenas escribas disso."









