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Há dez anos elas não fazem tudo sempre igual


Por MAURO MORAIS

14/01/2016 às 07h00- Atualizada 14/01/2016 às 07h47

Grupo canta clássicos em ritmo de samba, que vão de

Grupo canta clássicos em ritmo de samba, que vão de “Geni e o Zepelim” a “Vai passar”

Elas não precisam ir aos recentes rolezinhos. Mas algumas vão. Há dez anos, 25 mulheres defendem o compositor e escritor Chico Buarque. Sem ter o motivo do desagravo político no qual ele se envolveu, no Leblon. Há dez anos, essas mulheres protegem o artista cantando suas músicas. E fazendo festa. “Sempre fomos defensoras dele. Somos fãs de carteirinha. Sempre o defenderemos”, diz Vivian Freitas, produtora e uma das fundadoras do grupo, que desembarca em Juiz de Fora nesta sexta, às 23h, para show no Cultural Bar, onde lançam o disco “MDC 10 anos”. Primeiro trabalho comercial da carreira do bloco carioca, o álbum reúne as músicas que elas começaram tocando no carnaval e acabaram durando o ano todo.

“Não tocamos só no carnaval, mas durante o ano inteiro”, conta Vivian, que toca a cuíca aprendida na Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha, em 2003. “Depois de dez anos, temos um grupo menor para shows. Somos 25, mas cerca de 15 se apresentam sempre, revezando às vezes”, aponta, citando as muitas formações das integrantes. “A maioria é mulher comum, professora, médica, enfermeira, estudante. A mais nova tem 33, e a mais velha está próxima dos 60. É um universo feminino. Somos muito amigas. Uma família.” Como reunir, então, todas essas mulheres? “Ensaiamos à noite para todo mundo dar um jeito”, ri Vivian.

Primeiro bloco predominantemente feminino do Brasil e primeiro bloco temático do Rio de Janeiro, o Mulheres de Chico se arrisca na transposição de clássicos do cancioneiro popular para o universo dos batuques. A dramática “Roda viva”, estandarte contra a ditadura, ganha o ritmo do coco. “A banda” transforma-se numa animada marchinha. Com surdo, agogô, cavaco, guitarra, cuíca, repique, caixa, baixo, tamborim, chocalho e vocais, as mulheres executam a obra de Chico em ritmos de ijexá, baião, coco, xote, funk, frevo e marchinhas.

Mulheres afetivas

Segundo Vivian, o repertório é escolhido por votação, o que resulta em escolhas afetivas. “Escolhemos os sambas, mas também arranjamos o que não é, como ‘Geni e o Zepelim’ e ‘A flor da idade’. Fazemos arranjos usando ritmos brasileiros”, explica a integrante. Na hora de pensar no disco, quando o recorte precisava ser ainda maior, também lançaram mão dos afetos. “Escolhemos nossas músicas preferidas, inéditas, as que tocamos melhor. Escolhemos não fazer só samba. Tivemos muitos critérios para esse disco”, pontua, citando “Construção/Deus lhe pague”, “Quem te viu, quem te vê”, “João e Maria” e “Vai passar”.

Para o padrinho do bloco, o compositor Pedro Luís, do Monobloco, o trabalho sobre a produção de Chico é muito relevante nacionalmente. “As Mulheres, nesse caso as de Chico, vêm fazendo sua Construção passo a passo, com delicada firmeza, não é de hoje. Boto fé!”, ressalta no encarte do disco. Para as mulheres, trata-se de uma necessária e saudável ode ao homem que sente, nas palavras, a sensibilidade feminina. “Somos fãs dele. Chico Buarque é aquele que ouvimos desde a infância, na vitrolinha que nossos pais colocavam para tocar. Ele é o compositor que melhor fala sobre a alma feminina, se colocando no lugar da mulher”, destaca Vivian.

Para qualquer idade

Tamanha identificação não se restringe aos palcos, mas também às plateias. Diferentemente dos desfiles de escolas de samba, que levam um tempo até que a audiência decore e se arrisque num coro do samba-enredo, as Mulheres de Chico já chegam à cena com a plateia toda decorada – e, até mesmo emocionado. “Nosso público é muito variado. Temos muitos jovens e muitos idosos nos seguindo. O Chico é para qualquer idade. Isso dá um clima muito bom para as apresentações”, comenta Vivian, dizendo que, mesmo passada uma década, as interpretações continuam emocionando o grupo.

A configuração do grupo de 2006 se mantém em 2016. “Poucas saíram, e poucas entraram. A formação é 95% a mesma.” Os números que as cerca, porém, mudaram bastante. O desfile das Mulheres de Chico, que concentra mas não sai na Praia do Leme, chega a reunir cerca de 80 mil foliões, e a agenda ano a ano se amplia, com apresentações em festas, formaturas, teatros e, principalmente, na rua. A banda delas não passa, não se move, mas canta coisas de amor. E como não vive só de carnaval, também não deixa “cada qual no seu canto/ em cada canto uma dor”. As mulheres que cantam Chico Buarque cantam a poesia e fazem diferente. Há dez anos elas não fazem tudo sempre igual.

MULHERES

DE CHICO

Nesta sexta, 15, às 23h

No Cultural Bar

(Av. Deusdedit Salgado 3.955 – Teixeiras)