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Outras Ideias com Benito Taranto


Por MAURO MORAIS

13/12/2015 às 07h00

Benito coleciona arte e é um dos membros da Academia Nacional de Música (Leonardo Costa/09-12-2015)
Benito coleciona arte e é um dos membros da Academia Nacional de Música (Leonardo Costa/09-12-2015)

Enquanto o aluno executa, no piano de cauda, “Assim ninava mamã”, de Heitor Villa-Lobos, o professor Benito Taranto está concentrado, em posição solene, como a comungar. Terminada a récita, se atém a dizer da emoção pueril do compositor, do texto que se esconde em cada nota. Naquele universo, rodeado por quadros, móveis antigos e dois pianos (um, de cauda, Yamaha, e outro, vertical), o homem de 81 anos parece distante da cidade que, do outro lado de sua janela, no prédio de esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Sampaio, pulsa em seus inumeráveis tons. Como em toda a sua trajetória, Benito sempre preferiu a discrição e a singeleza.

“Respiro música. Fico emocionado, sensibilizado quando ouço certas coisas”, diz, engasgado e com lágrimas nos olhos, o senhor que, num período de convalescença após uma grave infecção, abre as portas de sua casa, onde criou sua própria sala de concertos. “Além de dar aulas, sempre tive esse lado da atividade dinâmica, de movimentar. Ensinar notas qualquer um faz, mas é preciso ensinar a ouvir música. Não basta tocar a nota da música, mas a música das notas. É como um livro, que na segunda leitura você consegue se aprofundar mais”, explica, rodeado por 32 cadeiras diante dos agigantados instrumentos.

 

Ecos da Itália

Em 1986, Antônio Pasquale Taranto, acompanhado do irmão, desembarcou no Brasil trazendo na bagagem as memórias da Itália natal e os instrumentos que os dois nunca abandonaram, mesmo depois de terem ido trabalhar na roça e no comércio de café. O avô de Benito Taranto era violinista, já o tio-avô, flautista. O apreço musical, no entanto, não se tornou imperativo para os oito irmãos de Além Paraíba. “Minhas irmãs se casaram cedo, e meus irmãos seguiram caminhos distintos”, conta. “Não tenho ouvido musical, mas estudei bastante”, conta o professor, que ainda adolescente foi fazer curso técnico de piano no Rio de Janeiro para, logo em seguida, lecionar em Juiz de Fora. “Estava com 19 anos, já tinha feito o curso e fui convidado para das aulas em um dos dois conservatórios que tinham aqui – o estadual e o brasileiro, no qual fui dar aulas”, lembra. Em 1957, porém, entrou para o curso de economia e, depois, passou a ensinar piano, apenas, em casa.

 

Economista criativo

Na vida de Benito, havia espaço para as moedas, e, sobretudo, para as notas. Na Universidade Federal de Viçosa, foi cursar o mestrado em economia rural e, como estudante bolsista, ajudou a criar um setor sócio-cultural na instituição. Após trabalhar no Incra, onde chefiou a seção da Região Nordeste, retornou às salas, sem abandonar a arte, representada pela fundação de um setor cultural na UFV. “Tínhamos, por semana, até quatro apresentações, palestras e cursos. Naquela época, início dos anos 1970, o MEC havia implantado a educação artística nas universidades, que só tinham canto orfeônico. Podia ter música, teatro e outras expressões. Levamos muitos professores para capacitação. Criei um curso de criatividade, para alunos de todas as faculdades, montei bandas e um conjunto de sopros”, orgulha-se ele, aposentado em 1993, ano em que retornou a Juiz de Fora, para aulas no Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, além da própria casa.

 

Recital íntimo

Ainda debilitado, aprendendo a enxergar o mundo com apenas uma visão, Benito, um dos membros da Academia Nacional de Música, que reúne os professores-referência no país, prepara, para este domingo, uma audição com seus três alunos de piano. “Faço aos domingo, à tarde, quando as pessoas já tomaram vinho e dormiram”, brinca ele, anfitrião de tantos e tantos músicos renomados ou em início de carreira. “Há pouco tempo, trouxe um clarinetista brasileiro com mestrado na Alemanha, morou nos Estados Unidos e agora foi chamado para o Conservatório de Paris. Um músico extraordinário. No Rio de Janeiro tem uma grande professora e empresária, Myrian Dauelsberg, que traz grandes espetáculos para o país e me indica alunos seus para tocarem aqui”, conta, demonstrando o mesmo bom gosto nas paredes, onde exibe obras de Jayme Aguiar, Dnar Rocha, Carlos Bracher, Henrique Lott, Walter Lewy, Renato Stehling, Ruy Merheb, Carlos Scliar e Alfredo Volpi, além de um desenho assinado pelo mineiro Farnese de Andrade, que comprou na exposição do artista na Capela Galeria de Arte, espaço que do sagrado recebeu o profano das mais contemporâneas artes. “Mesmo morando em Viçosa, sempre que podia vinha para ver o que acontecia por aqui”, diz. Benito, um senhor de uma elegância e gestos contidos, construiu, silenciosamente, uma sinfonia emocionante de incentivo às artes. Agora, contudo, se diz cansado, distante até mesmo das teclas do piano. Mas toca “Impressões seresteiras”, de Villa-Lobos, para se despedir. Como um gentleman, não deixa que nada se desfaça em desalinho. Tudo é cerimonioso e, como o martelo do piano, faz vibrar.