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A cidade corre (quase) invisível

Cristo Redentor Igreja da Glória Sensível, o artista anuncia, em versos, o retratado em seus traços. “A cidade corre/ Com suas cores/ Por entre meus dedos,/ Fazendo-me grafite estático/ Diante de seus contrastes.” Em “Referências (quase) invisíveis”, série que integra o calendário da Tribuna, encartado na edição deste domingo, para assinantes, Gerson Guedes permite o […]

Por MARISA LOURES

13/12/2015 às 07h00

Cristo Redentor

Cristo Redentor

Igreja da Glória

Igreja da Glória

Sensível, o artista anuncia, em versos, o retratado em seus traços. “A cidade corre/ Com suas cores/ Por entre meus dedos,/ Fazendo-me grafite estático/ Diante de seus contrastes.” Em “Referências (quase) invisíveis”, série que integra o calendário da Tribuna, encartado na edição deste domingo, para assinantes, Gerson Guedes permite o aflorar de uma técnica que lhe é tão cara. As cores, sempre intensas, agora dão lugar ao branco. “Sempre resguardei o meu desenho, mas ele se mostra mais vivo, é o esqueleto do meu trabalho. Antes, ele estava encoberto por pessoas, acontecimentos, por uma paisagem”, revela ele, que, nas 15 obras, apresenta paisagens e monumentos históricos de Juiz de Fora.

O passado se faz presente quando Gerson faz surgir, à caneta, o bonde percorrendo as ruas da cidade e a riqueza da arquitetura do Colégio Stella Matutina. Contudo, o artista se põe a observar a vida que corre, colocando em evidência as mudanças trazidas com o tempo. “Preciso fotografar primeiro, porque o prédio sofre alterações com elementos que entram ou desaparecem. Misturo as referências reais com as mudanças”, explica Gerson, deixando transparecer, na voz e no olhar, o prazer pela arte que brota após os dois anos e meio dedicados ao trabalho na Pró-reitoria de Cultura da UFJF.

Sobre uma tela branca, surgem “telhados, abóbodas, fachadas, sobrados…”, que fazem lembrar o que já não mais atrai o passante, entregue à fria tela de um celular. “São pontos que estão na memória ou acima da linha do horizonte. São quase invisíveis porque ninguém tem mais tempo de olhar para eles, e eles são referências que codificam a cidade de Juiz de Fora.” Para voltar a um terreno inúmeras vezes visitado, Gerson conta com o imprevisível. “Não apago nada, despisto meu erro porque ele faz parte da minha liberdade e da velocidade do desenho”, diz ele, que, de forma inédita, também traz as estruturas dos patrimônios em perspectiva, acompanhadas da volumetria. “Consigo ampliar muito mais o quadro ao fazer uso da perspectiva. Foi uma experiência nova que trouxe mais vigor ao desenho.”

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Olhe para mim

Gerson decidiu iniciar a série com o complexo do Colégio Stella Matutina, e a escolha tem razão de ser. “Com a demolição do Stella, fez nascer em nós a consciência da preservação. Foi preciso sacrificá-lo para que outros bens, como o Cine-Theatro Central e o Espaço Mascarenhas, fossem conservados”, diz, apontando para o quadro a fim de revelar uma de várias leituras que podem ser feitas. “Fiz o prédio só com a fachada. Só tem a casca, fazendo referência a sua demolição. Você não vê a parede.”

Mascarenhas

Mascarenhas

Entre as “referências (quase) invisíveis”, está a Catedral Metropolitana com as cores do seu interior saindo pelas janelas. Na confecção desse prédio, Gerson inova, mais uma vez, trazendo um recurso da arte barroca. “Esse vitral do centro da catedral deveria ficar um pouco mais ovalado para acompanhar o desenho, mas, propositalmente, eu o coloquei de frente. Queria que esse círculo, assim como os olhos dos santos barrocos, me acompanhasse onde eu estivesse. Minha intenção é dar a entender que esse patrimônio está dizendo ‘olhe para mim, cuide de mim, eu ainda existo'”, dispara o artista.

Catedral

Catedral

Com o calendário que chega, hoje, às casas dos leitores da Tribuna, não restam dúvidas de que o berço de Murilo Mendes e seu patrimônio constituem o universo do artista. “O Gerson sempre retratou Juiz de Fora, e a Tribuna sempre prezou por referenciar a cidade. Foi uma união perfeita. Tivemos um retorno expressivo dos apoiadores nesse momento tão difícil da nossa economia, e o nome dele contribui para isso”, afirma Suzana Neves, diretora do Grupo Solar Comunicações. “O mais interessante é ficar o exemplo de que a gente não tem que se apegar só ao poder público como o grande promotor e fomentador das nossas ideias, seja qual for nossa concepção artística. Temos que chegar com nossa proposta até a iniciativa privada. Nesse projeto, está envolvida não só a produção de um pintor, mas uma reflexão sobre o patrimônio”, conclui Gerson.

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