Outras Ideias com Américo Ribeiro

Aos 65 anos, Caju curte o radioamadorismo (Marcelo Ribeiro/10-09-2015)
Américo Ribeiro é um homem de muitas novas vidas. Um homem de renascimentos. O primeiro aconteceu logo depois de sair do útero da mãe. O irmão gêmeo, mais frágil, chegou após seu nascimento e não resistiu, assim como a mãe. “Fiquei, e minha avó me acolheu”, conta ele, cujo pai era professor de matemática e física nas Forças Armadas e não tinha condições de criar sozinho os quatro filhos mais um bebê. Resolveu, então, pagar a sogra para que ela cuidasse do menino. Américo passou a morar com a mulher, uma lavadeira, mais uma tia. Tempos de escassez.
“Minha raiz está em Santa Terezinha, me criei no Tupi, minha vida sempre foi ali. Vivi no meio dos jogadores. Minha família era pobre, e eu fazia tudo para eles, serviços de banco, viajava, o que precisasse. Já fui maqueiro, mas não gostava muito. Entrava para ajudar, para que o Tupi não gastasse dinheiro”, diz. Não havia formalidades, muito menos carteira assinada. “Era um garoto, fazia porque gostava”, orgulha-se ele, que renasceu, no Estádio Salles Oliveira, como Caju.
O apelido surgiu de Íris Brito, jogador que fez parte da equipe alvinegra no final dos anos 1960, e logo pegou, ainda que o motivo não tenha sido preservado pela memória de Caju. Dono de uma voz grave, muito alto e extremamente polido, num tom quase formal, Caju não chegou a estudar. “Fiz até o primário e resolvi entrar para o mundo da sociedade, e ela me recebeu de braços abertos.” O que aprendeu, conta, foi o mundo que lhe ensinou e, principalmente, o homem que lhe fez, mais uma vez renascer.
João
Aos 10, o pequeno Caju, que corria de um lado a outro na sede do Tupi no Santa Terezinha, renasceu na casa de João Pires, uma das estrelas do “Fantasma do Mineirão”, formação que somou importantes vitórias em 1966, contra os times da capital mineira, recebendo o convite para treinar com a Seleção Brasileira de Pelé e Garrincha, em Caxambu. “Moro, ainda hoje, na casa da família. Sempre viajei com o João, fazia serviços para ele, era um homem de confiança dele. Agradeço muito essa família que me adotou. Nunca fui empregado, era filho de criação”, emociona-se ele, que acompanhava o pai na viagem do dia 17 de junho de 2013, quando o carro chocou-se contra a mureta de contenção que divide as pistas, na região de Petrópolis, e pôs um ponto final na vida do ponta-direita.
Popular
“Aonde ele estava, eu também estava. Quando ele se foi, meu chão caiu. Ele tinha muito carinho por mim, me tratava como um filho”, diz, com a voz embargada. Esse adeus fica na sua cabeça? “Fica, porque perdi um amigo, um pai. É uma marca que tenho e nunca vai se apagar. Ele foi meu espelho, meu caminho, minha vida”, completa o homem que, na companhia de João, circulou pelas mais altas rodas da sociedade juiz-forana, tornando-se uma figura popular e querida. “Aprendi muita coisa e hoje sou um homem feliz. Em todos os lugares que chego, sou benquisto”, orgulha-se. Pensionista do pai biológico, Caju hoje, aos 65 anos, vive tranquilamente, sempre a ajudar. Nossa conversa aconteceu em uma imobiliária no Centro Comercial Manoel Honório, onde Caju costuma passar algumas horas de seu dia, a conversar e a indicar possíveis imóveis. O Tupi? Só nas recordações. “Ainda admiro muito o clube, mas não acompanho mais, porque, toda vez que vou ao campo, lembro-me de meu pai”, comenta. Solteiro e sem filhos, gosta de andar. “Sou tranquilo, conversado, respeitado, não bebo, não fumo e adoro radioamador.”
Positivo
“Aqui é Caju. Tem alguém na frequência? Estou dando uma entrevista para o jornal Tribuna de Minas e falo sobre nosso radioamador. Positivo?!”. Caju fala diante de um pequeno rádio transmissor portátil, uma de suas maiores paixões recentemente. “Vai fazer um ano que estou nisso. Tenho um VHF básico e um Superstar”, gaba-se, para logo ser interpelado sobre aquele universo desconhecido para mim. “Somos filiados à Anatel e fazemos telecomunicação. Conversamos, ajudamos uns aos outros, fazemos campanhas para arrecadar mantimentos para desabrigados”, explica, ao que percebo se tratar, então, de um aparelho “pai” dos celulares e “avô” do Whatsapp. Nas ondas do rádio, após a dor do silêncio do pai, Caju renasceu e descobriu outra forma de contribuir. Continua com o mesmo espírito do menino de Santa Terezinha que corria pelo campo a ajudar o time do coração, depois, a colaborar com o ídolo, e, agora, a ajudar quem a frequência lhe apresentar. Positivo?!









