A realidade é show e saborosa

Raul Lemos e Izabel Alvares disputam a esperada final do “MasterChef Brasil” nesta terça

Quando o “MasterChef Brasil” chegar à final, já nos primeiros minutos da próxima quarta-feira, não deixará um vazio. O programa que conferiu à Band longas horas de protagonismo, com uma vice-liderança isolada no horário rara para a emissora, despede-se da grade com direito a festa de luxo, na qual mais de 500 espectadores ocuparão o estúdio da rede, no Morumbi, em São Paulo, recepcionando os finalistas Raul Lemos e Izabel Alvares, que chegarão em tapete vermelho para a transmissão ao vivo. Além de confirmar a mudança de hábito do brasileiro diante da TV, conseguindo fisgar os telespectadores no final da noite e início da madrugada, o reality gastronômico em sua segunda temporada foi líder absoluto de comentários no Twitter. De acordo com o Ibope Twitter TV Ratings, que mensura a repercussão do conteúdo televisivo no ambiente digital, desde sua estreia, a atração se mantém como a mais popular da TV aberta entre os internautas e, apenas na primeira semana de setembro, contabilizou cerca de 17 milhões de impressões (quantidade de vezes em que os tweets relacionados a um programa foram visualizados durante sua exibição), mais que o dobro do resultado do programa que ocupa o segundo lugar.
Aos saudosistas, restará, ainda, “Cozinheiros em ação”, nas quintas-feiras do GNT, “Bake off Brasil”, nos sábados do SBT, além das aguardadas novas temporadas de “The taste Brasil” (GNT), “Que seja doce” (GNT), “Food truck – A batalha” (GNT), “Cozinheiros sob pressão” (SBT), “Superchef” (Globo), “Jogo de panelas” (Globo), “MasterChef Brasil Júnior”, previsto para outubro, na Band, e a terceira temporada já confirmada de “MasterChef Brasil”. No encalço do boom, a Record produz, ainda para este ano, “A batalha dos confeiteiros”, atração comandada pelo norte-americano Buddy Valastro, de “Cake boss”. TLC, Home&Health e BemSimples são alguns dos canais que reproduzem realities estrangeiros, como as muitas versões de “MasterChef” pelo mundo.
O espetáculo no qual muitas cozinhas foram transformadas, segundo especialistas, modificou bastante a relação dos brasileiros com o comer e, principalmente, com o fazer. Juiz de Fora, na opinião de chefs e professores, reflete a nova paisagem que vem ganhando o país nos últimos anos. Para o chef Marcão de Paula, do Bistrô Marquise, aberto há seis anos, os programas serviram para revelar o show que acontece na realidade. “A clientela começou a entender os 40 graus da cozinha, que, antes, ficava no fundo, e, agora, está mais para frente no salão”, pontua Marcão. “Percebo uma curiosidade e um interesse maiores, e um desejo de interação. É uma relação mais lúdica, que não resulta em cobranças”, completa o professor e chef Gabriel Bastos, do restaurante Savoir Faire, com cinco anos de existência
Finalista do reality “Cozinheiros em ação” em 2014, Joana Kamil destaca, porém, fatores conflitantes nessa superexposição (e midiatização) da gastronomia. “Enriquece a profissão à medida em que valoriza os profissionais e melhora a oferta de cursos, especializações e espaços. Por outro lado, a profissão do cozinheiro ganha vaidade, e isso é prejudicial. A atuação na área demanda conhecimento e dedicação muito grandes. O profissional acaba só querendo finalizar a preparação e não fazer o processo completo, que é complexo. Ego não combina com cozinha”, pondera ela, que se tornou nacionalmente conhecida e prepara, para 2016, um blog com dicas, receitas, vídeos e pesquisas. “Participar do programa mudou muito a minha vida,100% do ponto de vista pessoal, porque passei a acreditar mais no meu trabalho. E, do ponto de vista profissional, agregou valor, já que me permitiu uma inserção maior na gastronomia, que também é uma ciência”, comenta a professora nos cursos de nutrição da Unipac (Juiz de Fora e Barbacena) e de tecnologia em gastronomia, do CES/JF.
Clássico em expansão
Enquanto reúne um elenco heterogêneo, formado por profissionais e amadores das cozinhas, os realities também demonstram a necessidade de um conhecimento mais profundo sobre uma artesania aparentemente apenas intuitiva. O fenômeno, então, chega aos cursos de profissionalização. Segundo a diretora acadêmica do CES/JF e professora do curso de Tecnologia em Gastronomia, Patrícia Rezende, desde o surgimento da graduação na cidade, em 2010, a procura se mantém bastante alta. “As turmas estão sempre cheias. Existe uma grande curiosidade em conhecer o que é a gastronomia”, ressalta. “As turmas também são extremamente heterogêneas, há alunos de diversas faixas etárias que chegam por gostar, por ter como hobby, para desestressar da própria profissão e aqueles que buscam uma carreira na área. Alguns começam com a ideia de aprimorar o cotidiano e acabam abrindo o próprio negócio”, acrescenta.
Somando oferta de profissionais, desenvolvimento da pesquisa e do pensamento na área e onipresença do assunto nas redes, altera-se a mesa. De acordo com o chef Gabriel Bastos, “a formação acadêmica não substitui a prática, a experiência, mas a complementa”, mostrando as muitas possibilidades que estão ao alcance dos olhos e da boca. “Juiz de Fora já melhorou muito. Há dez anos, a cidade era só de comida mineira. Hoje os clientes questionam, nos impulsionam a pesquisar e pensar. A cidade tem um mercado complicado, com um público extremamente conservador, que gosta de se informar, mas dificilmente banca a inovação. Falta valorizarmos nossa produção, o que é contornável”, defende. “Nosso público ainda é clássico. Exige, por exemplo, porções muito grandes. Eles gostam do pratão cheio”, concorda o chef Marcão de Paula, dizendo-se otimista com a alteração da paisagem vista desde que começou a vestir sua dólmã (aquela vestimenta com botões nas laterais), há 15 anos.
Território a envolver conhecimentos de administração e biologia, além de exigir técnicas elaboradas e minuciosas, como as de corte de carnes e harmonização de acompanhamentos, a gastronomia ganha luzes e se reforça como área cultural, lugar de linguagens e identidades. Falta, segundo Joana Kamil, um olhar mais generoso para os saberes regionais e menos desejo por universalizações, o que, para ela, tem sido a tônica de muitos realities. “Ao mesmo tempo em que buscam a sofisticação, a gourmetização (que é pegar um ingrediente convencional deixando-o mais atrativo do ponto de vista gastronômico), vejo que ainda falta valorizar a culinária tradicional, que tem se perdido com o tempo. É preciso dar valor à cultura gastronômica, o que nós, mineiros, temos muito”, reflete.
Como bem mostram os programas, por trás de um prato há uma pessoa e suas raízes. No caso de Izabel, cariocas, e de Raul, paulistas. A final do “MasterChef Brasil” será, mesmo, um clássico nacional. Quem leva R$ 150 mil, R$ 1 mil por mês em compras, um carro zero e uma bolsa de estudos na Le Cordon Bleu, em Paris?









