Desejos humanos

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T.O.C. aborda as consequências sofridas pelo poderoso Ricardo Jordão ao firmar pacto com o diabo
Deixar a agilidade da fragmentação para adentrar em cenas lineares, por vezes, compostas por longos diálogos. O desafio é apenas um dos que o Teatro Obsessivo Compulsivo (T.O.C.) faz questão de enfrentar em sua nova montagem "Barco sem pescador", que estreia nesta sexta (13), no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. "Uma das nossas discussões é como fazer para que as cenas não se arrastem. Chegar a possibilidades, seja em reações, gestos, falas, para que não pareçam tão longas, mesmo que sejam", expõe o diretor Gustavo Burla, que divide a função com Paulo Moraes.
O espetáculo é o segundo do grupo, que passou pela escola do Divulgação e se uniu, em 2011, para estrear "A vida como ela foi…", composto por fragmentos de obras de Nelson Rodrigues – único espetáculo da cidade a se apresentar no último Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora. "Embora já nos conhecêssemos no palco e fora dele, foi o primeiro contato com o público com essa formação. Nesse novo trabalho, já existe uma segurança interna, um reconhecimento entre os atores, embora sempre exista a pressão da estreia", avalia o diretor.
"Barco sem pensador" é uma adaptação do texto do espanhol Alejandro Casona, pseudônimo de Alejandro Rodríguez Álvarez (1903 – 1965). A obra, de 1945, aborda temas caros ao dramaturgo – que obteve sucesso internacional durante exílio em Buenos Aires -, como amor, medo e esperança. "É um texto com um humor sutil, nem tão refinado a todo tempo, nem tão escrachado, mas que possui o peso dramático de sua narrativa", explica Burla, destacando ainda a sensibilidade das personagens, em suas fraquezas, e as frases fortes, ainda que isoladas de seus contextos.
Na essência da trama, está uma antiga história, que, há séculos, rende fantasias de riqueza, longevidade, beleza e luxúria no imaginário do ser humano: ter os desejos mais secretos realizados num pacto tratado com o diabo. No texto de Casona, um poderoso e experiente homem de negócio, Ricardo Jordão, se entrega à tentação do demônio, tendo que pagar pelas consequências de sua fraqueza.
Em constante troca
Ao optar em seguir os próprios caminhos teatrais, os atores do T.O.C. se lançam à pesquisa e às experimentações que inspiram o elenco. "Tentamos explorar o que é novidade para o grupo, embora o que é novo na nossa concepção possa não o ser para outras pessoas", avalia Burla. A escolha de posicionar o público em formato de "ferradura", tomada em função do espaço para o primeiro espetáculo, vem agora acompanhada de um conceito mais funcional. "No CCBM, o público se dispõe em arena, mas também já temos uma marcação que funciona no palco italiano", diz. "Queríamos mudar o formato no qual estávamos mais habituados a atuar, no palco, e pagamos um preço por isso. É um exercício mais difícil, que nos faz crescer."
Estar em troca constante de funções é outra proposta do grupo. Dividir a direção, por exemplo, foi uma forma encontrada pelos diretores, que também estão em cena, de estarem abertos a colocações diversas. "A ideia é estar em troca constante, e cada ator poder assumir as funções com as quais se sente mais confortável, sem deixar de acrescentar suas visões em todo o processo."
Focados na estreia, o elenco, também formado por Júlio Andrade, Leandro Boscato, Marcos Araújo, Marisa Loures, Paloma Destro, Táscia Souza, pretende seguir participando de festivais e se apresentando em outras cidades, aliando a interpretação às obrigações individuais cotidianas. "O encontro com grupos e plateias diferentes, como as dos festivais, além da própria troca humana possibilitada nesses eventos, tão importante no teatro, é sempre muito enriquecedor ao nosso trabalho", finaliza Burla.
BARCO SEM PESCADOR
Dias 13, 14, 15, 20 e 22 de setembro, às 20h30
CCBM
(Av.Getúlio Vargas 200)









