Eles estão de volta
Ainda não dá para saber até quando os anos 80 vão durar no mundo da música. Mas, independentemente de qualquer dúvida, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo, bandas, com as mais variadas marcações rítmicas, insistem em não deixar a década dos sonhos morrer no passado. Diante da rica seara de canções e estilos daquele período, resta ao público matar a saudade de pérolas que enalteceram a história, como o Kid Abelha pretende, ao retomar seu trabalho autoral em 2011, após quatro anos fora do circuito.
Pode até parecer mentira, mas é neste contexto de downloads e disseminação via YouTube e MySpace que Paula Toller (vocais), Bruno Fortunato (guitarra) e George Israel (sax) vêm nadando de braçada entre importantes nomes da cena, lançando novidades e relembrando hits que não foram excluídos do imaginário popular. "Quando subimos ao palco, desde a primeira apresentação em Tóquio (um único show em 2010) e em especial nas estreias de Curitiba e São Paulo (abril de 2011), tudo fez sentido e veio à tona a recompensa do trabalho desses 29 anos", ressalta, por e-mail, George Israel, dando a entender que, além do retorno, a proximidade dos 30 anos de formação é um motivo a mais para celebrar. "O prazer de tocar ao vivo tantas canções conhecidas é um deleite, junto à cumplicidade do público, que canta tudo do começo ao fim", reforça o saxofonista, legitimando a pretensão do trio para a apresentação marcada para amanhã em Juiz de Fora.
Longe dos palcos desde o Réveillon 2006/2007, o Kid Abelha decidiu retornar por aclamação do público e, por que não dizer, do próprio mercado. "Não tem fórmula, a gente continua aprendendo no caminho. Teve uma parte burocrática chata na retomada, mas a música arredondou tudo, e agora é só alegria. Pé na estrada", reforça George Israel. Para ele, a maior novidade está no fato de o grupo tocar músicas antigas com arranjos originais, o que, certamente, não vai gerar estranhamento para quem cresceu ouvindo canções como "Nada sei", "No seu lugar", "Na rua, na chuva, na fazenda", "Lágrimas e chuva", "Dizer sim é dizer não", "Amanhã é 23", "Peito aberto", "Só penso em você", "Eu tive um sonho", "Como eu quero" e "Pintura íntima".
Ignorando o recesso da banda carioca, os fãs continuaram comprando o DVD "Acústico MTV", lançado em 2002, e que, vencendo a crise do mercado, teve mais de um milhão de cópias vendidas. No entanto, a trinca, que já provou manter a química sonora iniciada quando eles ainda eram chamados de Abóboras Selvagens (1981), vai mostrar, por aqui, inéditas. "É lógico que não resistimos e inserimos duas na mescla que vai do primeiro disco ao ‘Pega vida’, último antes da parada", Israel diz, fazendo alusão às recentes "Veio do tempo" e "Glitter de principiante". Sem prazo de validade, o Kid Abelha, segundo o saxofonista, não parou para pensar no futuro, principalmente por estar certo de que, para o presente, bastam as performances Brasil afora. "O resto que vier é lucro", finaliza.
O tempo não para
As novidades para 2011 não param por aí. Outros ícones do pop rock brasileiro, como Barão Vermelho, Cidade Negra e RPM, estão preparando sua volta aos estúdios e aos palcos. Para o produtor norte-americano Eric Silver, o mais importante é sempre a música. "Em Nashville (EUA), temos um ditado que diz: ‘Tudo começa com uma canção’. Às vezes, um público mais novo nem sabe que a banda é mais antiga e está voltando, porque ele nunca ouviu antes", considera Silver, que está de passagem pelo Brasil para participar da gravação do DVD do NX Zero neste sábado.
O RPM, entretanto, abriu a sessão nostalgia, trazendo um álbum de inéditas com a reunião de Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo P.A. Pagni – que se separaram pela segunda vez em 2002. Para divulgar o lançamento do disco, o quarteto prepara uma turnê que inclui um show no Rock in Rio, mas que antes passa pelo programa "Domingão do Faustão", este domingo. "Olhos verdes" é o nome da turnê cuja pré-estreia aconteceu na Virada Cultural de São Paulo em abril. No dia 27 de maio, Curitiba recebe show do Cidade Negra, que, após três anos na geladeira, retorna com Toni Garrido no comando dos vocais e os sucessos que, a partir de 1986, colocaram seu nome entre os bambas do rock-reggae nacional.
Já os músicos do Barão Vermelho, conforme previsões na internet, só voltam a se reunir em 2012 para comemorar os 30 anos do lançamento de seu primeiro disco, homônimo, depois de quatro anos de hiato. Também convidados a se apresentar no Rock in Rio, os roqueiros recusaram a proposta, e só o vocalista Roberto Frejat participará do evento. "Não desejamos qualquer espécie de homenagem para que, quando voltarmos para comemorar os 30 anos, o nome da banda esteja cada vez mais forte, e as pessoas, com muita vontade de nos assistir. Seria sacanagem dar um aperitivo no festival e não o prato principal", explicou o baterista Guto Goffi, à revista "Rolling Stone".
Mas o que tornou esses grupos famosos pela primeira vez? Entusiasta da canção genuinamente brasileira, Eric Silver acredita ter a resposta. "Nos anos 80, a música era centrada em artistas e bandas, não tão orientados para o trabalho da imagem, mas muito para a música em si, e as pessoas valorizavam isso." Ao comparar o período áureo do rock verde e amarelo aos dias de hoje, quando a era da internet parece ter tomado o campo do talento, Eric Silver defende a criatividade, acima de tudo. "Os downloads legais até que são ótimos para a indústria, porque as pessoas podem escolher o que comprar, ou seja, não precisam adquirir um CD todo por causa de uma música, prova de que a receita criativa não pode esgotar jamais. Ao mesmo tempo, os downloads ilegais impactaram negativamente na indústria da música e dos artistas", pondera o produtor, sugerindo aos que estão de volta a receita para manter o vigor sem deixar de se reinventar. "Ser criativo, mais criativo do que nunca", resume. "Às vezes, a vantagem para os artistas mais jovens é que eles são extremamente criativos na forma de usar as novas tecnologias para atingir o seu público."
KID ABELHA
Amanhã, às 22h
La Rocca
(Av. Deusdedith Salgado 2.500). 3232-5308









