Ser pop é ser erudito
Se uma nova dinâmica da sociedade questiona fórmulas antigas, também abre inúmeras possibilidades de lugares. Um deles são as salas de concertos, restritas, até então, ao seleto grupo de eruditos pertencentes às classes mais favorecidas. Hoje em dia, esse quadro se encontra revirado, na medida em que tais espaços tiveram suas dimensões ampliadas, abarcando também um nicho alternativo. O resultado? São dissidentes de uma cultura de massa comprometidos com a arte que, para o bem da democratização, não permanece no ostracismo.
Prova disto são os cerca de 40 alunos de projetos sociais no Rio que participam do encerramento da 23ª edição do Curso Internacional de Música (Cinves), em concerto esta noite, a partir das 20h30, na Igreja do Rosário. Na cidade desde o dia 2 de janeiro, os participantes – todos beneficiados com bolsas (inscrição, alimentação e alojamento) viabilizadas pela Prefeitura de Juiz de Fora – são vistos como uma forma de romper com o abismo existente entre propostas de cunho social e música clássica. Oriundos das orquestras Cordas do Afroreggae (Parada de São Lucas), Cordas da Grota, Projeto Aprendiz (ambos de Niterói) e Centro Cultural Cartola (Mangueira), jovens de 10 a 30 anos estarão reunidos para entoar obras do período Barroco e da música brasileira em geral.
Nossa proposta segue a febre surgida na Venezuela, onde o projeto ‘El sistema’ (em Caracas) vende ao mundo, há 25 anos, a referência em orquestras juvenis nascidas a partir de projetos sociais, destaca Felipe Prazeres, regente e violinista da orquestra principal esta noite, ao lado dos professores Jairo Chaves (viola/ex-Filarmônica de Berlim), Marcos Ribeiro (cello/aluno de Antônio Menezes no Rio) e Tarcísio Silva (contrabaixista da Orquestra Sinfônica Brasileira). Prazeres, que há 12 anos integra a Orquestra Petrobras Sinfônica (atualmente como spalla), conduz a trupe como se estivesse numa camerata.
Um dos idealizadores do Cinves, Ciro Tabet, regente da orquestra intermediária do encontro de hoje, concorda com o violinista ao apostar suas fichas na oportunidade de oferecer o entrosamento entre os aspirantes a uma carreira profissional no ramo e professores renomados. Os desdobramentos na vida destes jovens é notável, ele diz. Há uma melhoria considerável no agir, pois eles passam a ter disciplina, respeito ao outro por tocarem em grupo, contato com uma arte que normalmente não está disponível em seu dia a dia.
A exemplo dos venezuelanos, os brasileiros vêm dando o que cantar no quesito formar orquestras dentro de comunidades, como as sinfônicas de Heliópolis, em São Paulo, e Neojibá, na Bahia. Nesse sentido, o Cinves é um dos poucos a reunir diferentes projetos de outras cidades por aqui, plantando, cada vez mais, sua semente entre o solo fértil existente no território da música clássica inserida na rotina de jovens carentes. O mais importante, porém, é a troca de experiências com os professores do festival (Cinves), que também tocam, alimentando, dessa forma, o sonho desses meninos em se tornarem profissionais, sublinha Felipe Prazeres, referindo-se também aos 28 alunos aleatórios e aos 70 membros do coro. Todos participam do encerramento.
Com ensaios diários das 16h30 às 18h30 – ontem e hoje, das 14h às 17h30 -, o grupo de alunos do Cinves compartilhou uma rotina dinâmica nas dependências da Escola Estadual Delfim Moreira (Grupo Central). Descontraído e pedagógico, o espaço recebeu profissionais como o violinista norueguês Ole Bohn (terceira vez no Brasil), ex-aluno da Juilliard School e professor do Conservatório de Música de Sydney (Austrália), e o juiz-forano Marcus Rodrigues, professor de violino que atua no Rio. Vê-los tocando numa orquestra é como realizar um sonho onde o impossível se torna possível, refuta Ciro Tabet. Além das aulas, eles têm os concertos oferecidos pela Scala (Escola de Música) e voltam para suas casas com uma mente repleta de cultura erudita, conclui o maestro, cujo repertório vai de Claudio Santoro a A. Corelli, passando por Jupiter from the planets, opus 32 de Gustav Holst.
Já a orquestra da oficina, regida por Felipe Prazeres, reúne peças como Prelúdio das bachianas nº 4 de Villa-Lobos, Divertimento k 136, de Mozart, concerto para quatro violinos em si menor de Vivaldi e a suíte Holberg opus 40, de E. Grieg. Antes mesmo de aprender a tocar violino (aos 11 anos), Prazeres já dialogava com a canção erudita. Por influência osmótica do pai (maestro) e o restante da família envolvida com música, ele aprendeu o instrumentou aos 17, quando se tornou profissional ao ser aprovado no concurso da Petrobras Sinfônica.
A despeito da trajetória singular – pelo menos diante dos alunos que regerá hoje -, Felipe Prazeres – atual padrinho da Orquestra de Cordas Afroreggae – acredita que faltam professores interessados. Precisamos de mais apoio, pois vontade sobra, dispara. O curso, por falta de mais verba, ainda não contempla, por exemplo, aulas de contrabaixo, oboé, fagote, clarineta, flauta, instrumentos de madeiras e metais. Um dia, quem sabe, não formamos uma (orquestra) sinfônica, como vem sendo desenvolvido na Venezuela? Aonde qualquer forma de arte vem sendo agregada ao poder de transformação.
Para encerrar, o violinista afirma que pretende viabilizar aulas particulares e bolsas para que, pelo menos, alguns dos alunos não fiquem no vácuo da descontinuidade. Mas em meio a tantas necessidades, como fica a música clássica nesse cenário, especialmente entre os mais jovens? É o que, apesar da verba insuficiente, o Cinves procura responder. Afinal, continuar parece ser o idealismo que tem feito a diferença entre novos e antigos talentos.
CINVES
Hoje, às 20h30
Igreja do Rosário
(Rua Santos Dumont – Granbery)









