Riscos visíveis de bens invisíveis

A paleta sempre muito colorida de Gerson Guedes agora dá espaço ao branco. Entre estudos feitos à caneta em folhas A4, no ateliê que fica ao lado de uma horta (com direito a orégano e taioba frescos), na casa situada no calmo bairro Quintas da Avenida, o artista prepara a série em que retorna às origens: suas, da arte e da cidade. Em “Referências (quase) invisíveis”, destaca em lápis prédios históricos de Juiz de Fora. As 13 telas que finaliza revelam a grandiosidade de bens que já sumiram das vistas, como o complexo do Colégio Stella Matutina, na Avenida Rio Branco, e outros que as vistas já nem dão conta, como a suntuosa Câmara Municipal, no Parque Halfeld. “Esses prédios foram referências arquitetônicas para a cidade durante muito tempo e, aos poucos, foram perdendo suas forças. Eles apresentam um segundo andar ou espaços que estão acima da linha do olhar. E, hoje, todos passam com os celulares nas mãos e são incapazes de olhar para o alto, para o todo”, comenta o artista, que espera lançar os trabalhos em uma exposição virtual programada para novembro.
Na obra, enquanto o traço em lápis é exposto sob um fundo branco, os arredores são preenchidos com tons que remetem à ideia de memória, numa técnica em diálogo com as reminiscências, também inédita para Gerson. “São telas com uma camada fina de resina acrílica na qual, antes de secar, risco com o lápis. Passo a resina com a mão, e ela gera falhas imprevisíveis. A única coisa que controlo é o traço, que também não consigo fazer novamente”, explica ele, valorizando o que é primordial em seu trabalho: a forma. “O desenho é a raiz do meu processo de criação. Ele é o gesto mais puro e mais simples da arte, e vai contra essa tecnologia geradora de solidão”, reflete.
A série, que mais uma vez retoma a história da cidade, tema presente na trajetória do artista, torna-se claro o embate proposto entre artesanato e tecnologia. Segundo ele, “a tecnologia deve ser uma ferramenta, não um meio principal. Hoje a própria arte perde a identidade. O desenho é o esqueleto de tudo, mas muitos recusam”. Rodeado de livros sobre Juiz de Fora, de Albino Esteves a Almir de Oliveira, Gerson persegue o que deseja ser perene. “Não é uma reflexão saudosista, mas de como estamos lidando com nosso tempo, vivenciando nossa cidade. Não temos tempo para o ócio, para a observação”, reivindica ele, que, após sua aposentadoria como professor do Colégio de Aplicação João XXIII e como pró-reitor de Cultura da UFJF, dedica-se exclusivamente à produção artística, além de exercícios que o permitem esse tal ócio, como a pescaria e o trabalho com a terra.
O que só o olho vê
Um dos prédios retratados por Gerson Guedes, a Câmara Municipal surge em sua tela em dois diferentes tempos: no formato de hoje e com os muitos detalhes de antes. “A fachada era quase em rococó, com muitos detalhes. Tinha um relógio no alto, um sino que chamava os vereadores para as sessões. Isso no século XVIII”, aponta ele, que também apresenta, no trabalho, pequenas reproduções da volumetria desses espaços. “Os detalhes revelam a referência geométrica do prédio, o esboço em sua formatação de triângulos, retângulos, círculos, quadrados. Isto é, a primeira informação”, diz ele, que acaba por fazer um documentário afetivo da paisagem histórica da cidade.
Ao retirar da invisibilidade essa arquitetura local repleta de significados, o artista traz para o debate, também, o peso do espaço público nas narrativas individuais. Enumera prédios como o Cine-Theatro Central, a Catedral Metropolitana, a antiga Prefeitura e faz recordar os finados bondes para contar de um lugar que se faz cenário belo. “Um ‘apito meridiano’/ anuncia o fim de uma era ‘Glamour’./ O calçadão ferve no ‘olho vivo’,/ ferve em meus olhos,/ ferve no que respiro”, ressalta, em poesia sobre a série, referindo-se ao que já foi (a loja Glamour, na Halfeld, é uma delas) e o que é (como o projeto municipal “Olho vivo”). E tudo que resulta na tela reflete convivências diárias nas ruas. Em seu processo – “Não desenho a lápis, só a caneta, porque acho o erro interessante. Na imperfeição, encontro o diferente” -, o artista não se deixa solitário e mergulha nas mesmas ruas que pinta. “Faço fotografias, vou até o prédio. É muito comum desenhar na rua, porque, assim, pego detalhes que só o olho capta, nem a câmera faz.”









