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(Des)encontro silencioso e violento


Por Bruno Calixto

11/04/2011 às 17h20

Cabeça da Shango (ou Xangô): jovem que estava sendo iniciada em Kétou

Cabeça da Shango (ou Xangô): jovem que estava sendo iniciada em Kétou

Foram quatro semanas em território nagô. Quatro semanas dormindo em esteira, bebendo água filtrada em saquinhos plásticos. Banhos de balde, cozimento em pequenas cuias sobre carvão, com poucas fontes de luz elétrica, sem tomar café, quase sem carnes, legumes e frutas. Suficiente para captar parte dos valores repassados primitivamente de geração em geração, um mês parece ter sido pouco para a jornalista juiz-forana Maria Bitarello e o cineasta Fábio Nascimento desenharem a realidade do povoado de Kétou, em Benin, país da região ocidental da África, onde eles, em fevereiro de 2009, puderam partilhar do mito que convive lado a lado com a tradição oral.

O objetivo da viagem, como esclarece Maria, foi produzir um documentário sobre a forma ritualística como os moradores se comunicam entre si e com as divindades na forma de orixás presentes por lá. Enquanto a estreia do filme "Iya Shango", prevista para este ano, não acontece, a dupla resolveu utilizar o material fotográfico produzido para a exposição homônima, aberta na última quinta, na Galerie Goutte de Terre, em Paris, onde Maria e Fábio residem há mais de um ano.

"O projeto é de Nuno Ai, francês de origem portuguesa, filho de Xangô, um dos orixás cuja história é o mote deste trabalho. Não sabíamos no que isto ia dar, mas a ideia foi amadurecendo até chegarmos às 21 fotos em cor (durante o dia) e em preto e branco (à noite)", conta Maria. A finalidade, segundo ela, foi transmitir a imagem de sensibilidade daquele povo. "A seleção será sempre arbitrária, como uma câmera que aponta e o quadro que se faz", diz.

Destaque do título da mostra (que segue até 27 de abril) e do documentário, Iya, conforme detalha a jornalista, é a representação da mãe, símbolo maior da influência exercida pela mulher na região. "Elas são muito importantes neste conceito de que os valores são medidos pelo tempo de vida e pela cultura oral", ressalta Maria, que atua como professora de português na Université Blaise Pascal, em Clermont-Ferrand, na França.

Foram utilizadas três câmeras: uma Nikon D700 e duas Canon AE-1, além de seis rolos de filmes. Entre rituais noturnos, coreografados no caos, e cotidianos diurnos, organizando-se pela repetição, Maria Bitarello, Fábio Nascimento e Nuno Ai contaram também com a colaboração da francesa Camille Barratt, que emprestou sua experiência em TV às tomadas que flagraram, entre outras coisas, a vida de quem não se adaptou à privacidade e ao conceito de individualismo.

Um luso-francês, uma francesa e dois brasileiros residentes na França. Eram quatro brancos diante de 40 mil deles. "Em uma ritualizada incompreensão de mão dupla em que todos representavam uns para os olhares dos outros, nossa câmera apontou rostos que encaram de frente. Olhares que não se desviam, que não piscam, que não sorriem, não choram, não entregam", sintetiza Maria no texto de apresentação da mostra. "E ali aprendemos que histórias só vivem de sua própria contação."