‘Bons navegantes’: espelho de amizade

Carlos Fernando Cunha e Cacáudio lançam, nesta sexta-feira, EP só com parcerias da dupla


Por Cecília Itaborahy, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci

10/12/2021 às 07h00

Bons navegantes
As seis músicas do EP “Bons navegantes” são um recorte da parceria entre os músicos (Foto: Igor Tibiriçá/ Divulgação)

A melodia de Cacáudio é o que vem guiando as palavras de Carlos Fernando Cunha. As realidades em comum, desde serem professores a estarem envolvidos em um mesmo grupo de amigos que é quase uma família, são a base inspiradora para que haja um encaixe entre uma coisa e outra. “O diálogo que a amizade com o Cacáudio me proporciona está espelhado neste trabalho.” O trabalho ao qual ele se refere é o EP “Bons navegantes”, lançado nesta sexta-feira (10) nas plataformas digitais: álbum que faz perdurar as tantas horas de trocas que, até então, estavam restritas às rodas informais e ao Encontro de Compositores.

“Bons navegantes” tem seis músicas. Todas são parcerias entre os músicos. Mesmo que relativamente curto, o EP passa por uma série de ritmos e referências que os dois trazem em comum. A primeira música, “Astronave”, de acordo com Carlos Fernando, pode ser considerada a que mais resume a história toda. “Tem tudo ali”, ele fala. Assim como a maioria das músicas feitas em parceria, Cacáudio manda uma melodia, muitas vezes sem uma referência sobre um tema específico, e uma palavra que vem à mente do compositor pode ser definitiva para guiar a música toda. A que abre o disco, por exemplo, fala sobre memória. Quando Carlos Fernando ouviu, foi o que sentiu e compôs com tons quase infantis. Ao conversar com seu parceiro, Cacáudio assumiu que tinha pensado exatamente nisso. “É muito louca essa relação de parceria”, diz Carlos Fernando.

Bons navegantes
Capa do EP “Bons navegantes” foi feita pela também amiga Margareth Guiga

“Bons navegantes”: no plural

O nome do disco surgiu da segunda música que, na faixa, vem no singular: “Bom navegante”. Ela foi feita na época do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, para a dupla, assume sentimento de medo, sim, mas também de esperança. Adotar o plural no nome do EP foi uma escolha para fazer com que quem ouça sinta-se junto dos músicos, dentro de um barco mesmo, em uma só remada forte.

A única que foi feita na pandemia foi “Cata-vento”. Ela quase não entrou, não fosse a decisão de lançar “Lua formosa” como single. A vontade, nela, é ser uma pena e ter a calmaria ao cair até o chão. É quase impossível não associar as produções de agora com a pandemia. Mesmo que não tenha referência, é um retrato do que passa pela cabeça dos artistas no presente, e toda a reunião para gravar, neste momento, um disco. Nesse caso, envolvendo também João Cordeiro (bateria e vibrafone), Berval Moraes (baixo acústico), Humberto Araújo (sopros) e os próprios Cacáudio (teclados) e Carlos Fernando Cunha (percussões), com direção de Rodrigo Campello.

O disco termina com “Samba é missão”, como se, depois de passar pelo frevo, pela bossa nova e os tambores de Minas, o samba fosse onde tudo isso deságua. “Não tem como não beber dessa fonte”, diz Carlos Fernando. A letra foi feita para seu filho, Arthur, também através da melodia de Cacáudio. Mesmo que só com composições dos dois, “Bons navegantes” é um pouco também dos outros amigos. O que registra isso é a capa, feita pela também amiga e artista Margareth Guiga.