Minas lidera recordes gastronômicos e transforma receitas gigantes em atração turística
Queijo, doce de leite, torresmo e frango com ora-pro-nóbis viram estratégia para projetar cidades, marcas e produtores
Em Minas Gerais, a comida já não precisa caber no prato para contar uma história e, nos últimos meses, receitas conhecidas dos mineiros ganharam proporções fora do comum. Houve doce de leite produzido às toneladas em Viçosa, frango com ora-pro-nóbis em São Pedro dos Ferros, nova quebra de recorde com torresmo em Juiz de Fora e mais uma sequência de marcas gastronômicas em Ipanema. Por trás dos números, há algo que vai além da curiosidade. Prefeituras, produtores e organizadores têm usado os recordes para transformar sabores locais em vitrine cultural, turística e econômica.
O movimento é percebido pelo RankBrasil, responsável por homologar recordes nacionais e, segundo o diretor da entidade, Luciano Dário, a gastronomia ganhou espaço pela capacidade de repercutir nas redes sociais. “As pessoas gostam muito de alimentos gigantes. É uma repercussão muito grande”, afirma. De acordo com ele, Minas Gerais é hoje o estado com a maior quantidade de recordes gastronômicos certificados pelo RankBrasil.
Para que o tamanho anunciado vire oficialmente um recorde, porém, não basta encher uma panela. O RankBrasil acompanha peso, volume, dimensões, ingredientes e o preparo, considerando para a medição o alimento já pronto para ser servido, e não apenas a soma da matéria-prima utilizada. “Quando uma empresa ou uma prefeitura chama o RankBrasil, ela quer mostrar seriedade”, explica Luciano.
Ipanema fez dos recordes gastronômicos sua principal atração
Se em algumas cidades o recorde apareceu como novidade dentro de festivais, em Ipanema ele já se tornou parte da identidade da própria cidade. O município acumulou oito marcas gastronômicas, entre elas queijo Minas padrão, doce de leite, queimadinha, pão de queijo, muçarela, frango com quiabo, paella mineira e goiabada.
Município pequeno, distante da capital e sem grande parque industrial, Ipanema buscava alternativas para atrair visitantes e movimentar a economia quando a aposta foi justamente naquilo que já fazia parte da vida local: a produção leiteira. A estratégia nasceu com a Festa do Queijo e a repercussão do primeiro queijo gigante fez a Prefeitura perceber que a curiosidade em torno do recorde poderia funcionar como divulgação para a cidade e, ao mesmo tempo, valorizar produtores rurais.
A partir daí, o cardápio cresceu. Primeiro vieram outros produtos ligados ao leite, depois receitas tradicionais da culinária mineira. Com o passar das edições, o queijo também deixou de ser apenas a estrela da festa e ganhou espaço no cotidiano do município. “Hoje o queijo faz parte da cultura da cidade. Nossas crianças aprendem sobre o queijo nas escolas”, afirma o prefeito Júlio Fontoura. Segundo ele, a participação dos moradores no evento ajudou ainda a fortalecer a relação da população com a cidade e com a própria produção local.
Além do investimento municipal, laticínios, fábricas, supermercados e outras empresas participam com insumos, produção e patrocínios. A Prefeitura assume parte dos custos e da estrutura do evento. Em vez de concentrar recursos em atrações musicais de grande porte, Júlio diz que a opção é colocar os próprios alimentos no centro da festa. “As nossas estrelas são os recordes.”
Ipanema tem cerca de 20 mil habitantes, mas, segundo o prefeito, reúne nove hotéis, número que ele relaciona ao crescimento do turismo impulsionado pela Festa do Queijo e pelos recordes. Durante o evento, a rede chega a 100% de ocupação, enquanto bares, restaurantes e comerciantes também recebem o aumento do fluxo de visitantes. “A gente quer que o turismo cresça e, ao mesmo tempo, fomente o comércio local e gere mais emprego.”

Muito além do tamanho da receita
Em Viçosa, a receita gigante nasceu para marcar outra dimensão da história local. As 3,4 toneladas de Doce de Leite Viçosa foram produzidas durante as comemorações do centenário da Universidade Federal de Viçosa (UFV), unindo uma marca já consolidada a uma instituição que faz parte de sua própria origem.
A operação utilizou cerca de 7,5 mil litros de leite adquiridos de produtores rurais da região e resultou em aproximadamente 10 mil porções distribuídas gratuitamente. Para o Laticínio Viçosa, o tamanho excepcional não era um fim em si mesmo. “O objetivo era fazer com que o centenário da UFV não fosse apenas uma data comemorativa, mas se transformasse em uma história de marca capaz de gerar conversa, orgulho e lembrança”, informou a empresa à Tribuna.
A expectativa também passa pela repercussão da iniciativa. Mesmo com reconhecimento nacional e em processo de expansão para novos mercados, o laticínio avalia que o recorde pode ampliar a lembrança da marca e aproximá-la de novos públicos. Ao mesmo tempo, a compra do leite na região colocou a cadeia produtiva local dentro da comemoração.

Em São Pedro dos Ferros, a lógica foi semelhante, mas com outros ingredientes. A quinta edição do Festival Gastronômico ganhou um frango com ora-pro-nóbis de mais de 300 litros, receita escolhida para reunir duas referências locais: a atividade de um frigorífico que emprega centenas de trabalhadores no município e a tradição culinária do Quilombo do Brejal.
À Tribuna, a Prefeitura explicou que a intenção era inovar no festival e, ao mesmo tempo, fazer com que uma cidade de pouco mais de 7 mil habitantes ganhasse reconhecimento por elementos ligados à própria cultura. Empresas participaram com a doação do frango e de outros ingredientes, enquanto o município assumiu custos relacionados à estrutura e à homologação. Segundo a administração, o festival recebeu mais de 10 mil pessoas em três dias e teve público quase três vezes maior que o registrado anteriormente.

Já em Juiz de Fora, o caminho passa por um alimento que há muito tempo ocupa mesas de bares e restaurantes: o torresmo. A porção gigante passou a integrar o Festival de Torresmo e Costela há quatro anos e, desde então, a organização vem buscando superar a própria marca.
Para Leandro Vaz, da KB Produções, a repercussão do recorde ajuda a colocar em evidência não apenas o evento, mas tudo o que existe ao redor daquele alimento. “Quando você valoriza um produto de uma cadeia alimentar complexa, acaba valorizando toda a cadeia produtiva envolvida”, afirma. Além da atração de público, ele aponta reflexos na busca por patrocinadores e na identificação dos moradores com a iniciativa.

De uma panela de frango a toneladas de doce de leite, os recordes mudam de tamanho, receita e propósito, mas encontram terreno fértil em Minas. Transformam alimentos que já pertenciam ao cotidiano das cidades em acontecimentos capazes de atravessar suas fronteiras.
O exagero das medidas pode ser o que primeiro desperta a curiosidade, mas não é o que fica. Por trás dos quilos, litros e metros, estão produtos, produtores e histórias que já fazem parte daqueles lugares. Em Minas, onde comer também é uma forma de preservar memória e identidade, fazer a maior receita pode ser uma maneira de contar em grande escala a história de cada cidade.
*Estagiário sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy









