Ouça agora

Vanessa da Mata se apresenta em Juiz de Fora no Festival de Inverno e afirma: ‘Sou autora antes de cantora’

Cantora faz show no Festival de Inverno neste sábado e fala sobre autoria feminina, criação e música brasileira


Por Cecília Itaborahy

10/07/2026 às 06h10

VANESSA DA MATA DIVULGACAO 3
Em entrevista, Vanessa da Mata fala sobre seu último álbum ‘Todas elas’ e o show em Juiz de Fora neste sábado (Foto: Divulgação)

Vanessa da Mata tem uma voz inconfundível. Seja cantando suas próprias canções ou interpretando, sempre tem um detalhe que entrega que a música passou por ela. Isso porque, na maioria das vezes, ela vive aquilo. Apesar de ser uma palavra hoje em dia tão usada sem sentido, com ela, tem propósito. E isso tem muito a ver com o fato de que, como afirma, ela é autora antes de ser cantora. No último álbum lançado, “Todas elas”, ela também assume a produção e consegue expressar, nos ritmos, o que acredita para além das palavras.

Outro fato inegável é que Vanessa da Mata sabe fazer show. Suas apresentações são espetáculos milimetricamente pensados. E ele pode ser visto em Juiz de Fora, neste sábado (11), dentro do Festival de Inverno, que ocupa o Estacionamento do Shopping Jardim Norte neste fim de semana. No mesmo dia, se apresentam Zé Ramalho e 3Dias. Os ingressos ainda estão disponíveis na Central de Eventos, inclusive para a sexta-feira (10), quando sobem ao palco Marcelo Falcão, Detonautas, Maneva e a novidade, Onze20.

Nesta entrevista à Tribuna, Vanessa da Mata fala sobre a sua criação, ao mesmo tempo que aborda temas essenciais à sua obra, como a ocupação das mulheres na música e a intolerância religiosa.

Tribuna: 1 ano de lançamento de “Todas elas”. O que você aprendeu com esse trabalho? E o que carrega dele?

Vanessa da Mata: O “Todas elas” é um dos projetos mais maduros da minha carreira. Acredito que ele mostra o meu amadurecimento, é o disco mais autoral que já escrevi até o momento. Nesse show realizo o sonho de cantar “O Mio Babbino Caro”, de Giacomo Puccini para a ópera de Gianni Schicchi. E canto essa música no mesmo tom de Maria Callas! É um projeto muito importante e especial pra mim.

Vanessa da Mata se apresenta em Juiz de Fora no Festival de Inverno e afirma: ‘Sou autora antes de cantora’
(Foto: Divulgação)

O álbum é inteiramente autoral, inclusive (tirando “Nada mais” no deluxe). Quando você pensou nessas músicas, já tinha ideia de que era sobre as mulheres que o disco iria falar?

Quando terminei o musical sobre a Clara Nunes estava totalmente exausta, mas a minha cabeça não parou de fazer músicas lindas, então eu comecei a produzir o “Todas elas”. As músicas não paravam de jorrar na minha cabeça, eu não conseguia dormir, então precisava acolher isso e fazer esse álbum. Foram dias bem intensos, mas era como se o meu corpo estivesse precisando fazer isso, era uma necessidade de criação mesmo. Sempre fui uma pessoa muito intensa e nesse momento me vi intensa novamente. Então o disco veio dessa forma.

Eu achei muito lindo uma vez que você disse que a música sempre foi feminina pra você. E isso é impactante, sobretudo em um mercado que segue tão masculino. Queria que falasse sobre isso.

Pra mim a música sempre foi feminina! E acho que meu álbum “Todas elas” fala também disso, da música como corpo feminino, com curvas, nuances, rios sensoriais e sentimentais. Cresci ouvindo grandes intérpretes, mas muito poucas compositoras. Esse sempre foi um espaço culturalmente associado aos homens. A mulher não falava e quem compunha eram os homens para as mulheres. Isso vem mudando aos poucos, com mais mulheres escrevendo suas próprias histórias, mas ainda hoje, menos de 10% do direito autoral no Brasil é feminino. Muita gente não sabe que eu sou compositora das minhas músicas, sou autora antes de ser cantora. Precisamos ver mais mulheres ocupando esse lugar de criação.

Mas, além disso, outros assuntos são levantados, como a intolerância religiosa. E você faz questão de levantar sempre isso. Você enxerga sua música como um meio de transformação?

É um assunto que está muito presente na minha vida e na minha obra musical desde sempre e então é um processo bem natural para mim abordar essa questão na minha obra. A música é uma ferramenta de libertação e enquanto artista uso a minha voz para falar de temas que precisam ser debatidos na nossa sociedade. Acredito que a música sempre foi um veículo enorme para lutar contra as injustiças, os preconceitos e o racismo.

Sua versão de “Nada mais” é muito bonita. E essa música sempre foi muito ligada à voz da Gal. Como foi pra você encontrar sua própria versão?

Gal Costa sempre foi uma das vozes mais lindas do mundo, com atitude, coragem e força feminina. Gravar uma versão de “Nada mais” é uma maneira de homenagear essa grande artista e ajudar a manter viva a tradição da música brasileira, que continua a ser admirada no mundo todo. Uma mulher muito presente nos nossos poros, na nossa vida.

Você passou a assumir a produção musical dos seus trabalhos. E dá para perceber, ao mesmo tempo, que você começa a abraçar outros ritmos. Isso tem ligação? Quando se assina a produção musical, você se reconhece mais no trabalho?

Eu acho que o trabalho de um músico não pode ser engessado. Eu sempre tive muito respeito e amor pela música brasileira. Nasci em Alto Garças, no Mato Grosso, então sempre estive em contato com ritmos que vão além dos que chegam no Sudeste. Eu acho que a geografia ajuda muito nessa coisa polirrítmica. Essa modalidade polirrítmica é muito minha desde sempre e me sustenta muito nessa variedade do canto, que me faz muito bem. Acho que essa mistura me inspira a fazer algumas músicas alegres, dançantes, outras mais intimistas, que atraem e dialogam com diferentes públicos. Pra mim esse é o papel da música, ser ouvida por todos.

Sempre achei lindo que seus shows são verdadeiros espetáculos. E você domina totalmente o palco. Sempre foi assim?

Fico feliz em saber que minhas apresentações são bem recebidas pelo público! São 20 anos de carreira e muito aprendizado. O maior deles é que não me cobro tanto e tenho segurança no que eu faço, esse aprendizado me permite sempre trazer novidades para o meu trabalho. O palco é o meu lar e isso me estimula muito, me desafia e me faz feliz. E isso reflete nas composições e shows que faço.

E mesmo com uma carreira tão consolidada, você não abre mão das turnês. Pelo contrário: roda o país inteiro. O que o show representa pra você?

Sempre que eu lanço um álbum, faço uma turnê dele por dois anos viajando por todo o Brasil. A turnê é uma maneira de levar a música para todos os cantos do nosso país. O show é o momento que encontro com meus fãs, conheço um pouco da cultura de cada cidade que me apresento, é um momento de celebração.

Por fim, queria que falasse sobre o show aqui em Juiz de Fora e o que o público pode esperar.

Viajar pelo Brasil e pelo exterior com esse show está sendo uma experiência maravilhosa e em Juiz de Fora não será diferente. Minas Gerais sempre me recebe de maneira muito carinhosa e é uma terra com muitos talentos, guardo com muito carinho todas as apresentações que já fiz em Minas. Vai ser uma noite para celebrar a composição e a música brasileira!