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Vida é movimento


Por LEONARDO TOLEDO

10/05/2011 às 07h00

Vigor e delicadeza são categorias pares. Pelo menos, é isso o que dá a entender o exemplo da bailarina Angel Vianna. Aos 82 anos, a criadora do Método Conscientização do Movimento – ao lado de Klaus Vianna – cumpre uma rotina de compromissos que costuma preencher manhã, tarde e, não raro, noite. Não é tudo. A veterana encontra energia para as apresentações do espetáculo Qualquer coisa a gente muda, em que atua ao lado de Maria Alice Poppe, sob a direção de João Saldanha. A explicação para esse vigor está em uma prática simples, trabalhada desde cedo: ela costuma ouvir o que o corpo tem a dizer. Essa mineirona, de Belo Horizonte – como ela mesma gosta de ressaltar -, esteve em Juiz de Fora no último sábado para a conclusão da primeira turma do curso de especialização em Teatro e Dança na Educação, parceria entre a Faculdade de Dança Angel Vianna e a Associação Amigos do Ekilíbrio, de Juiz de Fora.

O segredo é aprender a usar o corpo sem desgastá-lo, sem desperdiçar energia, ensina Angel. Talvez por isso a bailarina tenha buscado desenvolver a sensibilidade em diferentes modalidades. Além da dança, ela cursou belas artes e música. Tocar uma canção nada mais é que movimentar os dedos em uma cadência. Com isso, você pode trabalhar toda a percepção dos sentidos. O corpo é um instrumento de vida, utilizado para qualquer coisa que você escolher, afirma Angel, acostumada a instruir não só dançarinos, mas também atores e outros tipos de profissionais em seus cursos pelo Brasil e livros publicados.

Na opinião de Angel, o corpo pode ser entendido como uma expressão da individualidade humana, uma voz que termina por se calar diante da repressão a que é submetida. Nesse sentido, dores e eventuais vícios de postura podem ser entendidos como mensagens de que a máquina humana não está sendo utilizada corretamente. Na opinião da bailarina, isso tampouco pode ser combatido pela repetição exaustiva de movimentos, mas por meio de uma atividade que desperte a consciência da própria anatomia, um mecanismo sujeito a limitações e particularidades. O corpo educa as pessoas, nos ensina que não somos iguais. Mas, infelizmente, ninguém quer ser quem é, opina. A dança é a arte mais ligada ao existir, sempre esteve nos rituais que celebram a vida e a morte. Antes de tudo, era o movimento, complementa.

A bailarina reconhece que não se trata de um caminho fácil. Ela própria experimentou diversas linhas terapêuticas até alcançar a sinergia desejada. Para Angel, entretanto, o trajeto deve começar, necessariamente, por um exercício de autoconhecimento. A sutileza e a sensibilidade são o caminho. Primeiro, é preciso sentir, depois você começa a ler a respeito. Mas sempre sob uma boa orientação profissional, pondera.

As afirmações da bailarina são coerentes com o método que criou ao lado do marido Klaus Vianna – morto em 1992 – e que ganhou o mundo. A técnica de conscientização corporal desenvolvida pela dupla liberta a dança dos rigores de uma coreografia tradicional, abrindo espaço para a criatividade do artista e para uma linguagem menos mecânica. A revolução causada por esse modo de pensar ganhou ecos fora do país e fez com que alguns dos nomes mais representativos da dança contemporânea brasileira buscassem seu conhecimento.

A idade nunca impediu Angel Vianna de exercer seu ofício e sua paixão. Com 62 anos de carreira, ela nunca se afastou da dança e volta a mostrar a intensidade dessa relação no palco, com o espetáculo Qualquer coisa a gente muda, dividindo a cena com Maria Alice Poppe, uma de suas mais célebres pupilas. O espetáculo explora a cadência de dois corpos que se juntam e a força individual de cada um, explica. Depois de estrear em Belo Horizonte e passar por Rio de Janeiro e São Paulo, Angel tem apresentações agendadas para Salvador e Recife. Ficam horrorizados de eu estar no palco aos 82 anos. Mas eu pergunto: ‘Por que não?’ É algo que já está dentro de mim. O corpo registra sua própria história, diz.