Estilo que virou febre
O stand-up comedy não é tão novo quanto parece. Há algumas décadas, artistas como Agildo Ribeiro, Costinha, Chico Anysio, Jô Soares, José Vasconcelos e Ary Toledo já se arriscavam no estilo inspirado nos shows americanos. Também conhecido por aqui como comédia em pé, one man show ou comédia de cara limpa, o formato tem ganhado plateias pelo país e, apesar de não oferecer sinais de que irá sucumbir, ainda não assumiu uma linguagem puramente brasileira.
De acordo com o ator e produtor paulista Otávio Martins, o nome mais adequado para as produções feitas no Brasil atualmente seria one man show, termo usado em diversos outros lugares do mundo, já que o stand-up comedy refere-se ao gênero americano, que tem uma fórmula específica para a construção do texto. É, antes de mais nada, um formato barato, em termos de produção, mas a quantidade excessiva de pessoas que começaram a fazer – porque se tornou moda – vem infelizmente barateando a qualidade dos textos, isso quando as piadas não são ‘apropriadas’ por outros humoristas, destaca.
Por outro lado, o comediante e ator Fábio Porchat alerta para o fato de o gênero enfrentar resistência, sendo ainda visto por muita gente como novidade. O estilo não existia com o título ‘stand-up comedy’, então acabou gerando o famoso ‘o que é isso?’. Veio da moda dos esquetes e do besteirol nos anos 90. A partir dos anos 2000, a febre eram os monólogos, e muitos falavam que o teatro iria acabar, mas o stand-up veio para atrair um público sumido das poltronas, afirma.
Stand-up no mundo
Otávio Martins explica que o modelo americano segue uma metodologia simples e, ao mesmo tempo, complexa. O comediante conta uma história sobre sua visão de mundo, com começo, meio e fim, e vai desfiando um rosário de verdades – ou meias verdades – para o espectador rir com suas próprias conclusões e senso crítico.Nos países de língua latina, o comediante simplesmente muda de assunto, atrás do riso fácil. Os que não fazem isso merecem reverência e aplausos, observa Martins. Em relação ao formato simples, de um homem dizendo seu texto ao microfone, o ator e produtor pondera não ser um fenômeno só nosso. Em países como França, Alemanha e Itália, é a mesma coisa. Só em Paris, contei mais de 30 ‘one man show’ neste inverno.
Enquanto o gênero ganha cada vez mais força nas ribaltas, é comum haver alguém ofendido com as piadas. Refletindo sobre a premissa, Fábio Porchat justifica que, pela cultura e religião, o brasileiro gosta de rir do outro primeiro, diferentemente do americano, que, por manter um pé no humor protestante, puxa o riso para si antes de rir do outro. Desde que vieram com esta história de ‘humor politicamente correto’, virou um inferno. O alvo não deve ser a gama de artistas do stand-up, mas um (José) Sarney ou um (Paulo) Maluf, considera o comediante, citando o exemplo dos japoneses, que, logo após a tragédia que desencadeou o tsunami e a explosão em Fukushima, estavam produzindo arte sobre o assunto, o que inclui pinturas, documentários e, por que não, piadas.
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