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Arquitetura encantada


Por Fernanda Sanglard

10/04/2011 às 07h00

Hoje a Encantada é museu-casa e recebe cerca de cem mil visitantes ao ano

Hoje a Encantada é museu-casa e recebe cerca de cem mil visitantes ao ano

Um pedaço da história de Alberto Santos Dumont e da relação do inventor com o município de Petrópolis (RJ) começa a ser resgatado. Impressa em páginas que remontam o início do século XX, a Petrópolis da época ganha ares de inventividade a partir da construção idealizada por um dos veranistas mais ilustres da cidade. Com o foco voltado para a "Encantada" – chalé erguido para funcionar como casa de veraneio do aeronauta, como Santos Dumont também era chamado -, o jornalista Francisco Luiz Noel e a historiadora Patrícia Souza Lima acabam de lançar a obra "Uma casa muito encantada – a invenção arquitetônica de Santos-Dumont".

O livro, que segundo os autores é o primeiro a mirar a casa e o vínculo do inventor com Petrópolis, tem a intenção de suprir uma lacuna na história do aeronauta e da cidade. "Muito se fala sobre a origem mineira de Santos Dumont e da vivência dele na França. Também há muita produção sobre a Petrópolis imperial e os prédios históricos desse período. Sentimos carência da abordagem sobre a Encantada, que também tem importância histórica e turística como construção republicana", explica Patrícia.

Até chegar ao produto final, os autores trabalharam em pesquisas por cerca de um ano. Livros de memórias, artigos de jornais e documentação de época foram consultados para recontar a história da Encantada. Em 144 páginas, texto e fotos se revezam demonstrando que, após a construção do chalé em estilo europeu em 1918, o inventor deixou um grande legado ao município, responsável por reunir aproximadamente cem mil visitantes por ano atualmente.

Depois da morte de Santos Dumont, em 1932, a casa foi usada pela família de Dona Eulália – na época governanta – e posteriormente doada ao município, tendo sido transformada em escola e museu-casa, como hoje é a vocação do espaço. "O livro acompanha todo esse percurso da Encantada, desde sua construção até o processo de transformação em bem cultural. Uma das descobertas que fizemos refere-se ao pedido de tombamento da casa, feito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade em 1952, quando ele trabalhava no Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional", conta Patrícia.

O chalé – que havia sido construído em poucos meses no sopé do Morro do Encanto, ou melhor, na Rua do Encanto 22, que fica no Centro de Petrópolis – teve projeto de engenharia de Eduardo Pederneiras e arquitetônico de Armando Telles, responsável pela concepção do Palácio das Laranjeiras, no Rio. Ao levantar esses nomes, os autores buscaram também valorizar a memória local, ressaltando o trabalho dos moradores na construção da história.

Além do dote para planejar objetos capazes de alçar voo, Santos Dumont percorria por outras áreas, demonstrando talento para facilitar o cotidiano. Apesar de contar com os especialistas na execução da obra da Encantada, ele deixou na espécie de casa de campo traços de sua personalidade inventiva. A engenhoca criada para funcionar como chuveiro a álcool em uma época em que a água era esquentada a lenha, os degraus da escada em formato de raquete para economizar espaço, a mesa triangular que aproveita uma das quinas do cômodo e o mezanino usado como saleta e quarto foram conservados no chalé.

Resgate da memória dispersa

Como os autores fazem questão de lembrar, a obra fala sobre a invenção de Santos Dumont na cidade, mas também da vida dele ali. "Existia uma história por trás da casa que achamos interessante contar", diz o jornalista Francisco Luiz Noel. E é a partir de recortes de jornais que o obra recorda a segunda visita do aeronauta às terras petropolitanas. A chegada de trem, os almoços, a hospedagem no Palace Hotel, as partidas de tênis no Tennis Club, a publicação do livro "O que eu vi, o que nós veremos" e as solicitações enviadas ao Governo local para andar de carro e possuir um cachorro. Assim, a obra também aborda os costumes de Petrópolis naquele período.

Outro ponto tocado é o percurso do inventor até a descoberta do município, tocando nas origens do mineiro. "Foi preciso contextualizar o personagem, porque o livro é voltado para público amplo. Mas em momento algum a intenção foi contar a história de vida dele, porque já existem ótimas biografias que cumprem esse papel", esclarece Noel.

A escrita a quatro mãos, dividida por Noel e Patrícia Souza Lima, revela o elo entre jornalismo e história. "Apesar de a pesquisa e o texto terem sido conduzidos por nós dois, minha preocupação maior foi com a pesquisa histórica, enquanto Noel se concentrou em localizar pessoas ainda vivas, colher depoimentos e humanizar o que contaríamos", completa Patrícia.

Com muitos quadros, fotos e subdivisões, a obra foi desenvolvida com objetivo de criar uma leitura fácil, que não precisa ser feita de uma só vez. O desejo é contribuir com a construção de uma memória que estava dispersa e atingir desde crianças em fase de alfabetização a adultos que tenham curiosidade sobre o tema. A partir do olhar local lançado sobre a casa e seu proprietário, o que os autores conseguem provocar é uma imensa vontade de visitar a Encantada.