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Tempo de negociação


Por Raphaela Ramos

09/07/2011 às 07h00

"Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue." A voz de Riobaldo no clássico "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, desnuda a capacidade humana de se moldar segundo tempo, lugar e desejo. Nada é único ou estanque para o povo. Da igreja ao terreiro – e dali para a troca de simpatias em bate-papos virtuais – o homem segue escrevendo suas pegadas. Mesmo que tecnologia, virtualidade e pressa ocupem quarteirões da atualidade, ainda há muitas esquinas para a cultura popular. Resta saber como ela transita entre brasileiros tão acostumados a miscelâneas. O tempo parece ser de negociação. Vale amém e vale axé.

De acordo com o professor da Universidade Federal da Paraíba Severino Lucena Filho, a contemporaneidade não é um trator disposto a passar por cima de tudo. "Sempre há perda e resgate", diz. "Afinal, o que é a cultura popular senão o dia a dia das pessoas?" Para exemplificar, Severino cita duas cenas capazes de conviver hoje: uma conversa na calçada e uma videoconferência. Dinâmicos, os saberes e costumes do povo, contraditoriamente, também estão atrelados às tradições.

Desse choque, qualquer lado pode sair vitorioso. Depende da ocasião. É o que atesta o antropólogo e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Ricardo Lima. "Com o tempo, certas questões perdem o sentido. Mas se algo é importante para um grupo, resiste ou se adapta." Para entrar no festival folclórico de Parintins (AM), a Coca-cola foi obrigada a lançar uma latinha na cor azul, a mesma do Boi Caprichoso (concorrente do Garantido, representado pelo vermelho). Lima explica que, nesse caso, a mídia se rendeu ao boi-bumbá. "O povo sabe não se subordinar."

As possibilidades de resistência, entretanto, dependem do território. O antropólogo e folclorista Sebastião Rocha, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), explica que nos espaços urbanos os valores populares tendem a se diluir mais rapidamente. "Já nas regiões rurais, há forte presença da tradição", complementa. O principal equívoco, de acordo com ele, é se pensar em antiguidade quando o assunto é cultura popular. "Toda tradicionalidade é contemporânea, já que faz sentido hoje."

Outro engano, segundo Ricardo Lima, está na ideia de que, no passado, as manifestações do povo eram algo estático. As mudanças, nesse caso, seriam exclusivas da atualidade. Rocha acrescenta: "a transformação sempre ocorreu e é comum a todos os universos, do massivo ao erudito".

O que coube ao mundo contemporâneo, conforme os dois acadêmicos, é dar velocidade ao trânsito de informações. "Enquanto muita coisa se perde, várias outras vão chegando", explica Ricardo Lima, ressaltando que o museu Centro de Arte Popular de Minas Gerais, em Belo Horizonte, para qual prestou assessoria, começa com pinturas rupestres e termina com grafite urbano. "Os mais conservadores estranharam, mas depois entenderam que o popular trata do que é feito hoje."

Quem concorda é a professora da Uerj Cáscia Frade, citando mesclas como as chamadas "correntes", para se ter sorte enviadas por e-mail. "Faz-se necessário ampliar o olhar e apreender o universo de abrangência da cultura popular, com toda sua complexidade."

O historiador Alexandre Lazzari, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aponta o perigo do estereótipo, principalmente nos meios midiáticos. "É preciso ter cuidado com a simplificação." Severino Lucena Filho afirma o mesmo, e menciona um exemplo de sensato acordo: a novela global "Cordel encantado". "Ela bebe direto na fonte da cultura popular."

Mas ainda é comum converter-se a arte do povo em coisa e deixá-la na superficialidade. Assim assegura Sebastião Rocha, salientando que tecnologia, informação e comunicação só fazem sentido se forem acompanhadas de aprendizagem e convivência. "Do contrário, as pessoas passam a ser repetidoras de ideias."

Segundo Severino Lucena Filho, a cultura popular abrange variáveis que alimentam e explicam a história do homem. Não à toa, ela serve de base para muitos trabalhos artísticos. O ator Jesser de Souza, integrante do Lume Teatro, de Campinas, recorreu à dança cavalo marinho, própria de Pernambuco e Paraíba, para nortear seu treinamento técnico e sua tese de mestrado. "Vi que ali havia os princípios fundamentais para o trabalho de ator", diz o mineiro de Fronteira. Para ele, uma das funções da arte é formar a identidade de uma sociedade. "É preciso estar atento para o que é nosso."

Os ritmos e tambores mineiros fazem parte das pesquisas do grupo barbacenense Ponto de Partida. De acordo com a diretora Regina Bertola, os traços culturais de um povo são a fonte cristalina para as reinvenções da arteTexto PágiNA xenta que o homem não pode abrir mão de seu legado e das relações pessoais. "A percepção sensitiva é essencial em minha atividade", arremata, afirmando apreciar coisas simples, como formigas e entardeceres, para não perder nacos de vida.