Cidade da fantasia
Fantasias reinventadas, alas inteiras transformadas para contar novas histórias, alegorias que ilustram outros enredos e reciclam não só os materiais de que são feitas, mas o próprio carnaval. A partir do olhar atento de Carlos Alberto de Souza Novaes, o Betinho, e das mãos habilidosas dos artesãos, a folia de Momo de Juiz de Fora se espalha por municípios da região e outros tantos pelo Brasil. Onde isto tudo acontece? Na Cidade da Fantasia. Por ali (quase) nada se cria, tudo se transforma.
Com a ideia de evitar desperdício de materiais e arrecadar fundos para a escola de samba Partido Alto, da qual era dirigente à época, Betinho começou a vender as fantasias para agremiações de cidades vizinhas. O negócio prosperou e se transformou de tal forma que hoje ele compra quase toda a produção das escolas de samba da cidade, para ser reutilizada em outros carnavais.
Tudo isto acontece em sete galpões e um salão distribuídos em mais de 4 mil metros quadrados de uma antiga fábrica de móveis no Bairro Vila Ideal, região Sudeste. Atualmente, o espaço abriga cerca de dez mil fantasias e 300 partes de alegorias e esculturas. "É grande, mas ainda não é o suficiente, tanto que mantenho uma ‘sub-sede’ em Manilha (RJ), onde guardo as peças maiores", explica Betinho. Logo que terminam os desfiles, ele começa sua barganha. Em seguida, o material é reformado e retorna, no ano seguinte, para ruas e avenidas com outro significado. "Depois de comprados, os carros são desmanchados para podermos retirar as peças. Porém, muitas vezes, eles não chegam a Juiz de Fora. Na hora do desmanche, as peças já são vendidas." Segundo Betinho, a melhor época para se comprar na cidade é entre outubro e meados de dezembro, quando o estoque já começa a ficar comprometido.
Mais de 20 pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente neste empreendimento, que chega a movimentar cerca de R$ 1 milhão todos os anos. Entre motoristas, carregadores e artesãos, está Aloísio Costa, braço direito de Betinho, que há mais de 30 anos trabalha na confecção de fantasias e concepção de enredos. Além de se responsabilizar por todo o trabalho de produção – com auxílio de dois assistentes – e reciclagem da Cidade da Fantasia, também responde como carnavalesco da Acadêmicos do Manoel Honório. "O carnaval é minha vida, e não conseguiria viver longe desta loucura", comenta o artífice sobre o volume de trabalho, sobretudo nesta época do ano.
Clientes fiéis
Somente este ano, 87 municípios montaram seus enredos, ou parte deles, por aqui. Na lista de clientes habituais do espaço estão Vitória (ES), Petrópolis (RJ), Cabo Frio (RJ), Belo Horizonte (MG), Nova Lima (MG) e até a capital federal Brasília (DF). Isto sem contar as cidades no entorno de Juiz de Fora, como Bicas, Santos Dumont, Rio Novo, Cataguases, Leopoldina, Ubá, Além Paraíba e Carandaí.
"Conheci a Cidade da Fantasia através da indicação de um amigo, e, desde então, já faz três anos que compramos boa parte das fantasias por lá. Para a escola, significa uma economia comprar em vez de produzir. Há também uma grande diferença na qualidade das fantasia", argumenta o presidente da Em Cima da Hora, escola de samba de Três Rios (RJ). Para Eliete de Souza, carnavalesca da Palmeira, de Carandaí (MG), outro ponto positivo é a negociação e as condições de pagamento. "Se houvesse mais tempo e a Prefeitura liberasse a carta de crédito com mais antecedência, a escola teria condições de produzir suas próprias fantasias. Mas a verba municipal, de R$ 23 mil, ainda não foi liberada. A compra está sendo feita sem pagamento, graças à confiança que o Betinho tem na nossa escola."
No início, a divulgação dependia do boca a boca, mas, recentemente, graças à parceria com o site "O estandarte" (oestandarte.com.br), os produtos estão sendo comercializados também na grande rede. "A participação dos meninos do Estandarte agilizou o processo e economizou algumas ligações telefônicas", conta Betinho.
O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesjuf), Ney Gerald, não poupa elogios à Cidade da Fantasia. "O trabalho que o Betinho desenvolve é fantástico. As escolas vêm se organizando para que as fantasias não sejam perdidas após o desfile, mas são poucas as que têm condições de armazená-las. Nesse ponto, o Betinho é fundamental, porque ele tem essa estrutura, e o valor que ele paga pelas fantasias acaba retornando para o orçamento da escola."
Umas das agremiações que todo ano vende suas fantasias é a Feliz Lembrança. De acordo com o seu presidente, Jair de Castro, a Cidade da Fantasia é uma espécie de parceira fundamental. "É muito difícil conseguir manter as fantasias, ainda mais porque os componentes têm o hábito de destruir ou jogar fora ao final do desfile. As que conseguimos resgatar geralmente não estão em bom estado, mas mesmo assim ele as compra e reforma, o que não teríamos condições de fazer."
Serviço secreto
"Só tem um problema: a gente vai ter que trocar a placa do caminhão, e a entrega só poderá ser feita durante a madrugada." Foi com esta frase que o dirigente de uma escola de samba de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, começou a enumerar as imposições e o esquema de entrega das fantasias compradas por aqui. "Em Nova Lima, a rivalidade é levada a sério, e ele não queria que as concorrentes soubessem de onde vinham os materiais", lembra Betinho. Ele conta que a entrega do último lote para o município por pouco não terminou em tragédia. Isto porque o esquema despertou a atenção de assaltantes, que, diante de um plano tão elaborado, suspeitaram se tratar de uma carga valiosa. "Após descarregar, por volta das 4h, o motorista saiu da cidade em direção à BR-040. Depois de remover as modificações na placa e entrar na cabine, um bando de assaltantes se aproximou e disparou contra o veículo. Ao abrir a caçamba e ver que estava vazia, eles fugiram. Parece até que era um carregamento de ouro, e para eles realmente era", brincou rindo.
Além Paraíba é outra cidade que tem uma história curiosa. Segundo Betinho, o dirigente de uma escola da cidade teria desenvolvido um enredo inteiro na Cidade da Fantasia e teria ficado combinado que, em outro momento, faria o pagamento e pegaria o material. "Acontece que ele não apareceu na data marcada e, dias depois, um homem veio e se apresentou como sendo membro da diretoria da escola. Ele pagou tudo à vista e levou as fantasias", conta. Em seguida, o verdadeiro dirigente, que havia feito o contato por telefone, chegou a Juiz de Fora para buscar o enredo. "Na hora, eu respondi: ‘Ué… Já entreguei para vocês.’ Só depois entendi o que tinha acontecido, e aí foi um loucura. Até hoje não sabemos o que foi feito daquele material. Umas pessoas falam que foi sabotagem da escola rival, outras acham que foi um engano. Até pensamos em chamar a polícia, mas consegui convencer o cliente a montar outro enredo."
Além das situações embaraçosas, há os momentos em que quando tudo parece perdido, a criatividade e o enorme acervo da Cidade da Fantasia conseguem reescrever a história. Foi o que aconteceu com a Em cima da hora, escola de Três Rios. "Certa vez, depois de uma chuva intensa, o telhado do barracão acabou desabando e danificou as fantasias de duas alas inteiras", relembra o presidente Geraldo da Silva. Segundo ele, a chegada em Juiz de Fora foi desolada, pois não acreditava ser possível encontrar material que substituísse o que foi perdido. "Depois de revirar o acervo, achamos fantasias que cabiam no enredo sem comprometer seu desenvolvimento. Foi o que salvou o nosso carnaval."
Assim como a filosofia desenvolvida dentro dos galpões, a ideia de reaproveitar as fantasias surgiu da necessidade de evitar desperdício de materiais e arrecadar fundos. "Eu estou envolvido com o carnaval há mais de 35 anos, sempre com a Partido Alto. Enquanto era dirigente da escola, percebi que vender as fantasias para outras cidades era uma forma de conseguir um dinheiro extra. Foi na própria quadra que eu comecei a reformá-las", lembra Betinho sobre o surgimento da Cidade da Fantasia. "Ainda não era uma cidade (risos). Depois que deixei a quadra, aluguei dois cômodos aqui na fábrica. O crescimento foi algo muito natural", lembra. Este ano, a Cidade da Fantasia completa seu 12º carnaval.









