Livres para pintar
"Eles criaram a Parreiras para poder estudar arte, porque não tinham condições de chegar à academia. Hoje, a academia reconhece a arte desses pioneiros." A frase do presidente da Associação de Belas Artes Antônio Parreiras (antiga Sociedade Antônio Parreiras), Lucas Amaral, recupera o contexto de criação de uma instituição responsável por formar alguns dos nomes mais importantes das artes juiz-foranas. A trajetória dessa quase octogenária entidade é o tema do painel Lugar de Honra, instalado no saguão do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm). O museu também presta tributo através de uma mostra na Galeria Poliedro, aberta ontem. O espaço recebe obras de Heitor de Alencar e Sílvio Aragão, dois dos artistas que integraram a primeira geração da entidade, além de ter contribuído no ensino e na administração da Parreiras.
De acordo com o pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, a homenagem no Mamm é uma forma de ressaltar a relevância da Parreiras nas artes juiz-foranas, destacando a perseverança de seu trabalho, que completará 80 anos em 2014. "A entidade está muito presente na memória da pintura na cidade, especialmente em sua fase áurea, na década de 1950. Homenageamos, ainda, sua capacidade de se manter aberta por tanto tempo, apesar das intempéries", explica.
Além das iniciativas pioneiras nas décadas de 1930 e 40, a história da Parreiras é marcada pelo surgimento de nomes como Dnar Rocha, Renato Stehling, Ruy Merheb, Roberto Gil e Wandyr Ramos, além dos irmão Carlos, Nívea, Décio e Celina Bracher. Por conta dessa geração de jovens talentosos, a década de 1950 é considerada uma das fases áureas da pintura em Juiz de Fora.
Integrantes da primeira geração da Parreiras e tributários de uma formação artística de linguagem mais acadêmica, Sílvio Aragão e Heitor de Alencar se mostraram receptivos às inovações trazidas por seus alunos. "Eles nos davam informações precisas que colaboravam muito no nosso aprendizado. Aragão, especialmente, tinha uma visão prática que era fantástica", conta Décio Bracher, que conviveu com os dois pintores na entidade.
Décio, aliás, acompanhou uma transição importante na estrutura da Parreiras. Quando ingressou na instituição, em 1943, tratava-se de uma escola com ensino formal. Com o retorno do pintor Edson Motta para o Rio de Janeiro, entretanto, surgiu uma convivência mais livre e menos didática entre os alunos. "Ali, era tudo muito compartilhado, era a casa de todos nós", resume.
Integrante da geração de 1950, Nívea Bracher recorre a uma frase do irmão, Décio, para definir o convívio na instituição. "Nós nos aprendíamos", cita, em referência ao ensino livre praticado. "Nessa época, a Parreiras era um galpão que funcionava em frente ao Parque Halfeld. Cada um tinha seu cavalete, mas pintávamos todos juntos", relata. "Éramos todos mestres e também aprendizes", complementa Carlos Bracher. Na opinião do pintor, tal espírito de liberdade e amizade se mostrou fundamental para que cada integrante do grupo desenvolvesse uma linguagem particular. "A intuição demarcava todos os processos", afirma.
Aos finais de semana, os artistas saíam em grupos de 15 a 20 pessoas para pintar ao ar livre em cenários como a Praça da Estação ou algum dos morros que permitem vistas panorâmicas de Juiz de Fora. "A nossa imaginação era regada às fantasias de Montmartre. Ruy dizia que cada um de nós se sentia um dos impressionistas", conta Nívea. "Foi esse convívio sadio que potencializou nossas vocações artísticas e deu um rumo para nossas vidas", complementa.
Ensinando e aprendendo
Embora a Sociedade Antônio Parreiras tenha sido criada em 1934, costuma-se reconhecer o chamado Núcleo Hipólito Caron como um predecessor da entidade. Na época, o acesso ao ensino formal de artes era bastante complicado, o que tornava especialmente importante o papel de alguém como César Turati, que havia frequentado a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Atendendo a um pedido dos artistas juiz-foranos, o pintor criou o núcleo em 1922.
Depois de alguns anos atuando na cidade, Turati voltou para o Rio de Janeiro, mas deixou por aqui a semente do aprendizado. Foram seus ex-alunos que, em 1934, tiveram a iniciativa de fundar um novo grupo de pintura, que teria como patrono o pintor Antônio Parreiras.
No início da década de 1940, o grupo viveu uma de suas piores crises, ao ser despejado do imóvel que ocupava no Largo do Riachuelo. Mesmo sem uma sede, os integrantes não se separaram e continuaram a se encontrar em cafés e restaurantes da cidade. Um novo caminho foi sugerido pelo artista plástico Aníbal Matos. Na cidade para uma exposição no Palace Hotel, encontrou-se com os pintores locais e os aconselhou a formalizar sua entidade, criando uma sociedade, com registro e estatuto formalizados.
Os nomes de Heitor de Alencar e Sílvio Aragão obtiveram destaque nesse processo de formalização da Sociedade Antônio Parreiras. Nessa época, Alencar chegou a assumir a parte administrativa da entidade, assim como a orientação didática. "A Parreiras era o único lugar em que se podia pintar com modelos vivos. Enquanto outros locais ensinavam a fazer cópias, lá criava-se", ressalta Lucas Amaral, que é autor do livro "A Parreiras e seus artistas".
LUGAR DE HONRA
Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h, sábados e domingos, das 13h às 18h
Mamm
(Rua Benjamin Constant 790)









