Representatividade feminina na música de Juiz de Fora vai além do palco, dizem instrumentistas

Tribuna conversou com diversas musicistas da cidade, que contaram sobre suas trajetórias e a presença feminina principalmente na cena instrumental


Por Beatriz Bath*

08/03/2026 às 06h00

A prática musical em Juiz de Fora é constante e não é de hoje. Entre os gêneros, a música instrumental é um dos que ganham destaque nesse cenário. Há diversos músicos, grupos e bandas dedicados a esse tipo musical, inclusive levando o nome da cidade a diferentes regiões e até fora do Brasil. Nesse movimento, várias mulheres conquistaram espaço e se tornaram vozes importantes na luta por representatividade feminina e igualdade, em cima e fora dos palcos.

Antes de entender como se dá a presença das mulheres especificamente nessa categoria, é necessário voltar ao começo. Raquel Souza, musicista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), afirma que a cidade sempre foi referência no meio musical e, no que diz respeito à música instrumental, tem um legado de prática de orquestras. Ela cita, como exemplos, a Orquestra Filarmônica de Juiz de Fora e a Orquestra Sinfônica Pró Música, fundamentais sobretudo no início desse movimento, ao fazer circular o nome de Juiz de Fora e, ao mesmo tempo, atrair pessoas interessadas, como ocorre no Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga que acontece ainda hoje.

Bia Nascimento, violonista, cavaquinista e compositora juiz-forana, que reside em Belo Horizonte, chama atenção para outro fator que impulsiona a prática da música instrumental na cidade: o fato de haver onde tocar, principalmente por causa de políticas públicas e privadas, além do financiamento. “O que não falta em Juiz de Fora são bons músicos e eu tenho muito orgulho dessa cena.”

‘Representatividade não é apenas estar presente’

nara pinheiro
Flautista, Nara Pinheiro foi a única mulher vencedora do Prêmio BDMG Instrumental em 2022 (Foto: Divulgação)

Ao observar esses encontros de música instrumental, é possível perceber, atualmente, diversas mulheres na prática e que participam ativamente do cenário. Nara Pinheiro, flautista e compositora, aponta que não faltam, na verdade, mulheres talentosas em Juiz de Fora, “mas historicamente os espaços de liderança foram ocupados majoritariamente por homens”.

Única mulher vencedora do Prêmio BDMG Instrumental em 2022 e primeira mulher da América Latina a tocar no Festival Femina Jazz, em Madri, ela acredita que, quando as mulheres compõem e dirigem projetos, o cenário sonoro se transforma. Basta analisar que diversos festivais instrumentais ainda têm participação majoritariamente masculina, mesmo com tantos nomes diversos Brasil afora. Um dos motivos para isso, como entende, é que eles ainda são, em sua maioria, produzidos e pensados por homens. “Não se trata apenas de visibilidade. Representatividade não é apenas estar presente. É ter voz ativa, autonomia artística e poder de decisão. E isso impacta profundamente as novas gerações”, afirma Nara sobre esse cenário.

música instrumental cena feminina
Fabrícia Valle criou o Batuque Delas porque percebeu que faltavam mulheres instrumentistas em lugar efetivo de protagonistas (Foto: Arquivo pessoal)

É esse o mesmo pensamento de Fabrícia Valle, percussionista e idealizadora do projeto Batuque Delas, oficina para mulheres em Juiz de Fora que tem o samba como um dos principais focos. Para ela, a presença delas transforma a música, além de ser um espaço de potencialidade feminina. “A importância da representatividade está na possibilidade de produção de presença e de mediação de expressividade artístico musicais”, explica.

E foi exatamente ao perceber que faltava certo protagonismo feminino na música que ela criou o Batuque Delas, já pensando na oficina como uma forma de criar espaço e dar mais oportunidade para que as mulheres conseguissem tocar onde elas quisessem. “O Batuque Delas é um projeto que surgiu em 2013 e ele começa da minha percepção através dos contextos em que eu passei tocando. Da pouca representatividade feminina mesmo. É uma questão que dialoga com o contexto da música brasileira em si. Existiam mulheres tocando e na cena cultural musical, mas não necessariamente em um lugar efetivo de protagonista.”

Questões de gênero: o instrumento como voz

música instrumental cena feminina
Bia Nascimento, violonista e compositora, também estuda a presença feminina nas rodas de choro (Foto: Pablo Bernardo/ Divulgação)

Nesse contexto de não encontrar similares, por exemplo, Bia Nascimento confidencia que sempre gostou da música instrumental, mas por muito tempo achava que não tinha capacidade de tocar. “Mais tarde fui entender que tinha mais a ver com questões de gênero do que capacidade propriamente dita.” Ela passou a frequentar as rodas de choro da cidade e, além dela, havia apenas Denise Coimbra tocando – todos os outros eram homens.

Isso a incomodou de forma que passou a explorar esse tema também na academia. “Comecei a questionar o porquê de eu e Denise sermos as únicas mulheres instrumentistas presentes nas rodas, e esse questionamento me levou a desenvolver pesquisas no mestrado sobre as compositoras do choro e agora no doutorado sobre a presença da mulher nas rodas, sob uma ótica decolonial a partir de raça e classe também.”

Bia compara as duas cenas com as quais tem mais contato e percebe que os problemas são parecidos, “mas os recursos públicos são outros”. E completa: “Em Belo Horizonte tem mais mulheres na cena instrumental, por exemplo, assim como tem mais investimento na cultura, em festivais de choro, de jazz, em mesas coletivas para debater e fortalecer o tema etc. Tudo isso fortalece uma caminhada que é individual, mas sobretudo coletiva”.

De quando Bia Nascimento começou a frequentar as rodas até hoje, mais mulheres passaram a fazer parte desse espaço. Mariana Cária, saxofonista, é uma delas. Para ela, ver mulheres em todos os ambientes é fundamental para que eles se tornem mais equânimes e igualitários. “Dentro da nossa realidade, é interessante que a gente tente ocupar realmente os espaços musicais disponíveis, participar das rodas ativamente, propor, criar, tomar um lugar de destaque em um grupo musical, com confiança no que fazemos. Homens fazem isso o tempo todo, mesmo quando não são muito bons. Não é simples, mas perder o medo de frequentar a cena musical ativamente é o único caminho para que cada vez mais mulheres abram essa porta.”

Mariana é uma das integrantes do quarteto Choro Bordado. “Eu toco em um quarteto com três homens e entendo a importância de ser uma mulher tocando um instrumento de destaque com essa formação. Não penso muito nesse tema quando se trata desse grupo, principalmente porque me sinto valorizada em relação à minha técnica. Mas posso afirmar que é cansativo, muitas vezes, todo o trabalho mental e emocional envolvido nessa relação, que pode ser comparado a outras situações comuns entre homens e mulheres.”

música instrumental cena feminina
Mariana é saxofonista e integra o quarteto Choro Bordado, além de participar de rodas de choro  (Foto: Divulgação)

Engrenagem

Tamires Rampinelli vive uma outra situação com o Samba de Colher, grupo de pagode de Juiz de Fora composto apenas por mulheres. “A banda se formou durante uma viagem, quando algumas integrantes estavam ouvindo pagode e, pela onda nostálgica do momento, se perguntaram onde estavam as mulheres no pagode e tiveram a ideia de formar a banda.” Ela – que vinha de uma outra área na música, tendo sido estudante do Conservatório Estadual de Música de Juiz de Fora, onde hoje também atua como professora de violão, e formada em Licenciatura em Música/Violão pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) – ficou surpresa com o convite, principalmente porque não conhecia a linguagem.

música instrumental cena feminina
Tamires Rampinelli é professora no Conservatório Estadual de Música de Juiz de Fora e integra o Samba de Colher (Foto: Divulgação)

Foi no Samba de Colher que ela teve seu primeiro contato com o pagode como instrumentista. Ao mesmo tempo, foi a partir desse grupo que recebeu, pela primeira vez, um convite para integrar uma banda – o que, em sua visão, ainda reflete o fato de que mulheres têm menos oportunidades no mercado musical, quando comparadas aos homens.

Para Tamires, vivenciar um ambiente majoritariamente feminino também é uma grande responsabilidade: ampliar presenças femininas e contribuir para que mais mulheres se sintam autorizadas a estar onde desejarem. “Aprendi que, quando nos unimos, somos mais fortes e, assim, geramos representatividade. Acredito que a representatividade é como uma engrenagem que atravessa gerações. Se hoje o Samba de Colher está na rua, também é pela força de mulheres como Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Jovelina Pérola Negra, dentre tantas outras que, apesar de serem minoria em sua época, desbravaram um mercado que diziam não ser para elas.”

*Estagiária sob supervisão da editora Cecília Itaborahy