‘Tem algo sério acontecendo em JF’

Um dos responsáveis pela seleção de curtas da Mostra de Cinema de Tiradentes, Francis Vogner aplaude o cinema juiz-forano
Não há motivo para pânico ao ler o título dessa reportagem. Ela traz boas notícias: Minas Gerais está representada na Mostra de Cinema de Tiradentes, programada para os dias 22 e 30 de janeiro, com 23 curtas-metragens, em um universo de 81. Desse total, dez são de Juiz de Fora, o que põe a cidade, em quantidade, no topo. O dado salta aos olhos, inclusive, de curadores do evento, porque o município tomou a frente até de Belo Horizonte, considerado o primeiro polo cinematográfico do estado (com oito curtas na mostra). Por último, com cinco filmes, vem São João del Rey. “Acredito que representa o surgimento de um outro polo produtor de cinema em Minas Gerais”, arrisca afirmar o curador Francis Vogner, responsável pela seleção dos trabalhos de curta duração ao lado de Cléber Eduardo e Pedro Maciel.
Dessa listagem, surgem nomes que já estão dando o que falar nessa 19ª edição, como é o caso de Mariana Costa, diretora de “Elegia”, o único, entre os dez, que compõe a Mostra Formação. “Esse filme é o meu favorito. Como James Joyce, em ‘Ulisses’, ele acompanha o dia inteiro de uma trabalhadora com um jogo de aproximação e distanciamento do drama dela no cotidiano, com a agressividade no trabalho, com a disciplina muito árdua de acordar cedo”, conta Francis, pontuando os motivos que o fazem acreditar que ele seja um dos destaques de todo o festival. No elenco, estão Adriana Oliveira, Altiere Leal, Fred Duarte, Joyce Menezes, Paulo Moraes, Raphael Henrique, Rodrigo Coelho, Thiago Henriques e Vitória Menezes. “É um trabalho muito delicado, narrado de uma forma muito serena, com um arejamento cênico, uma segurança, com uma consciência e um talento que são raros num filme de universidade.”
Um título bastante discutido pela curadoria é “Aqueles cinco segundos”, de Felipe Saleme. Como resultado, ele ingressou entre os curtas da Mostra Dissonâncias. Em um quarto de hotel, após mais um encontro furtivo no meio da semana, dois amantes, vividos por Gabriel Godoy e Luciana Paes, após dois anos, descobrem que nunca se beijaram. Uma história de amor. Do fim ao começo. “O ‘Cinco segundos’ dividiu a curadoria, por isso mereceu passar para uma seção com destaque à parte. Como diz o Pedro, é um filme que se aplica a trabalhar com os atores de modo muito dedicado. O desempenho dos atores é acima da média para a produção nacional de curta-metragem. É um filme que se passa dentro de um único espaço e numa certa duração. Tem um desempenho bastante distintivo de outros realizados da mesma maneira, consegue ter um trabalho expressivo com uma economia radical de meios, economia narrativa, dramatúrgica e estética.”
A série de produções juiz-foranas fecha com “Breu”, de Paulo Moraes, “Cabrito”, de Luciano Azevedo, “Caiu um homem ali no quintal”, de Ana Clara Nunes Roberti, “Fossa”, de Samuel Fortunato, “Marlene – Histórias de um forró”, de Jéssica Faria Ribeiro, “Resguardo”, de Francisco Franco e Luiz Fernando Priamo, “Rua 36 – 36TH Street, de Adriano Botti, e “Uma pausa para um causo e outra pro café”, de Altiere Leal.
Por quase duas décadas atuando como uma plataforma de lançamento do cinema nacional, a Mostra de Tiradentes chega a seu 19º ano em estreito diálogo com o momento histórico nacional e mundial. Como tema, “Espaços em conflitos.” “Se formos ver, os conflitos sociais e políticos dizem respeito à disputa de espaços, ao modo como esses espaços têm sido objeto de discussão, de embate. Peguemos, como exemplo, a questão do estado islâmico, da Síria, dos refugiados, é uma disputa do espaço. Aqui mesmo, no Brasil, nossa grande tragédia atual é a lama da Samarco, em Mariana, que destruiu cidades inteiras. Temos um espaço natural, histórico e tradicional que foi destruído por uma indústria, e é uma questão também de espaço, geográfica, geopolítica”, afirma. “De que maneira o poder público vai se colocar frente a uma empresa responsável pela maior tragédia ambiental na história do Brasil? Não é qualquer coisa não. Destruiu cidades, destruiu vidas. A política passa pela disputa de espaço, seja o simbólico, com o Eduardo Cunha brigando com o governo, o PT brigando com o PSDB, ou o concreto, que é a disputa por terra, por moradia.”
Tribuna – O fato de Juiz de Fora ser o município mineiro com maior representação na mostra pode ser interpretado como um crescimento da produção da cidade?
Francis Vogner – Ao lado de Belo Horizonte, é o maior polo produtor de cinema de Minas. Isso já vem se esboçando nos últimos anos. Acho que isso se dá muito em virtude da Universidade Federal de Juiz de Fora, que tem ótimos professores e, a cada ano, tem apresentado curtas universitários muito interessantes de realizadores que estão se formando. Até acredito que, nos próximos anos, a gente venha a ter uma produção mesmo mais densa em termos de qualidade. Tem realizador aí com uma marca muito particular. O que acho muito interessante é que os traços do cinema feito em Juiz de Fora são bem diferentes do cinema feito em BH.
– Isso significa que é um cinema que merece investimento?
– O bom de Juiz de Fora estar em massa no festival é que é uma oportunidade que a cidade está tendo de ganhar um destaque nacional, porque Tiradentes é a maior plataforma de lançamentos de curtas-metragens do país. Talvez isso possa chamar a atenção do poder público e das associações para que possam estruturar um pouco melhor o cinema de Juiz de Fora de forma que ele não se disperse. O risco natural é que, se não houver investimento, se não houver edital, se não tiver apoio oficial, as pessoas vão acabar saindo de Juiz de Fora, indo para outros lugares trabalhar. Esse fenômeno que está acontecendo e que está em ebulição pode se dispersar e não acontecer nada.
– Por que o festival esse ano vem com um número tão grande de curtas-metragens?
– É a maior quantidade de filmes inscritos. Muitos precisavam ser exibidos. Muitos são muito bons. Temos muitas seções para esses filmes, porque, no cinema brasileiro contemporâneo, talvez a produção mais relevante esteticamente esteja concentrada nos curtas. Ao invés de continuar exibindo a mesma quantidade de produções, decidimos aumentar. Inclusive, parece que a safra de longas está muito boa. Acredito que seja um ano especial. Temos curtas e longas que, certamente, vão ser lançadas em Tiradentes e vão circular bastante.









