O tempo é (ontem e) hoje

Gerson Guedes retrata Cine-Theatro Central para sua mostra inédita “Juiz de Fora, referências (quase) invisíveis”
Na era das visualidades, das muitas imagens em movimento, da interação excessiva e das velocidades constantes, o pincel e a tinta podem parecer ultrapassados. Nunca superados, porém. A arte contemporânea dá conta de fazer coexistirem diferentes artesanias, das que se utilizam primordialmente das mãos do artista às que se baseiam, integralmente, em códigos computacionais e experiências fugazes. De uma mesma geração, Cristina Canale e Daniel Senise – ela com a pintura e ele com as instalações – são igualmente contemporâneos. Estar no tempo é fazer parte dele. De sua expressão, que lhe conferiu uma incontestável assinatura, Gerson Guedes não abre mão. O artista visual, contudo, também quer estar no compasso da tecnologia, ainda que não lance mão dela como ferramenta imediata de criação. Neste sábado, ele lança seu site (gersonguedes.com.br) e também a inédita exposição virtual “Juiz de Fora, referências (quase) invisíveis”.
“Pode parecer contraditório, até mesmo porque defendo, neste trabalho, que as pessoas deixaram de observar. Porém, quero dizer que a internet é uma ótima ferramenta e não substitui nada, é uma experiência. Da mesma forma que uma gargalhada não pode ser substituída por um ‘kkkk’. Nenhum grupo de internet substitui o relacionamento físico, mas amplia a rede de contatos. Uso a internet como meio, acessibilidade, e não como instrumento de construção”, pontua o artista visual.
Na rede, quadros de uma Juiz de Fora do passado podem ser vistos como em uma galeria, dando ao espectador a possibilidade de traçar o próprio trajeto no espaço, recuando e se aproximando das telas, vendo-as de diferentes perspectivas. Numa montagem bastante próxima do universo físico (com convites impressos, inclusive), a mostra apresenta paredes coloridas em cores diferentes, plotagens e outros elementos como a etiqueta ao lado de cada obra. “A internet é um caminho para a comunicação de arte”, comenta Guedes, destacando a possibilidade de se aproximar do público, além de fortalecer seu próprio mercado. “Tem pessoas que compram meus quadros no mundo inteiro, e agora elas podem ver todo o material que tenho para oferecer.”
Antigo, sim! Velho, nunca!
O bonde e prédios como os da Catedral, da Câmara Municipal, da Igreja de São Roque, além de imóveis já ausentes na paisagem atual da cidade, como o Colégio Stella Matutina na Avenida Rio Branco e a Santa Casa de Misericórdia do início do século são postos em evidência pelo traço em lápis do pintor, que ainda ressalta a volumetria desses espaços em outros ângulos. Mais uma vez, pode soar ultrapassado o retorno ao passado, justamente quando Gerson Guedes decide introduzir-se de maneira profissional na web. Mais uma vez, ao optar pela memória, mostra-se atento ao contemporâneo. “Enquanto achar graça no meu traço, não me satisfaço com a internet. Essa exposição valoriza minha assinatura”, diz.
“Existe uma diferença muito grande entre ser velho e ser antigo. Ser velho é quando você não aceita o novo. Ser antigo é quando você soma experiências e ainda tem a capacidade de ser transformado pelo novo. O carro velho não anda mais. Já o carro antigo leva noiva a casamento, e todos querem”, reflete ele, que selecionou de acordo com um repertório afetivo e com os endereços que considera mais representativos de uma cidade cujo passado arquitetônico mostrou-se magistral.
“São pontos muito pouco percebidos pelas pessoas da cidade, ou porque estão ocultos por conta da nova arquitetura, ou porque as pessoas não têm mais o senso da observação. Percebo que ninguém tem mais o ócio para observar, que é o principal para a criação”, defende Guedes. “Juiz de Fora não é um lugar comum. A cidade vive uma transformação. A nova arquitetura é interessante, mas é preciso preservar o que existe no conjunto. Tombar casarões isolados não ajuda a refletir o passado. Temos conjuntos arquitetônicos que dizem muito”, critica.
Segundo o artista, a demolição do Stella Matutina, no final da década de 1970, trouxe uma consciência capaz de salvar a história arquitetônica local, mas foi tardia. “Há uma riqueza em nossa paisagem. Somos cercados de referências artísticas. Nossas igrejas dão uma aula de história da arte, porque não há uma igual a outra. A do Bom Pastor é moderna, a de São Mateus é bizantina, a da Glória é gótica, a Catedral é neoclássica. Só nesse trajeto já aprende-se muito sobre arquitetura. E isso é raro para uma cidade como a nossa”, pontua.
O caos nos planos
O mesmo Gerson Guedes que clama pela memória, defende a internet, advoga pela pintura, escreve e acaba de ser eleito para a Academia Juiz-forana de Letras. Também acaba de se tornar um microempreendedor individual. “Agora posso trabalhar com restauro, produção de evento cultural e negociar obras de arte. Estou dando um passo que muitos que têm acesso à tecnologia em seus fazeres artísticos não deram. Precisou o velhinho arriscar”, diz o professor aposentado e ex-pró-reitor de Cultura da UFJF, aos 58 anos.
E quais serão os próximos riscos? “O próximo passo que quero dar é retratar essa cidade de hoje, atravessada por fios, estabelecendo uma visão mais crítica dela. O caos pode ser bonito”, afirma, logo emendando em outros planos: “Também quero pintar as músicas do Milton Nascimento, fazendo o imagético das melodias e das letras. Ele já me autorizou. A exposição se chamará ‘Nascimento’. Só me falta autorização da família do Fernando Brant. Quero fazer a Estrada Real de Diamantina até Paraty. Agora não tenho mais compromisso com a hora”, ri. Dedicando-se exclusivamente à arte, o pintor diz ter confirmado o que sempre acreditou: “A arte não é complexa, o que é complexo é o artista.”









