‘A todos aqueles que amam Juiz de Fora como eu amo’

Todos que o cercavam reverenciam seu interesse pelo saber. “Meu pai gostava muito de estudar, escrever e dava a vida por Juiz de Fora”, recorda-se Regina Maria de Araújo Bastos, a filha mais velha, de uma prole de quatro, do professor, advogado, sociólogo, dentista, escritor e genealogista Wilson de Lima Bastos. Caso estivesse vivo, nesta sexta-feira, o homem que tanto venerou em seus escritos a cidade em que nasceu completaria 100 anos. Para marcar a data, a Academia Juiz-forana de Letras, da qual ele foi fundador e presidente, lança, nos próximos dias, o Concurso de contos Wilson de Lima Bastos e programa, para 2 de setembro, uma cerimônia em homenagem ao patrono.
Empolgado com a viagem que faria a Portugal para participar de um congresso, Lima Bastos não contou para a família sobre o mal que sofria. Aos 84 anos, em 20 de outubro de 1998, ele foi morto vítima de complicações de um câncer na medula. “Ele nem se queixava e escondeu da gente o tempo todo. Quando vimos, já estava abatido. Dizia que iria ao médico quando voltasse. Foi tudo muito rápido, não deu nem tempo de viajar”, conta Regina, ainda saudosa, mesmo com os 16 anos que a separam do pai. “A gente queria que ele estivesse aqui, sendo homenageado pessoalmente. Como não é possível, fica aquela saudade.”
O homem que deixou obras, como “Mariano Procópio Ferreira Lage, sua vida, sua obra, sua descendência” (1961), “Do caminho novo dos campos gerais à atual BR-135” (1975) e “Na sombra das aroeiras” (1975), transitava por romance, poesia, contos, crônicas e história regional. Para Leila Barbosa, membro da Academia Juiz-forana, doutor Wilson, como os acadêmicos o chamam, era uma pessoa do “movimento”. Em “Letras da cidade” (2001), ela e Marisa Timponi, sua companheira na autoria de vários livros, descrevem a rapidez de estilo e pensamento do escritor. “Seus textos refletiam exatamente o que ele era”, dispara a autora, que não se atreve a destacar aquela que seria a principal obra de Wilson, entre as dezenas de títulos publicados, a maioria deles sobre Juiz de Fora e seus personagens.
“Ele criticava, mas também exaltava a cidade. Era alguém que se preocupava com os problemas que surgiam com o progresso. Reclamou quando Juiz de Fora entrou em decadência, fazia críticas a isso, mas sempre no sentido de recuperá-la. Olhava para a cidade com olhos de amor”, completa a escritora, que se formou na antiga Faculdade de Filosofia e Letras da UFJF, tendo Lima Bastos como professor. Em suas lembranças, está o discurso em que o mestre a parabenizava pelos bons resultados na faculdade.
Escrita simples e ritmada
A dedicação pelo berço, segundo Leila, torna-se ainda mais extrema em “Juiz de Fora: O ontem – o hoje”. Na obra, está registrada a frase emocionada que dá título a esta reportagem: “a todos aqueles que amam Juiz de Fora como eu amo”. “De forma simples e detalhada, ritmada e rápida, como é característico de seu estilo, apresenta o desenrolar histórico da urbe, desde sua primeira casa, até os conturbados anos oitenta do século passado”, escreveram Leila e Marisa em “Letras da cidade.”
Leila conta que a sala onde funciona a Academia Juiz-forana de Letras foi cedida por Lima Bastos. É lá que funcionava seu escritório. Todo seu acervo, composto por títulos que vão da sociologia à literatura, também foi doado para a instituição. Além de abrir a academia e pertencer a inúmeras instituições culturais, ele foi vereador da Câmara Municipal de Juiz de Fora, entre 1947 e 1950. Para a acadêmica e professora Cecy Barbosa Campos, a delicadeza com que tratava as pessoas foi herdada da mãe – Maria da Conceição Lima Bastos. Já a diplomacia, de João de Campos Monteiro Bastos, o pai. “Doutor Wilson sempre foi uma pessoa extremamente gentil, muito educado, religioso e preocupado com as tradições familiares. Ao mesmo tempo, era muito irônico”, afirma Cecy, que possui laços familiares com o pensador e guarda nas lembranças os momentos em que conviveu com ele. “Costumo dizer que ele era meu tio torto.”
Segundo Leila Barbosa, o edital do concurso de contos vai ser divulgado no blog da Academia Juiz-Forana de Letras (www.academiajuizforanadeletras.blogspot.com.br), e o primeiro e segundo lugares receberão prêmios em dinheiro. Já o terceiro ganhará uma revelação fotográfica. A intenção é que os textos sejam publicados no início do ano que vem.









