Nova geração se destaca no 22º Prêmio da Música Brasileira

Fechamento da noite com convidados e premiados
Rio – As jovens Tulipa Ruiz e Luísa Maita concorreram na mesma categoria (artista revelação), mas a competição deu lugar à irreverência, quando as duas, respectivamente, ao lado dos veteranos Zélia Duncan e Lenine, subiram ao palco do 22º Prêmio da Música Brasileira, na última quarta, para interpretar o homenageado da noite, Noel Rosa. Luísa levou a melhor sobre a amiga Tulipa e o cantor Vítor Garbelotto. Roberta Sá faturou dois troféus da categoria MPB (álbum: "Quando o canto é reza", com Trio Madeira Brasil, e cantora), desbancando a vencedora de 2010, Maria Bethânia, e engrossando o caldo de destaques da festa, que aconteceu no Theatro Municipal do Rio. Essas cantoras, no entanto, são apenas uma mostra do que a canção brasileira pode esperar daqui para frente. Geralmente coadjuvantes da tradicional premiação, os novos nomes da música foram, enfim, reconhecidos numa reunião de bambas convidados para lembrar o legado de um gênio do passado.
Algumas surpresas deram um tom especial à noite, comandada pela irreverência das apresentadoras Débora Bloch e Regina Casé. Na categoria instrumental, por exemplo, o bandolinista Hamilton de Holanda levou a melhor sobre o preferido violonista Yamandu Costa nas categorias álbum e solista. Nem por isso os dois deixaram de receber os aplausos do público, quando, juntos, interpretaram "Coisas nossas", seguindo a programação de pérolas deixadas pelo Poeta da Vila, iniciada com o duo Paulinho da Viola e Beatriz Faria, pai e filha, interpretando "De bêbado" e "Feitiço da Vila".
Na categoria regional, Gilberto Gil, que não apareceu na premiação, concorreu a dois troféus (álbum: "Fé na festa" e cantor), mas não levou nenhum. O CD "Capoeira de besouro" garantiu a vitória de Paulo César Pinheiro, enquanto que Vitor Ramil saiu premiado como melhor cantor. Quando foi anunciada a categoria finalistas especiais, a emoção tomou conta dos contemplados Leny Andrade (álbum em língua estrangeira: "Alma mia") e Nelson Freire (álbum erudito), um dos maiores pianistas do mundo. Ao sair do palco, Leny, sem microfone, declarou seu amor a Cauby Peixoto, que, sentado na primeira fila, também foi indicado com o disco "Cauby sings Sinatra". "Eu queria perder para você", disse Leny, mandando beijos para Cauby.
Se, como dizia Noel, compor é um grande desafio, a velha guarda da MPB preencheu de pérolas o cenário de Gringo Cardia, que, inclusive, levou o prêmio por artista de projeto visual. Representado pela filha Aline Bastos, Cristóvão Bastos foi eleito o melhor arranjador do ano por "Tantas marés", de Edu Lobo, enquanto Monarco e Mauro Diniz ficaram com a melhor canção ("Dolores e suas desilusões"), deixando para trás "Baila no ar", de Délcio Carvalho, André Lara e Dona Ivone Lara, homenageada em 2010.
Na categoria samba, o melhor álbum foi "Pra gente fazer mais um samba", de Wilson das Neves, categoria em que Zeca Pagodinho era tido como preferido por "Vida da minha vida". Entretanto, o intérprete de Irajá ficou com o troféu de melhor cantor, acompanhado por Alcione, a melhor cantora, repetindo o feito de 2010. Outra surpresa foi Emílio Santiago faturar o troféu de melhor cantor de MPB, categoria que tinha ninguém menos que Milton Nascimento e Zé Renato no páreo. As escolhas foram feitas por 20 críticos de música e artistas, que ouviram durante quase um ano 567 CDs e 88 DVDs.
Conversa musicada no botequim
Quadriculado como o piso dos bares de Vila Isabel, o chão do palco do Municipal recebeu importantes nomes relendo clássicos deixados por Noel, como "Feitio de oração" (Marisa Monte) e "Com que roupa" (Wilson das Neves e Tantinho da Mangueira). "A importância não é só a premiação, mas o resgate de artistas que fizeram e fazem esta história, que, hoje, vive um momento ímpar, com tantas discussões a respeito de direitos autorais e divulgação", ressaltou o diretor geral da festa, José Maurício Machline, antes do início da cerimônia, por volta das 21h30.
Um videoclipe para "Conversa de botequim" recebeu Débora Bloch e Regina Casé que, no tom certo – e quatro trajes cada -, souberam suavizar a formalidade da noite. "Noel colaborou muito com a década de 30, deixando mais de 230 composições que são como um pequeno dicionário carioca suburbano", disse Débora. "Uma obra sem prazo de validade. Ele é o selo da crônica carioca", refutou Regina.
Noel Rosa, que tinha o sério problema de ser feio mas charmoso, era inteligentemente capaz de estraçalhar corações, como fez com seu grande amor, Ceci, lembrada na canção "Último desejo", na voz de Dori e Nana Caymmi. Inspiração do compositor, Ceci é o alvo dos versos da melodia acompanhada pela banda orquestrada por João Carlos Coutinho. Entre tantos outros casos de boemia do astuto rebelde, Regina lembrou da relação que Noel manteve com seu avô, Ademar Casé, com quem o poeta deixou de ser um contra-regra para se tornar uma estrela do rádio.
Completo ainda com um telão no fundo do palco com ilustrações do Rio dos anos 30 e 40, o simples cenário traduziu a maneira despojada com que Noel Rosa firmou tantas parcerias diferentes, como Aracy de Almeida (Araca), sua preferida. Um dos frutos deste encontro foi "Pela décima vez", que ganhou a interpretação de Zizi Possi.
Sábio para relacionar a música do asfalto com a poesia dos morros, Noel era o cara que, para não gastar demais, engraxava o sapato que vestia o pé em evidência na cruzada de pernas, o que ele chamava de "pé de artista". Tal malandragem ganhou destaque nas vozes de Jô Soares, Aracy Balabanian e Nathalia Timberg, ao leram um texto no final da cerimônia. O encerramento, pouco antes da meia-noite, teve balões caindo do último andar do Municipal e a performance de arlequins, colombinas e pierrôs entre os participantes, que, com uma nota aqui, outra ali, dosaram a noite da música com poesia.









