Com estreia no Dia Internacional da Mulher, série ‘Estopim’ investiga as origens da violência de gênero

Os cinco episódios da produção serão lançados no Canal Brasil a partir deste domingo até quinta


Por Elisabetta Mazocoli

07/03/2026 às 06h00

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Série exibida no Canal Brasil mistura casos de violência de gênero conhecidos no país e aqueles que ficaram esquecidos (Foto: Divulgação)

A série documental “Estopim” estreia no Dia Internacional da Mulher, buscando apresentar uma abordagem própria para a violência de gênero no Brasil. Entendendo que o true crime é um gênero cada vez mais presente no audiovisual e que atrai milhares de espectadores, a ideia é usar dessas características enquanto também se olha para os contextos sociais, culturais e institucionais que levam a esses crimes. A produção é da Escafandra Transmedia e conta com a direção de Ana Teixeira, que conduz histórias dedicadas a crimes diferentes, sendo eles de cunho político, conjugal, sexual, de ódio e invisibilizado. Os cinco episódios da produção serão lançados no Canal Brasil, a partir deste domingo (8) até quinta-feira (12), às 21h. 

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Produção tem direção de arte e ilustração de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres (Foto: Divulgação)

A trama parte da “linha de pólvora” por trás de crimes contra as mulheres brasileiras, seguindo um caminho inverso: indo atrás das causas estruturais da violência contra a mulher na sociedade, e não apenas o que antecede “as explosões” em um nível individual. Para isso, se dedica a entender casos conhecidos pelo público, se aprofundando mais sobre a reação da sociedade, da mídia e do sistema de justiça, enquanto também reflete sobre o que perpetua as violências. Além das histórias marcantes que mobilizaram o país, também são trazidas à tona aquelas que receberam pouca atenção do debate público na época que ocorreram.

O projeto nasceu justamente de um questionamento sobre a forma de fazer true crime. É o que explica a diretora Ana Teixeira: “E se buscassem os culpados para além dos que apertaram o gatilho? Se o feminicídio é o grau máximo de violência contra mulher, rebobinar a fita e questionar o caminho que leva até essas agressões poderia ajudar a evitar novas mortes”. A produção ainda busca refletir sobre memória, responsabilidade coletiva e transformação social. 

A série conta com uma equipe composta majoritariamente por mulheres, incluindo direção de arte e ilustração de Lívia Serri Francoio e Luma Flôres. As animações e imagens metafóricas criadas por elas são usadas nos episódios como recursos que ajudam a abordar os casos de forma a preservar as vítimas e evitando a exposição direta das situações retratadas. A produção é também construída por entrevistas com algumas das principais vozes sobre violência de gênero no país, incluindo Maria da Penha, Anielle Franco, Mônica Benício, Valeska Zanello e Soraia Mendes, entre outras especialistas, ativistas e pesquisadoras.

Episódio por episódio

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Série mira em true crime para se aprofundar em contextos sociais, culturais e institucionais que constroem crimes (Foto: Divulgação)

O primeiro episódio de “Estopim” se dedica a olhar para os crimes políticos que ocorrem tendo mulheres como alvo. O capítulo revisita o caso da vereadora Marielle Franco, da juíza Patrícia Acioli e da estudante e guerrilheira Dora Barcellos para mostrar que esses não são casos isolados, mas falhas das instituições, mostrando que mulheres com projeção política e social sofrem constantes ataques machistas e no que se origina essa violência

Já em “Crimes conjugais”, que será exibido na segunda-feira (9), são analisados casos cometidos em relações afetivas, que antes eram considerados pela justiça brasileira como “crimes passionais”, mas logo foram revelando sua profunda relação com questões de gênero. Dessa vez, mulheres como Eloá Pimentel, Ângela Diniz e Sandra Gomide tem sua história contada, e a discussão se volta sobre como uma cultura de posse sobre o corpo feminino e da associação entre romance e violência sempre foi contada do ponto de vista masculino. O episódio também traz o depoimento de Maria da Penha e reflete sobre os avanços da lei que leva o seu nome.

O episódio seguinte, “Crimes sexuais”, que sai na terça-feira (10), parte dos casos de Aída Curi e Mônica Granuzzo para mostrar como abusos, estupros e assassinatos costumam ser tratados pela justiça, autoridades e mídia. Os crimes se passam nos anos 1950 e 80, mas mostram que pouco mudou: décadas depois, em 2016, uma adolescente foi violentada por 33 homens, e foi questionada de maneira similar sobre sua postura e o que poderia ter levado os agressores ao crime. A culpabilização das vítimas é o foco do episódio, assim como o que mobiliza a opinião pública quando envolve crimes sexuais.

Em “Crimes de ódio”, com exibição marcada para quarta-feira (11), a série mostra como identidade de gênero, orientação sexual, raça e classe social são outros marcadores de violência contra o corpo das mulheres. Para aprofundar a discussão, também são revisitados os assassinatos de Gisberta Salce, Dandara, Luana Barbosa e Carol Campêlo, casos emblemáticos de crimes motivados por preconceito e intolerância.

Para encerrar a série, na quinta-feira (12), o episódio “Crimes invisibilizados” coloca em foco feminicídios que permanecem à margem do debate público em razão da origem, da classe social ou da etnia das vítimas — e evidencia como muitos desses casos acabam banalizados pela sociedade. A abordagem destaca crimes ocorridos no interior do país, envolvendo mulheres rurais, indígenas ou negras, e expõe os desafios de enfrentar a violência em contextos sociais e territoriais distintos. O episódio também apresenta a Marcha das Margaridas como símbolo de resistência e mobilização coletiva.