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A folia mora em frente


Por MAURO MORAIS*

07/02/2016 às 07h00

janelaDo outro lado da janela da sala, três DJs se revezaram no vinil, mais de dez instrumentistas (entre tambores e chocalhos) do Maracatu Estrela na Mata, cerca de 40 pessoas numa bateria intitulada Nota 3 e uma plateia de mais de duas mil pessoas. O concreto estava armado bem na porta da casa de Elisa Augusta Teixeira Martins, 70 anos. Da janela, a professora aposentada viu pouco a pouco a Praça Jarbas de Lery Santos, no São Mateus, se encher. Famílias, muitos jovens, um tanto de tribos e muita cerveja passaram pelos olhos de Elisa. Pelos ouvidos, muita música. O que achou? “Foi muito bom. Não houve brigas, nem discussão. Tudo organizado. Não me incomodou nem um pouco”, observa.

“Com sinceridade”, diz, “só não fui porque estava muito calor.” Acostumada com o ritmo da praça, que aos sábados recebe uma feira de artesanato e com alguma frequência pequenos shows e festas, como o descolado Mercado Aberto, Elisa considera importante a ocupação do espaço onde está seu prédio. “Deveria ter mais. É muito bom para a praça”, comenta. No último sábado, dia do “Meu concreto tá armado”, ela conta que “olhava, conversava com algum conhecido que passava e, às vezes, entrava”. A sujeira, para ela, é um ponto negativo. Este ano, porém, acordou de madrugada, viu pilhas de garrafas de cerveja que, logo pela manhã, já haviam desaparecido. “Tudo correu bem.”

Questão de direitos

A opinião de Elisa está longe de ser uma unanimidade entre os juiz-foranos. Com a proliferação e o fortalecimento dos blocos nos últimos anos, no Centro e em bairros da cidade, a solução encontrada para os vizinhos insatisfeitos foi adiantar a folia. Na programação do carnaval de Juiz de Fora, nenhum evento em espaço aberto foi agendado para depois das 20h. Esse, por sinal, foi o trato feito entre o bloco da praça de São Mateus com a Prefeitura. Às 20h o som parou, ainda que muitos foliões tenham permanecido no local.

Ameaçado de não desfilar pelo Alto dos Passos em 2016, o bloco Come Quieto ganhou a permissão da associação de moradores após comprometer-se a atender uma série de providências. Uma das garantias cobradas pelos residentes do bairro na Zona Sul era o término pontual às 20h, atendido, e a dispersão e limpeza imediata das vias, dentre outros requisitos.

Para o bancário aposentado Geraldo Mizael Resende, 67, morador de um prédio bem defronte à concentração do bloco, uma solução para si mesmo foi sair ao meio-dia e regressar no anoitecer. “Com certeza, gostaria que não fosse aqui, mas, sendo, não posso reclamar. As pessoas têm o direito de brincar”, diz ele, que preferiu não se juntar à “boleira”, apesar de, em outros tempos, ter sido, até, diretor de uma escola de samba no bairro. Há 33 morando no mesmo prédio, rodeado por bares, Geraldo observa o perfil da região. “Ainda tento me acostumar.”

No calor da folia, em meio aos foliões, houve quem se divertia da calçada. “Super aprovo o desfile. O que acontece nesse dia não é nada do que não acontece em dias de campeonato brasileiro, por exemplo, quando os bares ficam lotados. Este ano teve muito policiamento e bombeiro. Cheguei da pós-graduação e entrei tranquilamente na minha casa”, contou a moradora Gislaine Moreira, 31. “É tudo maravilhoso. As crianças ficam brincando em frente de casa e se divertindo. E quem é que quer sair de casa nesse dia? A gente quer é curtir”, reforçou o coro a turismóloga Carolina Cabral, 31.

Convivência forçada

Concentração de diversos blocos, como o do Batom, na última terça, e o Pintinho de Ouro, na sexta, o Parque Halfeld também serviu de palco para apresentações musicais, como a roda de samba no domingo passado. Do segundo andar do prédio que ladeia a Câmara Municipal, a folia não passou despercebida para o comerciante aposentado Adérito Rodrigues, 83. Contudo, não lhe surpreendeu, diz. “Realmente não é bom, mas precisamos conviver. Já me acostumei, conheço o ambiente e passei a não me incomodar”, pondera, contando já ter trabalhado na noite e morado na Avenida Rio Branco. “O Parque Halfeld tem sempre isso, de protesto a show.” O que ele faz? “Vou para um quarto onde o barulho não chega.”

Alguns andares acima, um morador que prefere não se identificar, mesmo fechando as janelas, não deixa de ouvir o barulho. “Priva a gente do sossego. Isso aqui virou um palanque. Na minha opinião, não é lugar para isso, é uma área residencial. Aqui deveria ser usado de uma maneira melhor”, pontua, sugerindo a transferência de eventos assim para espaços como o Terreirão do Samba.

Para o corretor de imóveis Adriano de Azevedo, 35, não precisa. Ele mora no 11º andar de um prédio na Avenida dos Andradas, bem de frente para a concentração da Banda Daki, e até desce para a folia. “A única intransigência são os impedimentos do trânsito”, diz. Pai de um bebê, não reclama do barulho. “É pouco tempo. Um dia só”, destaca, para logo acrescentar, aos risos: “A buzina do trem incomoda muito mais. Principalmente à noite. É horrível. É todo dia.”

* Colaborou Marisa Loures