Bloco do Beco é reconhecido como patrimônio imaterial de Juiz de Fora
Decreto da Prefeitura de Juiz de Fora garante difusão dos saberes do bem cultural para novas gerações

O Bloco do Beco foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Juiz de Fora, a partir de decreto da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) publicado nesta terça-feira (6). Foi considerado que essa manifestação artística se confunde com a história do carnaval da cidade e utiliza o samba como instrumento de crítica social e política, tendo papel fundamental de espaço de resistência e reconhecimento da presença negra e popular. Também foi levado em conta que o bloco possui vários membros com idade avançada, apresentando um risco à transmissão transgeracional dos seus saberes e práticas, o que mostra a urgência da proteção dos bens imateriais por meio de políticas contínuas de fomento, valorização e difusão dos saberes do bem cultural
O bloco tem como figura central o compositor Armando Fernandes de Aguiar, o Mamão, um dos seus fundadores e grandes nomes da música popular juiz-forana. Já são mais de cinco décadas de existência de maneira ininterrupta desde a fundação, sendo considerado, pelo texto, como aglutinador de diversas memórias e identidades da cidade. A trajetória do Bloco do Beco se aproxima, inclusive, da da Banda Daki, que também é considerada patrimônio imaterial de Juiz de Fora.
A partir do reconhecimento, fica como responsabilidade do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural fazer a política pública de salvaguarda e proteção do bem de natureza imaterial, em conjunto com os detentores e com o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (COMPPAC).
‘Não deixe o samba morrer, não deixa o Beco acabar’
O Bloco do Beco não só representa o carnaval da cidade, mas configura um verdadeiro movimento cultural, como explica o músico Márcio Itaboray. “O Beco nasceu em um bar que nós frequentávamos na galeria Phintias Guimarães, chamado Sonoros Bar [antes bar do Brega]. Alí o Mamão, o João Medeiros e o Cezar Itaborahy fizeram uma música chamada Beco do Balthazar. Desse personagem fictício e desse encontro nasceu o bloco e o show, em um movimento que era o ano inteiro”, relembra ele, que esteve presente quando todos os dias o bar estava lotado por conta do agito. A alma do movimento, como ele destaca, é o compositor Mamão e a porta-bandeiras Nancy de Carvalho (que faleceu em 2017).
O reconhecimento como patrimônio imaterial, para ele, é uma forma de não deixar o samba morrer e nem o Beco acabar. “É uma agremiação de resistência e de sátira política. (…) E que precisa da nova geração de artistas para seguir”, defende ele, que acredita no potencial do Beco não só como bloco de carnaval, mas como movimento cultural do ano inteiro, assim como outrora.
É o mesmo que pensa o professor, escritor e compositor Rodrigo Barbosa, que também esteve envolvido com o bloco. “Esse reconhecimento é uma forma da cidade prestar um tributo ao que representou e ainda representa esse grupo de pessoas que fez surgir esse movimento cultural”, diz. Para ele, se trata de um verdadeiro encontro de ”personagens e pessoas de todos os tipos” em torno da arte e da cultura. “Gostaria que esse reconhecimento pudesse trazer um incentivo a continuidade a esse movimento. Muitos dos originários já não estão mais entre nós, mas o Beco se mantém”, continua ele, que acredita que esse esse título possa aproximar novas gerações.
Em vídeo publicado em 2021 no canal oficial do sambista, Mamão conta que o começo foi mesmo pela percepção dos vários becos da cidade — e do que poderia surgir dali. “Concebi que ia sair um bloco de dentro de um beco, e esse beco, fictíciamente, seria o Beco do Balthazar. Ganhamos o Festival de Volta Redonda com essa música. (…) Ela deu origem ao bar do beco, à turma do beco e ao bloco do beco. Tudo por causa dessa música”, relembra.









