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Arte para valorizar o negro


Por MARISA LOURES

06/11/2015 às 07h00- Atualizada 06/11/2015 às 09h25

Integrantes do movimento Denigra JF usam elementos da cultura para combater o preconceito

Integrantes do movimento Denigra JF usam elementos da cultura para combater o preconceito

Já passou da hora de “Denegrir” Juiz de Fora. “Torná-la negra, provocar o reconhecimento positivado da nossa ancestralidade”, dispara Giovana Castro, membro do Candaces, Organização de Mulheres Negras e Conhecimento, que se une, neste sábado, dia 7, a outras vozes para a realização do primeiro Denigra JF, no Galpão Lounge e Bar, a partir das 15h. “Nossa proposta é fazer um evento que contempla a compreensão de que Juiz de Fora é uma cidade de população efetivamente negra”, explica ela, justificando o motivo da luta que se instala. “Essa palavra, denegrir, tem um sentido pejorativo muito forte, porque expressa o racismo linguístico presente em nossas relações. Por isso, resolvemos fazer uma festa que a traz com outra conotação.”

Promovido pela Dilvulga Arte Produtora, pela banda Zé do Black e pelo Candaces, o Denigra JF reunirá representantes da cultura negra em suas mais variadas manifestações, passando por música, culinária, dança e moda. Conforme apontam os organizadores, faz-se urgente, no mês em que se comemora a Consciência Negra, vivenciar a afrodescendência e a negritude. “Não queremos dizer que vai ser um momento só de negro, que branco não vai entrar. Vamos lá para firmar o movimento negro, para firmar a liberdade. Quando as mulheres vendem as roupas, a gente vê o movimento negro atuante. Com o hip-hop, a gente vê as raízes disso tudo”, destaca RT Mallone, jovem que se emociona e que emociona quem o escuta defender com suas letras a cultura hip-hop. “Ao falar de movimento negro, estou me referindo a uma expressão cultural de quem quer se sentir livre de estereótipos, fazer o que realmente sente”, sentencia ele.

Assim como o rapper nascido e criado no Bairro São Benedito, Giovana acredita que é preciso “fazer da invisibilidade presença”. “Nas escolas de Juiz de Fora, insistem em estabelecer uma relação com a cultura europeia. Há uma indiferença com relação à nossa ancestralidade que acaba se mostrando na formação dos alunos”, afirma ela, apontando para o que acredita ser um objetivo a ser alcançado. “É preciso que a população negra se sinta confortável para frequentar determinados espaços onde ela não é bem-vinda, que nós nos reconheçamos nas atividades culturais que acontecem”, assevera. “Não vejo melhoras, vejo avanço, porque as melhoras só existem quando o problema está erradicado. Estou certa de que há companheiras que têm uma discussão bastante embasada sobre o que é ser a mulher negra em Juiz de Fora, mas ainda há muitas questões a serem sanadas no que se refere à saúde da população negra, ao genocídio da população negra.”

O momento de falar é agora

Para RT Mallone, não há momento mais pertinente para se falar sobre o assunto. “O amanhã não vai ser melhor. Deixamos enraizar na nossa cultura a crença de que tudo que é associado ao negro é ruim. Precisamos tirar isso da cabeça, principalmente,das crianças, para que elas não cresçam com essa mentalidade e para que consigamos mudar algo de fato”, diz o rapper, alinhado às discussões que se arrastam na cidade sobre a possível implantação do feriado municipal do dia 20 de novembro, em alusão à morte do líder negro Zumbi dos Palmares. “Estamos numa discussão bastante polêmica. Se for aprovada, essa vai ser uma grande conquista. O Brasil é o país que recebe a maior quantidade de população negra das Américas, e, por isso, esse é um dia a ser comemorado.”

Seguro de que o grupo que representa, por sua origem periférica, está entre os mais atuantes no movimento negro, Mallone não se cansa de bradar pelo que canta. “Ainda hoje a maioria das mortes é de jovem negro, e não quero que isso aconteça. Não quero que meus irmãos morram e virem estatísticas. Quando eu faço rap, eu sou exatamente aquilo que as pessoas não querem que eu seja por não o enxergarem como arte. Quando subo no palco, sei que faço algo de bom.”

Músicas que tratam da negritude

“Entrei para o hip-hop por uma questão de sentimento. Quando comecei no rap, queria me expressar, falar as coisas que eu tinha guardado só para mim”, comenta RT Mallone, que, no dia 7, apresentará seu repertório de autorais. “Vou falar sobre a periferia, sobre Juiz de Fora. Quem for vai se identificar”, adianta o músico. Para encerrar o evento, a Zé do Black, banda black music juiz-forana formada em 2003, preparou seu tradicional Baile do Tim, além de um setlist especial para a ocasião. “São músicas que tratam da negritude, da luta pelo reconhecimento. Vai ter Wilson Simonal, Seu Jorge, James Brown e por aí vai”, comenta a baterista Carla Detoni.

Também na programação estão o DJ Lucian Fernandes, Pri Moreira, MC Carola, Flowkilla, Zumbreak Kingz, Remiwl Street Crew, Espaço Cultural Pires Basilio, com apresentação dos passinhos que se popularizaram nos famosos “bailes de charme”, e os grafiteiros Aang e Lia 21. Como o Denigra JF terá espaço para moda, artesanato, decoração, o evento contará com produtos das marcas Griot, Cabeça Feita, Adornare, Doce Menina, Art Stain, Ca D’Ori Livraria, Negra Mulher Bela, Marlon Jop Make Up, Neca´s Hair, Negra Bella e Negríssimas Acessórios, entre outros. Além do Candaces, estarão presentes os coletivos PretAção e Vozes da Rua.

DENIGRA JF

7 de novembro, às 15h

Galpão Lounge e Bar

(Rua Vereador Laudelino Schetino 16 – Democrata)