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Por outro(s) cinema(s)


Por JÚLIA PESSÔA

06/11/2013 às 07h00

Um giro pelas salas de cinema da cidade confirma o que os aficionados pela sétima arte sabem de longa data: na oferta de filmes em Juiz de Fora, predominam os blockbusters e os campeões de bilheteria, como comédias nacionais com estrelas do momento e milionárias animações infantis. Na disputa pelo público, sobra pouco espaço para as produções independentes, alternativas e/ou de arte, limitando o cardápio cinematográfico.

Nesta semana, das 14 salas existentes no município, sete exibem a megaprodução "Thor 2" (sendo três no UCi Kinoplex, duas no Alameda, uma no Palace e uma no Santa Cruz) e quatro passam "Meu passado me condena", com onipresente Fábio Porchat. Na tentativa de reverter esta situação, uma petição disponível no site www.avaaz.org já angariou 511 assinaturas (até o fechamento da edição) de pessoas insatisfeitas com o que as telonas têm exibido ou, mais precisamente, com o que elas têm deixado de exibir.

Segundo o publicitário e produtor cinematográfico Milton Dutra, idealizador do documento on-line, a cidade vive um momento crítico, já que em outras épocas alguns locais acabavam abraçando o título de "circuito alternativo". "Apesar da oferta insatisfatória, sempre recebemos um certo número de filmes nesta linha, em salas específicas da cidade. Na década de 1970, isso acontecia no mezanino do Cine-Theatro Central, que possuía o Cine Festival. Nos anos1980, o Cine Paraíso, de São Mateus, cumpria este papel. Nos últimos anos, a tarefa ficou com o Palace e, por último, com o Alameda. Todos eles exibiam filmes europeus, argentinos e o bom cinema americano fora da linha mais comercial, além de documentários brasileiros e internacionais. No entanto, apesar de ter público cativo, esta programação foi praticamente banida da cidade a partir do início deste ano, com a chegada do Cinemais ao Alameda."

Segundo a assessoria de imprensa do Cinemais, empresa gestora das salas do Alameda, o principal empecilho para a oferta de produções mais artísticas é a falta de público para este nicho cultural. De acordo com a direção do órgão, o cinema é uma empresa como qualquer outra, que visa ao lucro, portanto não é possível arriscar e investir na exibição de produções alternativas em detrimento de sucessos garantidos de bilheteria, como "Thor 2" e "Meu passado me condena".

Ainda conforme a assessoria, a rede Cinemais vê a possibilidade de ampliar a exibição de filmes alternativos quando as obras do Jardim Norte (shopping que será construído no local onde atualmente funciona o Exposhop) forem concluídas, possivelmente no segundo semestre de 2015. No novo estabelecimento, o Cinemais terá cinco salas, e, segundo a assessoria, isso permitirá que a cidade tenha, no novo shopping ou no Alameda, algumas com horários específicos voltados à programação que foge ao mainstream.

 

Falta de público é relativa

Para Cristina Villaça, diretora da Aliança Francesa de Juiz de Fora, o argumento de "falta de público" para a oferta reduzida de cinema de arte deve ser relativizada. Segundo ela, o público do Festival Varilux de Cinema Francês, iniciativa da Aliança, só tem crescido desde seu début na cidade, em 2011, ficando, na última edição, no primeiro lugar no ranking de frequência por sala, nas cidades em que o festival acontece. "Em 2011, tivemos 2.300 espectadores e, em 2013, mais de 3.500. A maioria do público do Varilux não fala francês e mesmo assim vai prestigiar um evento de qualidade. Desta forma, ao contrário do que argumentam os empresários, pode-se dizer que a falta de público é uma consequência falta de oferta de filmes de arte ou alternativos. Nada contra o cinema de massa, mas as pessoas têm direito a outras opções", observa Cristina, acrescentando que a Aliança Francesa formalizou seu apoio à petição encabeçada por Milton Dutra.

"A Aliança Francesa tem o objetivo de divulgar a arte e a cultura, é importante apoiar iniciativas como esta. Uma cidade como Juiz de Fora deve oferecer pelo menos uma de suas salas de cinema para este tipo de filme, não estamos pedindo muito", pondera a professora.

Para Marília Lima, coordenadora de mídia e divulgação do Festival Primeiro Plano – que neste ano ocorrerá de 25 a 30 de novembro -, com a falta de opções alternativas aos blockbusters, o evento passou a ser mais uma válvula de escape para os cinéfilos juiz-foranos. "O fechamento dos cinemais locais foi um movimento sincrônico à vinda dos ‘centerplex’, uma situação geral nas cidades médias. Quando o Palace e o Alameda exibiam filmes fora do circuito comercial, o Primeiro Plano cumpria uma função mais específica, de formação de público para esse cinema fora do padrão blockbuster, que, mesmo tendo pouco espaço, ainda existia. Acredito que hoje, além deste papel, temos que tentar suprir essa carência da cidade, temos um trabalho duplo."

Com mostra competitiva voltada para produções locais, o Primeiro Plano exibe também estreias nacionais e latino-americanas que fogem ao padrão estritamente comercial, que, para Marília, possuem, sim, público expressivo na cidade. " O público aceita bem esse tipo de produção, porque mesmo não entendendo ou gostando de certos filmes, eles vão vê-los para ter contato com aquilo que desconhecem. Isso vai ao encontro da proposta do festival de dar opções variadas aos espectadores. "

 

Limitações tecnológicas e de mercado

 Conforme o diretor de programação do Cinearte Palace, Ademar Oliveira, o maior obstáculo da rede é técnico. Segundo ele, a maioria das cópias é feita para o formato digital, para o qual o Palace, equipado para película, não possui suporte de exibição. "As grandes produções ainda enviam cópias em película, mas a maioria dos filmes alternativos não o faz, o que limita nossa possibilidade de exibição. É claro que existem filmes que são mais vendáveis e que precisamos pagar as contas da empresa, mas quando estivermos plenamente equipados, poderemos incluir outras produções em nossas salas, em horários alternativos, como sempre fizemos", observa Ademar, que prevê a aquisição e instalação dos equipamentos no próximo mês.

Já Fernando Costa Júnior, um dos proprietários da Cinemaníaca, rede local administradora das salas do Shopping Santa Cruz (que possui a mesma limitação tecnológica do Palace), acrescenta que, muitas vezes as distribuidoras de filmes limitam a liberação de cópias a cinemas menores. "Várias vezes, não conseguimos nem exibir os blockbusters, porque muitas salas maiores da cidade já receberam cópias. Além disso, nosso perfil de púbico é voltado para um cinema mais popular, com grandes produções dubladas e comédias nacionais de sucesso. Então não seria interessante fugir deste padrão."

A UCI Kinoplex, responsável pelos cinemas do Independência Shopping, foi procurada pela Tribuna, mas não deu seu parecer sobre a oferta de filmes alternativos. Por telefone, a assessoria de imprensa da empresa informou que a rede tenta oferecer produtos voltados para a cultura além da programação cinematográfica semanal, exibindo, periodicamente, temporadas de óperas do Metropolitan Opera de Nova York, maior palco do gênero do mundo, além de shows de grandes astros do rock, como Morrissey, Aerosmith, Paul McCartney e Bruce Springsteen, que estiveram em cartaz em 2013.