Esperança gasta pelo tempo
Poucas cores em diferentes matizes para a terra, a lona, o picadeiro, o figurino. São tons de roça, como define o ator Marcos Marinho. Tudo em "O palhaço", novo filme de Selton Mello, tem um ar desbotado, surrado pelo tempo. Afinal, a imagem do verdadeiro circo, erguido a partir da emoção, ficou mesmo guardada lá atrás. Está gasta, mas ainda há esperança. Não à toa, esse é o nome da companhia que perambula pelo interior do país no longa em cartaz na cidade, conferido pelos integrantes da Caravana Mezcla de Palhaços. A convite da Tribuna, parte da trupe se reuniu para um bate-papo sobre a produção de Mello, que também assina o roteiro e escolheu locações como Santa Rita de Ibitipoca, Bom Jesus do Vermelho, Conceição do Ibitipoca e Lima Duarte.
Segundo Marinho, as tonalidades de "O palhaço" o levaram ao ventre de um Brasil verdadeiro, distante de clichês nordestinos e cariocas. Ao mudar de eixo, o diretor da proposta se deparou com a própria essência. É o que sugere a palhaça Luciana Vittori, lembrando que o artista é natural de Passos, cidade bastante citada no filme. "Seu personagem, Benjamin (homenagem a Benjamin de Oliveira, primeiro palhaço negro do Brasil), parece buscar os sentimentos que buscamos para encontrar nosso palhaço." Apesar de garantir que a sequência não é autobiográfica, Mello a associa a uma crise criativa pela qual passou em 2009.
Por falar em crise, ela é mais do que comum para quem resolve tirar da gaveta o nariz vermelho. Segundo a integrante Mara Bontempo, todo palhaço tem medo de perder a graça. "Por isso, estamos sempre redescobrindo nossa identidade." Na visão de Mara, aliás, o conflito interno de Benjamin, ocasionado pela ausência de um documento de identidade, pode se apresentar como uma metáfora. Em cena, ele não se reconhece, assim como se questiona ao administrar o Circo Esperança ao lado do pai (Puro Sangue, vivido por Paulo José).
Diálogo e verdade
O ventilador aparece na trama como um elemento de ligação com outros mundos. O protagonista, que sobre o picadeiro atende por Pangaré, deseja fazer prestação, andar de ônibus, petiscar em um barzinho. Enfim, arriscar-se em uma vida "normal". Após abandonar a trupe, Benjamin entende, porém, que seu ofício é único. "Quando retorna, ele estabelece um diálogo com o pai. Era isso que faltava: dar retorno às pessoas que o procuravam. Até então, ele estava fechado", aponta o palhaço Revelino Mattos.
Para Marcos Marinho, não existe riso onde não há verdade. O ator explica que o limite entre a graça forçada e a natural é muito estreito. "No filme, o momento em que a plateia mais ri é o improviso de Puro Sangue para contornar os erros que Pangaré comete por estar bêbado." Se o palhaço deseja os sentimentos reais, é justificável que ele oscile entre o choro o riso. Para Luciana Vittori, esse "entrelugar" é inevitável e necessário. Talvez por isso, como complementa Júlio Phênix, os cenários circenses tenham perfis melancólicos. "O circo-show, mais tecnológico, vem substituindo o circo-teatro, que abria espaço para todas as emoções." A propósito, muitas delas foram exploradas por Mazzaropi, Charles Chaplin e Federico Fellini.
Palhaço o tempo todo
Conforme ressalta Marcos Marinho, os palhaços agem dentro e fora da lona na produção de Selton Mello, orçada em R$ 5 milhões. A companhia, uma síntese da raça humana, é formada por tipos variados: aquele que manda, aquele que obedece, o bonitão, o feioso. Todo o elenco do longa, como acrescenta a integrante da Caravana Jacqueline Hinkelman, segue o ritmo do picadeiro. "Isso aparece até mesmo nas horas de dificuldade, nunca lamentadas, como quando o caminhão quebra." Nesse contexto, Marinho elogia a atuação de Moacyr Franco, "um palhaço ‘branco’ (mais racional e adulto) de primeira".
A personagem Lola, segundo Júlio Phênix, é a única peça que não se encaixa no Esperança. Representando o mercado e a arte corrompida, a dançarina que cospe fogo foi a responsável por plantar a angústia do ventilador em Benjamin. "O tempo todo, nós nos preocupamos em não cair nessa armadilha." Existe ainda a pureza e a ingenuidade circenses, personificadas na criança, filha do mágico. Tais características também aparecem de outras maneiras. Um exemplo é a cena com o prefeito. "O palhaço é assim, carente e capaz de enfrentar a autoridade por meio do riso", finaliza Phênix, lembrando as vezes em que o cômico oferece a bengala ao "fortão" da comunidade.








