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Signos da devoção


Por Leonardo Toledo

06/07/2011 às 07h00

O delicado traçado de tecidos, símbolos e adereços expressa a devoção e a memória de pessoas de diferentes origens e idades. A linguagem que une fé e a criatividade popular é a atração da mostra "Salão do estandarte de Guarani", aberta amanhã, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). Com curadoria de Paulo Alvarez, a exposição traz pela primeira vez a Juiz de Fora a tradição desse município mineiro, que há cinco anos realiza o resgate e a divulgação dessa arte através de um evento homônimo realizado anualmente na cidade.

Presentes nas celebrações religiosas de Guarani, os estandartes ganharam status das galerias a partir de 2005, por iniciativa do então secretário de cultura do município César Ornellas. Entre os 40 exemplares selecionados para a mostra no CCBM, estão trabalhos premiados nas primeiras edições do salão e que hoje pertencem ao acervo municipal, além de peças de acervos particulares. De acordo com Paulo Alvarez, que além de curador da exposição é autor de um dos estandartes em exibição, o evento anual conquistou gradualmente a população, ganhando adesão não só de artistas plásticos, mas de diferentes segmentos da sociedade, incluindo escolas, associações de idosos e lares comunitários. A variedade de autores reverteu-se na diversidade de linguagens e materiais empregados na confecção das peças. "Maior que o valor artístico é o envolvimento da cidade e a carga devocional que está presente nos estandartes", comenta Alvarez.

A mostra em Juiz de Fora traz peças com diferentes recortes, conforme a temática de cada edição. Nossa Senhora Aparecida, a Sagrada Família e o Divino Espírito Santo estão entre as imagens de fé que ilustram os estandartes. O próximo evento, marcado para setembro, homenageará São Sebastião. O vínculo devocional vai além da citação. Em geral, o encerramento do evento coincide com alguma festa religiosa da cidade, ocasião propícia para que as obras saiam em procissão pelas ruas. Complementando esse ambiente de fé e cultura popular, a exposição apresenta uma instalação de cruzes enfeitadas do artista Francisco Severino, da cidade de Descoberto.

Na opinião de Paulo Alvarez, os estandartes também merecem atenção por destacar habilidades de pessoas comuns que acabam incorporadas em seus trabalhos. Dessa maneira, cada obra confeccionada traz uma marca das mãos que a produziram. É o caso de peças que trazem técnicas de bordados conhecidas por moradores e passadas de uma geração para outra. Os materiais empregados também são representativos dessa diversidade, em gama de opções que vai de tecidos nobres a materiais recicláveis.

Além da mostra "Salão do estandarte de Guarani", outras duas exposições serão abertas amanhã no CCBM. Reunindo cerca de 70 peças, a mostra "Arte do Rio" traça um panorama da atual produção carioca. Esculturas em bronze e quadros com temáticas, técnicas e tamanhos variados estão entre as peças selecionadas pelo curador Kim Mattos, diretor da Academia Brasileira de Belas Artes no Rio.

Com linguagem que mistura o hiper-realismo à pop art, o mineiro Hélio de Sousa apresenta a exposição "Shoe has soul". São 12 pinturas, em óleo sobre tela, que exploram um tema inusitado: o universo dos sapatos. Através desses objetos cotidianos, Hélio mostra como as pessoas podem revelar sua personalidade através da escolha do calçado. Nascido no município de Cláudio, o artista vive atualmente em Nova York.