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‘Busco transformar o mundo em poesia’


Por MARISA LOURES

06/01/2016 às 07h00- Atualizada 06/01/2016 às 09h46

A juiz-forana Claudia Pucci Abrahão relata, em poemas e crônicas, seus três partos naturais, em casa

A juiz-forana Claudia Pucci Abrahão relata, em poemas e crônicas, seus três partos naturais, em casa

“Era uma vez uma menina que cismou de entender a força que mora atrás do abismo da passagem: resolveu ter três filhos de parto natural. Em casa.” É assim, poeticamente, que é apresentada a sinopse de “Canto da terra – uma partilha em seis partos, um café e três atos” (Pólen livros, 155 páginas), da juiz-forana Claudia Pucci Abrahão. Na obra, a autora, que é radicada em São Paulo há 20 anos, ultrapassa o simples relato biográfico para falar sobre “os vários partos que a gente tem da gente mesmo ao longo da vida”. O livro é composto por poemas, que nasceram durante o processo, e reflexões sobre sua trajetória de mãe e mulher.

“Não são somente poemas em relação aos filhos, mas também ao fato de se lançar no mundo. Essa coragem para se jogar, uma coragem que a gente precisa ter para seguir um sonho”, comenta ela, que também se propõe um retorno ao seu próprio nascimento, num frio dia de outono. “E lá de cima, ainda estrela, eu pensei:/ o que será essa aventura?/ Uma onda permanente?/Um entrar e sair de voos,/ transes alucinantes? /Então ouvi: entre uma queda e um desvio/ entre um riso e um arrepio/ vale./ vale sim./ Ah! Então eu vou/”, versa a autora em um dos escritos. Formada em cinema pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Claudia escreve roteiro de filmes e transita pelo teatro. Seus textos vão para o blog www.giradodelirio.com.

Tribuna – Ter nascido de cesariana reflete na pessoa que você é hoje?

Claudia Pucci Abrahão – Acho que sou uma soma de tudo o que aconteceu comigo. Tive uma experiência muito profunda no processo de autoconhecimento. Não sei se foi uma recordação do fato, porque isso não dá para saber, mas a sensação de não ter conseguido eu mesma fazer a passagem, de ela ter sido feita por intermédio de outra pessoa, veio para mim com uma série de correlações, em momentos outros da minha vida, em que eu precisava fazer um movimento só, e não conseguia fazer com as próprias pernas, com a própria força. No momento em que tive que realizar isso no primeiro parto, especialmente, eu senti que nasci junto. Eu relato o que me relataram do meu nascimento, não foi uma regressão.

– É sua intenção que sua obra possa contribuir para diminuir o número de cesarianas no Brasil?

– Eu tenho muita vontade de que meu livro chegue a todo mundo, inclusive aos homens. Não é só um livro para quem quer fazer um parto normal, é para quem quer fazer uma cesariana também. Acho que cada mulher tem direito de escolher como quer trazer um filho, se quer passar ou não por essa experiência, que é profunda. Não adianta fazer por modismo. Meu objetivo é contar como foi, não é com a intenção de fazer aumentar o número de partos naturais. Se isso acontecer, vou ficar muito feliz. Escrevi mais no intuito de falar da vida, do amor pela terra e do amor por essas experiências profundas, das quais a gente está abrindo mão por um mundo asséptico. A primeira coisa que todo mundo me pergunta é se eu não tenho medo da dor, porque a primeira coisa que está relacionada ao nascer é a dor.

– Ao se decidir pelo parto natural, em casa, você teve medo da morte?

– Não foi algo feito na loucura, teve um pré-natal, um acompanhamento. Até a realização dos partos, eu tinha assegurado de que, pelo menos até aquele momento, estava tudo certo. O medo pela criança é o que mais me pesa sempre, mas minha certeza de que eu tinha que viver isso era muito grande. O tempo todo eu estava sendo monitorada. Mesmo sendo um parto em casa, existe uma estrutura para monitorar, por exemplo, o batimento cardíaco da criança. Não é um voo cego.

– “Nasci mineira, entre montanhas. Subi numa delas, vi o resto do mundo, e saí em busca de algo que ainda busco.” É assim que você se apresenta no livro e no blog. Que algo é esse que ainda busca?

– Acho que sinto, não é um saber com a cabeça. Cada vez mais sinto o cheiro disso, a música disso. Tem a ver com uma atmosfera de quando estou muito feliz. Não eufórica, mas feliz. Esse algo que eu busco eu já encontrei. Talvez eu busque com mais frequência, porque é uma coisa que a gente encontra e, às vezes, perde de novo e está muito ligada ao amor, à liberdade e à criação. Desde que nasci, minha vida é contar histórias. O que eu busco é transformar o mundo em poesia. O que eu busco também é esse estado de plenitude, de conseguir olhar para as coisas e sentir que está inteiro, no lugar certo, fazendo a coisa certa.

– Por que deixar as montanhas?

– Juiz de Fora é uma cidade que eu amo. Acho lindas essas montanhas que cercam a cidade, mas, naquele momento, aquilo ficou muito apertado, eu precisava ampliar e ainda continuo precisando. Moro em São Paulo há 20 anos e ainda quero conhecer muita coisa do mundo. Nesses últimos dez anos, com a chegada do filho, o mundo que eu fui pesquisar é meu mundo interior, fiquei muito tempo pesquisando essas paisagens internas, essas sensações. O livro também é um passeio por isso, por esses sentimentos intensos que vivem dentro da gente.