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‘O artista trabalha para a humanidade’


Por Raphaela Ramos

05/04/2011 às 07h00

Lee Taylor esteve na cidade no último dia 26

Lee Taylor esteve na cidade no último dia 26

É realmente difícil acreditar que o jovem de jeans e camiseta branca tenha emprestado o corpo a um personagem com mais de 40. Quem ouve o goiano Lee Taylor falar não consegue imaginá-lo comandando movimentos e olhares de seu Policarpo Quaresma, protagonista da adaptação dirigida por Antunes Filho. O ator e professor, de 27 anos, esteve na cidade no último dia 26 para participar do seminário "Os caminhos do teatro", promovido pelo Grupo Divulgação. Descontraído diante da plateia, contou que o maior nacionalista criado por Lima Barreto não foi seu único desafio. "Tenho feito papéis que não são para mim." As dez horas diárias de ensaio no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) Sesc, de São Paulo, talvez expliquem o feito.

Depois de passar pela graduação em artes cênicas da Universidade de São Paulo (USP), Lee buscou novas experimentações ao lado de um dos mais renomados diretores da atualidade. Segundo o artista, a academia não é capaz de preparar o aluno para o palco, já que, nesse caso, o saber provém do fazer. "A excelência exige tempo e paciência. Exige que o eu esteja sempre em crise", analisa, acrescentando que a formação do ator – e do homem – não tem fim. Em cena, Lee (cujo nome é uma junção de Lee Majors, ator do seriado "O homem de seis milhões de dólares", e Taylor, personagem do filme "O planeta dos macacos") costuma oferecer espaço e liberdade para suas criações. "Quem pensa são elas", assegura, revelando que faz poucas visitas a Goiânia. "Trabalho muito e nunca tiro férias." Em entrevista à Tribuna, ele refletiu sobre poder da arte, retorno de público e processo artístico.

 

Tribuna – O imaginário coletivo conta muitas histórias inusitadas a respeito da forma de trabalho de Antunes Filho. Afinal, como é atuar sob seu comando?

Lee Taylor É um grande ensinamento. Trabalhar durante todos esses anos ao lado de Antunes está além do fazer teatral, é ter a honra de partilhar dos pensamentos, da criação e da inquietação de um artista único, que se dedica diariamente ao sacerdócio de revelar o significado espiritual da arte.

 

– Em diversas produções do Grupo de Teatro Macunaíma, você assumiu personagem com idade superior à sua. De que forma buscou construir realidades pelas quais ainda não passou?

– Minha dificuldade maior foi encontrar a humanidade, o ponto em que a caracterização do personagem mais velho não sufocasse a verossimilhança e vice-versa. Foi muito complicada a construção do Misael, de "Senhora dos afogados". Não acreditava que pudesse dar credibilidade a um personagem tão denso, contraditório e, pior, com quase o triplo da minha idade. Um senhor, pai de família, com filhos e mulher. Tinha tudo para dar errado. Então, recorri a recursos simples. Primeiro deixei crescer a barba, depois coloquei uma barriga postiça e, finalmente, quando raspei completamente o cabelo, entendi a fragilidade e a humanidade necessárias para dar credibilidade ao patriarca. Para chegar a essas conclusões, bebi em várias fontes, e uma delas me ajudou muito. O Dr. Misael é um juiz que pleiteia o cargo de ministro: assistir à TV Senado quase todos os dias me ajudou a reforçar a patetice que buscava.

 

– Você diz usar a arte como instrumento de transformação pessoal e social. Se ela não é utilitária, de que maneira se desenvolve esse processo?

– A arte não serve para decoração ou distração, ela é uma diversão superior, combustível para o vôo do espírito. Um obra de arte será sempre reflexo de uma época, e o papel do artista é captar e revelar com sensibilidade e originalidade essa essência. O artista é um visionário que traduz seu olhar sobre o mundo para o mundo, de uma maneira que o próprio mundo se surpreenda e se transforme, ficando tocado pelo significado altamente espiritual de transcendência e re-ligação, inerente à verdadeira arte. O artista trabalha para a humanidade.

 

– Como equilibrar, durante a feitura de um trabalho, pretensões artísticas e interesse do espectador? Você se preocupa com o entendimento e o retorno do público?

– Toda obra deve elevar, instigar, provocar, emocionar ou questionar o espectador. Algumas vezes, faz tudo isso ao mesmo tempo. Porém, fundamental é a eficácia da comunicação. Para que isso aconteça, o artista deve fazer com que a plateia se sinta parte da obra. O teatro só se realiza com a "participação" do público. Mas, normalmente, o entendimento da arte não se dá pela via racional, objetiva. Ele é relativo e varia de acordo com a sensibilidade de cada espectador. O retorno do público também é relativo. Às vezes, uma obra leva meses ou anos para ser "entendida". Mas quando se trata de uma grande obra, o retorno é visível. E o contrário também acontece.

 

– De que forma trata a mensagem a ser levada para a plateia? Acha que um discurso violento, por exemplo, pode ocasionar violência?

– O artista só deve produzir quando tem algo para dizer à sociedade. A arte precisa de liberdade, não se pode censurá-la. Conheço dezenas de pessoas que usam a violência como meio de despertar o público, mas sempre com bom senso. É uma questão delicada no Brasil, porque muitos usam a violência pela violência, simplesmente para atrair olhares. Isso é prejudicial. A responsabilidade social é grande.

 

– Em visita a Juiz de Fora, o ator Jesser de Souza, do Lume Teatro, afirmou não ter lido por completo nenhuma das obras lançadas por seu grupo. Para ele, é impossível saber sem fazer, por isso, dedica mais tempo à prática. Que espaço leitura e ensaio têm no seu cotidiano?

– Nos ensaios, gasto e calculo minhas energias. Nas leituras e referências, eu as renovo e as amplio.

 

– Durante o seminário do Grupo Divulgação, você assegurou não se interessar pela TV. O problema é o formato e a linguagem ou o conteúdo?

– O problema está em mim.