Novembro Negro: exposição em Juiz de Fora explora a história e a espiritualidade da Etiópia
‘Sob o céu de Tewahedo’, de Carlos Hansen, integra programação do Centro de Preservação da Memória Negra de Juiz de Fora

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Com uma série de fotografias que retratam expressões mais profundas e antigas da identidade e da espiritualidade do continente africano, Carlos Hansen integra a programação do Novembro Negro, que acontece durante o Mês da Consciência Negra, no Centro de Preservação da Memória Negra de Juiz de Fora, na sede da Secretaria Especial da Igualdade Racial (Seir). A entrada é gratuita.
O trabalho ilustra a herança milenar da Etiópia, como as igrejas monolíticas de Lalibela, o fervor do Festival Meskel e a tradição do Cristianismo Ortodoxo Tewahedo. “Sob o céu de Tewahedo” procura romper com visões eurocêntricas sobre a história do cristianismo, resgatando a herança milenar da Etiópia, que possui as tradições sagradas preservadas de forma única.
Carlos Hansen relata que a exposição cresceu desde sua última mostra com as fotografias, “Fé esculpida em pedra”, expostas em 2025. Agora, as fotos abordam mais aspectos da religião que não estavam presentes na última mostra, como o aumento de fotografias das igrejas de Lalibela.
“Tewahedo”, no dialeto semítico Ge’ez, da liturgia tradicional etíope, significa união e reflete a crença de que as naturezas humana e divina de Cristo estão unidas em uma só. O trabalho de Carlos procura transmitir essa visão por meio das fotos, que ficarão em cartaz até 30 de janeiro de 2027.
Duas naturezas

Carlos conheceu a Etiópia pela primeira vez na década de 1980, por meio de uma exposição de fotografias de Sebastião Salgado sobre uma seca catastrófica que aconteceu na região ao sul do Saara. “Eram imagens fortíssimas sobre o sofrimento humano extremo. Me marcou muito e a Etiópia meio que virou um sinônimo de miséria e sofrimento”, conta. Ao mesmo tempo, ele também ouvia muito uma banda carioca com o nome do país.
Já na década seguinte, seu olhar sobre o país africano mudou a partir de uma matéria sobre as Igrejas de Lalibela, que faziam com que o lugar “parecesse parado no tempo”. “Pensei que não poderia morrer sem conhecer esse lugar”, relata.
Em oportunidades de trabalho e contatos estabelecidos, Carlos conseguiu conhecer de perto as igrejas. “Eu imaginava estruturas imponentes, visitas do tipo museu a céu aberto, mas a cidade é viva, as igrejas são espetaculares e funcionam diariamente, cheias de peregrinos e habitantes da cidade.”
Carlos descobriu que a região nunca foi colonizada por europeus, ao contrário dos países vizinhos no continente africano a partir também do seu contato com a Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia, uma das instituições cristãs mais antigas do mundo, cujas raízes remontam ao século 4. As fotografias do local e das celebrações capturam a solenidade e o misticismo de seus rituais.
“Imagine uma religião cristã desenvolvida na África, sem interferência europeia. Retratar uma cultura que 900 anos atrás criou uma cidade esculpida em pedra. Acho que trago uma história para os afrodescendentes se orgulharem ainda mais, de um continente diverso, mas tão estereotipado e estigmatizado”, define o fotógrafo.
Carlos já expôs na Seir antes, com alguns retratos dos etíopes. “Para mim, além de primordial, o retrato é a expressão máxima da fotografia, quase todas as minhas fotos têm a presença humana.” Agora, retornar durante o Novembro Negro, com apoio do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora e Região e do Sindicato dos Metalúrgicos Aposentados de Juiz de Fora para a realização é, para ele, uma grande honra.
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy









