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Rede de raridades


Por RENATA DELAGE

04/02/2012 às 07h00

A busca por raridades culturais – filmes que fizeram época, concertos inesquecíveis e até mesmo documentos que registram a história da humanidade – nem sempre está ligada às longas pesquisas em coleções particulares ou acervos de museus. Muitas vezes vista como o espaço exclusivo do entretenimento e da atualidade, a internet se apresenta – aos mais curiosos – como uma ferramenta que vai além da popularização de produções independentes e vídeos inusitados, permitindo o acesso a obras e passagens – famosas, raras ou desconhecidas – de inestimável valor cultural.

Cenas clássicas de artistas que fizeram história nos anos de ouro do rádio no Brasil são revividas com fidelidade diante dos espectadores em uma sala de teatro no Centro do Rio de Janeiro. Uma delas traz a atriz Solange Badim na pele da cantora paulistana Marlene, interpretando a composição "Galope" em um quadro do Fantástico, no ano de 1974. Outra, mostra a carioca Emilinha Borba, no corpo e voz de Vanessa Gerbelli, dando vida à canção popular "Lata d’água na cabeça". Assim como diversas outras, tais cenas fazem parte do espetáculo "Emilinha e Marlene – As rainhas do rádio", em cartaz no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro. Mais de 50 canções são executadas ao vivo no musical, que percorre a trajetória artística e o dia a dia de duas das maiores estrelas da música brasileira, que, em 1949, se tornaram concorrentes quando a novata Marlene superou a favorita Emilinha no concurso "Rainha do Rádio".

As primeiras pesquisas, que deram base ao trabalho de laboratório vivenciado pelas atrizes que protagonizam o espetáculo, foram feitas a partir de páginas populares da web. Em entrevista à Tribuna de Minas, a autora e produtora do musical, Thereza Falcão, revelou que tanto Vanessa Gerbelli quanto Solange Badim encontraram materiais considerados raros disponíveis em sites como o YouTube. "A internet como um todo norteou nossas primeiras pesquisas, nos permitindo acessar reportagens e nomes, além de músicas. Algumas não encontrávamos em lugar algum e encontramos na internet. E esse material nos permitiu reproduzir algumas cenas clássicas delas", explica. A última cena da peça é um dos exemplos citados pela autora. "Encontramos a entrevista das duas no programa da TV Globo ‘Jovens tardes’. É a cena que finaliza o espetáculo."

A busca por imagens da época não não está apenas ligada ao processo de produção. A curiosidade despertada pela trama também leva ao caminho contrário e motiva os espectadores na procura por vídeos das artistas, o que, hoje, é possível ser feito em minutos. "Vejo também que o público, especialmente o que não viveu essa época, recorre a esse tipo de pesquisa depois de ver o espetáculo. Às vezes até mesmo durante o intervalo da peça, nos seus aparelhos de celular", conta Thereza.

 

Novos usuários, novos sentidos

A grande quantidade de material disponível, entretanto, não está diretamente associada ao resgate ou à preservação da memória histórica ou cultural, de acordo com a doutora em história social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Regina Helena Alves da Silva. Para a especialista, uma nova forma de acesso se dá quando o acervo tratado é o disponibilizado na rede. "Guardar não significa preservar, pois a memória só é preservada quando ela faz sentido. E o interessante da internet é isso. Sem dúvida, há democratização das obras, mas elas adquirem vários outros sentidos", explica. Ela destaca que, há alguns anos, só era possível ter acesso a relíquias culturais a partir da busca em acervos, porém,"hoje posso buscar o que faz sentido para mim e não para um órgão oficial, que arquivava e organizava a exposição de acordo com a visão e o significado dos documentos para ele", avalia.

Um grande banco de dados, que pode ser reprocessado artisticamente e transformado em novas obras. Assim é definida a internet, segundo o jornalista Pedro Nogueira, que se dedica ao mestrado em artes visuais na linha de processos artísticos contemporâneo na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A partir da reutilização de imagens é possível produzir novos vídeos, o que é chamado de "remix audiovisual". E uma das principais ferramentas de pesquisa de imagens utilizadas por ele é o site YouTube. "Outro dia encontrei um material dos anos 1970 de minha cidade, Pouso Alto, no Sul de Minas, que eu nem imaginava que existia. Muito desse material que hoje está na rede estava escondido nas prateleiras de algumas pessoas. O compartilhamento ganha dimensões gigantescas quando o conteúdo é disponibilizado na internet, coisa que na sua forma material (tapa, película), não atingiria", avalia.

Umas das referências do estudo de Pedro Nogueira é o cineasta russo DzigaVertov, que em meados da década de 1920 convocava a todos na criação de um grande banco de imagens que poderia ser utilizado pelos cineastas para organizar o mundo. "Mal sabia ele – ou ele já previa? – que no final do século XX a internet teria essa potencialidade. Para Vertov, o ideal era que se espalhassem pessoas pelo mundo, indo com câmeras aonde o olho humano não pudesse ir, e no final o cineasta organizaria esse material. É exatamente isso que é a internet, não é?".

 

De Audrey ao Woodstock

Alcançando mais de três bilhões de visualizações em seis anos de existência, o YouTube se destaca como um dos maiores sites do mundo de postagens de vídeos. Embora as produções de entretenimento – vídeos engraçados, erros de gravação, clipes de música teen, apresentações de stand-up – estejam entre os mais populares, contabilizando centenas de milhares de acessos, é possível usar a mídia para assistir palestras, cursos técnicos, entrevistas e até mesmo assistir a filmes raros e apresentações musicais únicas.

Basta uma pesquisa pouco mais demorada para encontrar gravações que registraram os mais remotos movimentos do cinema. Trechos das consideradas primeiras imagens, registradas no fim do século XIX pelos irmãos franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière e Louis Jean Lumière, estão disponíveis em diversos links. Várias cenas da produção americana "E o vento levou" (1939), um dos maiores clássicos de todos os tempos, dirigido por Victor Fleming, podem ser assistidas em inúmeras postagens, com legendas e dublagens de diferentes partes do mundo. Das cenas de "Bonequinha de luxo" (1961) a entrevistas, premiação de melhor atriz no Oscar de 1954, a até mesmo seu funeral, a diva Audrey Hepburn tem na rede coleções de postagens que eternizam não só seus trabalhos, mas passagens de sua vida pessoal.

No mundo da música, apresentações históricas ou extraoficiais são compartilhadas e aparecem como raridades para os fãs. Uma gravação de baixa qualidade registra o show quase perdido de James Brown, em 1983, no qual o rei do funk, ao ver Michael Jackson na plateia, convida o Rei do pop para subir ao placo. Logo em seguida, surge nos ombros de um segurança, e quase desacordado, o cantor Prince. Não escondendo o desagrado, Michael abandona o palco e causa uma polêmica que rendeu comentários por alguns anos. Também na lista das relíquias está a apresentação do até então desconhecido britânico Joe Cocker, no último dia do "Woodstock", em agosto de 1969. Cocker interpretou, para o público de mais de 500 mil pessoas, uma versão de "With a little help from my friends", canção de George Harrison gravada pelos Beatles, que seria, mais tarde, considerada a maior apresentação de todos os tempos feita pela músico.