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‘O que não vale nada é matéria-prima para arte’

Guilherme Melich expõe “Escritos para ninguém ler”, série de livros de artista, na Sala da Casa a partir desta sexta-feira


Por Cecília Itaborahy, estagiária sob supervisão de Wendell Guiducci

03/12/2021 às 07h00

Guilherme Melich
Exposição “Escritos para ninguém ler”, de Guilherme Melich, fica na Sala da Casa até o dia 14 de janeiro (Foto: Guilherme Melich / Divulgação)

O que poderia virar lixo, com o aval dos vendedores de sebo, transformou-se em suporte para letras e imagens. Guilherme Melich, que viveu tendo o desenho como meio de expressão, expõe “Escritos para ninguém ler” a partir desta sexta-feira (3) até o dia 14 de janeiro na Sala da Casa, específica para livros de artista. Essa exposição já fez parte de outra: “Corpo [Matéria]”, de 2012, quando trabalhou com Marina Bretas, curadora do espaço recém-inaugurado na Rua Oswaldo Aranha 163, no São Mateus. Mesmo com esse hiato, vira e mexe a possibilidade de fazer com que livros antigos virem arte vem à tona no ateliê de Melich. As obras que irão ocupar a sala são inéditas, resultado de um mês de trabalho. Além de imagens, que ele assume serem inspiradas em retratos de pessoas reais, os quadros têm escritos, como diários abertos. Por serem temas cotidianos, tudo remete a algo, pessoal ou sugestivo. A interação é uma imersão no mundo de Melich, em seu ateliê, entre a poesia e a imagem.

Tribuna – Quando se descobriu artista?
Guilherme Melich – Desde novo já rabiscava em tudo que podia, e gostava de me expressar através do desenho, mas acho que a veia se abriu de vez na adolescência, antes com a música e depois retornando ao interesse pelas artes visuais. Entrei para o curso de artes e design da UFJF em 2004 e essa minha formação foi essencial para o que faço hoje em dia. Lá conheci sobre pintura, história da arte e a multiplicidade da arte contemporânea… Desde então um universo se abriu e é ele que continuo explorando através do que faço agora.

O que foi a exposição “Corpo [Matéria]”, de 2012, onde você expôs “Escritos para ninguém ler”?
A exposição “Corpo [Matéria]” foi resultado dos dois anos em que passei enfurnado, produzindo feito doido em meu primeiro ateliê. Foi minha primeira experiência tendo um espaço no qual podia trabalhar à vontade, no qual ia de manhã e só saía à noite. Tinha espaço, tempo e material para produzir. Vontade nunca foi meu problema. Lá elaborei diversas séries de trabalhos, dentre elas, a “Escritos para ninguém ler”. A exposição aconteceu na Casa de Cultura da UFJF, e em cada cômodo da casa eu apresentei uma série diferente. O painel da série dos escritos era o trabalho de abertura, o primeiro que o público via ao chegar no espaço. Hoje em dia, esse painel se encontra na Biblioteca Municipal, na Praça Antônio Carlos (PAC). Não sei dizer ao certo qual a relação do painel com o resto da exposição. Sou pouco analítico nesse sentido. Pra mim tudo que faço se conecta, ao mesmo tempo que parecem coisas distintas entre si.

Você já sabia o que era um livro de artista? Quando começou a fazer esse tipo de arte?
Conheci os livros de artista durante o período na UFJF, especificamente através de uma professora, a Leila Danziger, uma artista sensacional do Rio de Janeiro que lecionou algumas matérias por um período aqui em JF. Durante suas aulas cheguei a fazer uns experimentos, mas nada que merecesse atenção. Só fui retomar o interesse por eles anos depois, em 2011, quando ganhei pilhas de enciclopédias antigas numa permuta furada. Foi uma espécie de presente de grego… mas dos limões podres fiz uma boa rodada de limonada, ou melhor, caipirinhas.

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Como surgiu a ideia de fazer do livro um suporte para a arte e como nasceu a exposição?
Bem, tem uma historinha por trás desse processo. Os livros como suporte vieram ao acaso. Um amigo me disse que uma conhecida sua estava de mudança e que doaria toda sua biblioteca. A promessa é de que haveria muitos livros de arte (geralmente caros) e muitos livros de poesia (que sempre me interessaram), mas quando chegamos lá só havia essas antigas enciclopédias. Nada contra, mas não era o que procurava. Para não perder a viagem, lotamos meu fiat 147 com os livros e fomos tentar vendê-los nos sebos do Centro. Lá, a frase que ouvi me marcou: “Pode pegar esses livros pra fazer fogueira. Não valem nada!”. A meu ver, o que não vale nada é matéria-prima para arte, e daí decidi começar a trabalhar com os livros.

Guilherme Melich
Guilherme Melich afirma que a inspiração dos desenhos são fotos de outras pessoas (Foto: Guilherme Melich / Divulgação)

A exposição que vai para a Sala da Casa é inédita. Como foi esse processo de retorno?
Desde que comecei a trabalhar com os livros não parei mais. De tempos em tempos alguns amigos (entusiastas) se lembram da série e me presenteiam com mais algumas dessas enciclopédias e coleções antigas, tipo a Barsa, então faço novos trabalhos. Depois de alguns bons anos sem contato, a Mariana reapareceu e disse que abriria esse novo espaço voltado a sua pesquisa sobre os livros de artista. Abracei instantaneamente a causa e, assim que fechamos uma data, comecei a produzir os trabalhos que estarão expostos na Sala da Casa. O que vemos lá é resultado do que trabalhei ao longo de novembro, ou seja, tudo recém-saído do forno.

O que é “Escritos para ninguém ler”? Que história essa exposição conta?
Essa exposição reúne um pouco do que venho fazendo já há algum tempo: retratos roubados. Vou catando fotos dos outros, sem autorização mesmo. Seja de Instagram, WhatsApp, ou até mesmo fotos impressas, dessas de família. Enfio no bolso e armazeno em um arquivo que mantenho lá no ateliê, então sempre que vou começar um trabalho novo faço uma visita a esse arquivo e vejo o que mais me instiga na hora. Por impulso decido o que desenhar e dali sigo. A onda com os escritos é utilizar palavras para compor um desenho, mas, o que pra mim sai em um fluxo irrestrito e incontrolado de pensamento, para os outros aparece somente como uma sequência de garranchos, marcas que se assemelham a textos, mas que são – ou parecem – ilegíveis. Enquanto cada imagem revela algo, cada palavra se mantém enigmática. São ruínas da comunicação. Ali estão meus diários abertos. Ideias que se expõem sem querer se expor, ou que se revelam sem se deixar entender.

Qual é o barato de fazer do livro existente a possibilidade de contar outra história?
Em parte, penso que cometo um sacrilégio. Não ignoro o fato de utilizar o livro, esse objeto sagrado ao conhecimento humano, como suporte para o que faço. Porém, faço de tudo para adicionar ali um traço de vida. Resgatar através desse ato algo que não poderia ser perdido.

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