Ouça agora

Aversão às versões


Por MAURO MORAIS

03/11/2013 às 07h00

No palco, interpretando Estragon, de "Esperando Godot", Cacilda Becker sentiu fortes dores de cabeça. A atriz aguardou o sinal do intervalo e não mais voltou. Nem para o teatro, nem para a vida. Vítima de um aneurisma, ficou internada por 39 dias e morreu em 14 de julho de 1969. Eis aí a substância das informações que Luís André do Prado tinha para recriar a despedida de uma das mais importantes atrizes do país. Porém, o autor de "Cacilda Becker: fúria santa" recusou o ângulo objetivo dos fatos e abriu espaço para as diferentes vozes que se encontravam dentro ou diante da cena. Logo no início da obra, publicada em 2002, o jornalista e escritor apresenta as lembranças de um dos estudantes secundaristas que assistia ao espetáculo; o ator Walmor Chagas, marido de Cacilda e parceiro na peça; a atriz Marília Pêra, que também estava na plateia, e alguns outros personagens. A essência das recordações permaneceu as mesmas. Os detalhes, não. Representativo no cenário polêmico das biografias, o livro denuncia o quanto as memórias são distintas, como o tempo as afeta e a variedade de versões de uma mesma história. Juntos, os depoimentos elucidam uma história, sem torná-la definitiva.

"Quando fiz a remontagem, percebia que por meio da história oral eu poderia realizar o mesmo truque que o cinema faz de mostrar os vários ângulos da imagem, os muitos olhares que registraram diferentes cenas na memória", aponta Luís André do Prado, que recebeu a autorização dos herdeiros de Cacilda para fazer sua pesquisa e lançar as 621 páginas que resultaram dela. "No trabalho do biógrafo, cada recorte será único, é uma prática autoral. Nenhuma obra será igual à outra, apesar de o fio condutor ser a mesma história de vida", completa. Para ele, acrescido da subjetividade inerente às palavras e da inegável imparcialidade presente em um trabalho de apuração, todo texto prescinde da pena que o faz vivo.

Segundo o cientista político Diogo Tourino, resumir a questão das biografias à vida privada é redutor demais. "Esse debate trata a transparência da história. Em uma sociedade democrática e saudável, é importante não haver censuras prévias à informação", analisa. "O Brasil ainda não tem capacidade de lidar com seu passado, e os traumas decorridos tem um papel importante para evitar que isso não se repita", acrescenta, certo de que a atual polêmica evidencia que a ausência de transparência não está, apenas, no âmbito da política.

Questionando dois artigos do Código Civil, a Associação Nacional dos Editores de Livros, a Anel, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF), no ano passado, solicitando uma revisão na lei vigente, que prevê a prévia autorização para a publicação ou uso da imagem de um biografado. Os músicos Alceu Valença, Jards Macalé, Ivan Lins, o ministro do STF Joaquim Barbosa e os escritores Ruy Castro, Laurentino Gomes e muitos outros intelectuais apoiam o grupo de editores. Formado por artistas de peso, como Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Djavan, Milton Nascimento e outros músicos, o grupo Procure Saber é contrário à alteração. Num cabo de guerra em que dos dois lados encontram-se intelectuais, políticos, artistas e biógrafos, o eixo que movimenta o mercado editorial parece negligenciado. Afinal, o que querem os leitores?

Realizada no último dia 13, a enquete feita pela Tribuna perguntou aos leitores se eles concordam com a proibição da publicação de biografias não autorizadas. Pelo site do jornal, 67% dos internautas manifestaram-se a favor da proibição. Nas ruas, pessoas como a auxiliar de enfermagem Regina Alvim também engrossaram o coro. "Concordo com a proibição, porque invade a privacidade", disse. Via Facebook, os leitores também expressaram-se, dividindo opiniões. "Se é público, porque o artista agora tem crise de celebridade mimada? O escritor pode e tem o direito de escrever, e o artista ou a família, de acionar na justiça se sentirem injustiçados, caluniados ou difamados. Estrelismo idiota e contra tudo o que a maioria desses que estão à frente pregavam!", comentou o internauta Fernando Ortega. "Biografias não autorizadas para mim já existem aos montes: essas revistas de fofocas. E mesmo se forem autorizadas têm de ser de alguém que valha a pena. Como todo mundo sabe, tempo vale ouro", disse o internauta Marcos de Novaes.

Apesar de pequeno, o índice de 33% que se mostra contra a proibição da publicação de biografias não autorizadas representa uma fatia de um forte mercado. De acordo com dados fornecidos pelo portal Publish News, especializado no mercado editorial, as vendas de livros de não ficção no Brasil se mostram aquém do comércio de livros ficcionais, porém denunciam maior participação nacional nos livros de não ficção.

Em ranking obtido através dos números fornecidos por algumas livrarias do país, o que se configura amostra do real, mas não realidade definitiva, nesse ano já foram comercializados quase 800 mil títulos não ficcionais. Dos dez mais vendidos neste ano, seis títulos de não ficção foram escritos por brasileiros, o que não acontece na ficção, onde não há autores do país na lista dos dez mais. Na categoria que engloba romances, contos e crônicas, foram vendidos aproximadamente 1,2 milhão de obras.

"Como editor, não me importo com essa questão da autorização. Se a Constituição defende que o pensamento é livre para ser expresso, assim deve ser feito", destaca Luiz Fernando Emediato, editor e publisher da Geração Editorial, que responde por cerca de dez processos judiciais atualmente. "Há uma demanda muito grande por livros sobre a origem do golpe militar, que desvendam a história recente do Brasil. Há leitores para variadas versões de uma mesma história", completa. "A biografia coloca em questão o que os elementos privados afetam na história coletiva. É preciso que se entenda que uma coisa é a biografia, outra é a autobiografia e ainda outra é a biografia autorizada. São três diferentes estilos", explica o cientista político Diogo Tourino.

 

Em Juiz de Fora: mais a contar

Os 71 anos de vida e os mais de meio século de carreira não bastam em apenas um livro. Mesmo com o lançamento de "Travessia: a vida de Milton Nascimento", escrito pela jornalista Maria Dolores, a história do músico nascido no Rio de Janeiro e mineiro de coração também está em "A música de Milton Nascimento", redigida por Chico Amaral e deverá ganhar, em breve, outro capítulo, mais focado na terra que diz ter mais amigos. Intitulado "Milton de Juiz de Fora", o livro que está sendo escrito pelo médico e músico local Marcio Itaboray pretende tecer uma homenagem e também descortinar a estreita relação do autor de "Nos bailes da vida" com a cidade onde viveu poucos anos de sua infância.

Tratada por Maria Dolores como traumática, a passagem de Milton por Juiz de Fora não terá, nas palavras do amigo Itaboray, a dureza de uma vivência. "Ele saiu daqui com 4 anos. Veio para cá por conta da morte da mãe biológica. Foi difícil, porque ele saiu de uma casa onde era tratado como filho, com todo o conforto, e de repente precisou morar com a avó, em uma casa muito carente. A cidade para ele nunca foi problemática, tanto é que voltou diversas vezes para visitar a irmã. Ele fez muitos amigos e lutou muito pela cidade", defende Itaboray, contando que a ideia da obra surgiu por incentivo do próprio cantor, um dos integrantes do Procure Saber. "Não contesto o que o livro da Dolores fala, mas ele nunca nos falou isso, talvez, até, por sermos daqui", completa.

De acordo com Itaboray, não houve impedimento por parte do músico. "Só concluirei esse livro se o Bituca estiver disposto", acrescenta. Para o autor, que está reunindo fotos e depoimentos de amigos, o trabalho é uma reverência a Milton, personagem importante para a cena cultural da cidade. "Ele foi um dos principais incentivadores da compra do Cine-Theatro Central. O slogan da campanha, ‘Central: a emoção de todos nós’, foi feito por ele. Milton é um somador. Ajudou muitos músicos daqui, fazendo shows, como o Dudu Lima e o grupo Lúdica Música!", destaca Itaboray, apontando que sua contribuição para a compreensão da história do Bituca é tímida, com pretensões muito mais afetivas que históricas.

Diferentemente das intenções de Marcio Itaboray, o jornalista Will Brum deve chocar o país quando seu livro "Detalhes: em nome do pai, do filho… e do amor" chegar às prateleiras. Em aproximadamente 200 páginas, Brum conta a história de um homem que garantiu ser o pai do cantor Roberto Carlos, o ferroviário Claudionor Medeiros Poeta. De Recreio, Zona da Mata mineira, o homem morreu há 13 anos sem realizar o sonho de ver a paternidade confirmada em exame de DNA. Segundo o jornalista, Cláudio dizia ter tido um caso com Lady Laura, mãe do rei, e ter salvo o garoto do acidente de trem em Cachoeiro de Itapemirim. "Mudei-me de Recreio mas sempre fiquei com isso na cabeça. Quando tive a oportunidade, comecei a conversar com as pessoas que me falaram que dona Laura ia à cidade na década de 1930 passar o carnaval. O livro fica difícil, porque o Roberto Carlos é filho do adultério", comenta Brum, desmentindo a conhecida paternidade de Robertino, homem que registrou o cantor.

Processado por Dudu Braga, filho do cantor, o jornalista nunca recebeu a autorização para fazer o trabalho, mas é otimista em relação a um lançamento, afinal, segundo ele, com seu livro é possível compreender ainda mais canções famosas como "Detalhes" – "Ele escreveu essa música para o pai biológico", afirma. "A razão do meu livro existir é porque fala de amor", defende-se.