Quando qualquer ação é lucro

Em obra, Teatro Paschoal Carlos Magno está previsto para ser entregue este ano

Totalmente restaurado, prédio do DCE não tem previsão de ser ocupado
2016 já começou. E é preciso frisar, porque corre o risco de não ser sentido, como o ano que passou. A expectativa para a cultura em Juiz de Fora nos próximos meses, de acordo com os órgãos públicos, é enfrentar, como em todas as áreas, o arrocho econômico para, pelo menos, ver realizadas ações já incluídas nos calendários.
Na Funalfa, o cenário futuro, pintado com muitas doses de realismo pelo superintendente da instituição, Toninho Dutra, é o mesmo que se desenhou nos últimos 12 meses, quando a população viu a redução na verba destinada aos projetos culturais. A Bienal da Dança, cuja primeira edição era anunciada para outubro, se transformou em um evento menor, o “JF em dança”. O Festival Nacional de Teatro também foi mais tímido, sem espetáculos convidados. A Lei Murilo Mendes sofreu cortes em seu orçamento. Sem contar o polêmico carnaval, com sua verba enxugada pela metade, em anúncio feito em julho. “Tudo vai esbarrar na confirmação de orçamento. Vamos ter que trabalhar como foi em 2015, no dia a dia, embora tudo esteja programado”, assevera o superintendente.
Na UFJF, o compasso é de espera, já que a instituição encontra-se em período eleitoral, e o novo reitor deve ser conhecido até fevereiro. Segundo a pró-reitora de Cultura Valéria Faria, agendas foram idealizadas, mas não confirmadas, já que novos gestores podem ser anunciados para os espaços culturais da universidade. De acordo com ela, não existe orçamento definido para 2016, e o enxugamento dos gastos em 2015 pode apontar para expectativas econômicas ainda mais magras para a cultura. “É urgente o retorno da fundação de apoio na gestão dos espaços. Na cultura, os teatros, principalmente, podem ser autossustentáveis”, pontua ela, suscitando um dos principais debates do ano passado na instituição.
Para Valéria, a intermediação de uma fundação de apoio, desviando-se, assim, da burocracia da conta da União, propicia “buscar outras vias para a gestão da cultura”. “Dessa forma, será possível produzir sem o recurso federal. O Centro Cultural Pró-Música é um exemplo disso, porque conseguiu trabalhar de forma muito criativa para fazer a cultura acontecer. Esse legado que também precisamos honrar”, comenta ela, anunciando planos para as finanças do empreendimento erguido pela família Sousa Santos: “Já pensamos em criar uma associação de amigos do Pró-Música”. Além disso, o centro cultural deve receber, nos próximos meses, um recurso via emenda parlamentar para reforma do corredor de entrada, e complexo do teatro, incluindo cadeiras, iluminação e sonorização.
Mãos à obra
Quando 2016 fizer a curva, a paisagem poderá se alterar. O segundo semestre reserva boas promessas. A Prefeitura planeja entregar, antes do término da atual gestão, o aguardado Teatro Paschoal Carlos Magno. Iniciada há mais de três décadas, a construção foi retomada em julho deste ano, com aporte de R$ 6 milhões por parte da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig). “O teatro é nossa prioridade máxima. Já andei conversando com alguns grupos de artistas, e, caso seja absolutamente necessário, vamos deixar de fazer algumas ações para terminá-lo dentro do cronograma”, dispara Toninho Dutra sobre o equipamento de 400 lugares, com galeria de arte, café e salas multiuso.
“Hoje, os artistas têm muita dificuldade para pagar pelos espaços públicos que não estão nas mãos da Prefeitura. O Centro Cultural Mascarenhas é bacana, mas é pequeno e não abriga todos os tipos de produção. Com isso, na hora das escolhas financeiras, o teatro vai estar na frente.” Toninho assevera, ainda, que o andamento dos trabalhos está dentro do previsto. “Foi feita a parte de demolição para adaptação da obra, o telhado foi construído, e estamos entrando no ar condicionado. Agora é começar o acabamento. Estamos muito otimistas, porque o grosso está pronto. Toda a alvenaria foi reaproveitada.” Também aguardada há anos, a pintura da fachada do prédio da Funalfa, no Parque Halfeld, deve, segundo Toninho, sair do papel em 2016.
Inaugurado em 2015, o Centro de Esportes e Lazer (CEU) da Zona Norte, de 7.000m², é considerado pela Funalfa uma das principais conquistas recentes de Juiz de Fora. Contando com uma biblioteca, cujo acervo é de 25 mil livros, um infocentro de nove computadores, teatro e quadra, além de áreas de lazer e práticas esportivas, o espaço faz, por semana, cerca de 1.100 atendimentos em oficinas e mil atendimentos espontâneos. “Estamos fazendo um levantamento para ver se conseguimos expandir e receber um número maior de alunos. O edital para ocupação deve ser aberto em breve”, adianta o superintendente.
Nem Museu nem DCE
Era o anseio, mas ainda não é possível noticiar a reabertura do Museu Mariano Procópio. Guardiã de um dos principais acervos do Brasil Imperial, a instituição segue em obras em 2016. Paralelamente à execução dos trabalhos, as portas continuam se abrindo, como vem acontecendo desde meados de 2015, a pequenos grupos para o restauro visitável. “As obras estão sendo realizadas com todo zelo e critério que o nosso Museu merece. Atualmente, elas estão bastante adiantadas na Vila Ferreira Lage, com processos de restauração com acompanhamento de especialistas para que, paulatinamente, a casa seja reaberta aos visitantes”, afirma o Prefeito Bruno Siqueira, acrescentando que as intervenções são feitas por etapas e em conformidade com as cartas patrimoniais e a legislação de museus.
Já totalmente restaurado, o DCE, na esquina da Rua Floriano Peixoto com a Avenida Getúlio Vargas, também não tem previsão de ver suas portas abertas. Nem sequer conta com um planejamento de ocupação do espaço. De acordo com a pró-reitora de Cultura Valéria Faria, o ideal é que ele se volte para a cultura universitária, mas tal direção também não foi tomada. Entre suas sugestões, está a reunião do acervo do escritor juiz-forano Pedro Nava ou de coleções como a do Museu Dinâmico de Ciência e Tecnologia e do Museu de Malacologia. “Não podemos deixar como está, sem atividade. Já fiz reuniões com profissionais da área e professores, sem formalidades, para discutirmos as possibilidades de ocupação”, diz. O jeito, nesse e em outros muitos casos, é esperar.
Pés no chão
Falando em números, o orçamento aprovado para a Funalfa em 2016 é de aproximadamente R$ 12 milhões, montante igual ao que se aguardava para 2015. Apesar da previsão, o superintendente da Funalfa Toninho Dutra explica que o repasse só é feito para a pasta à medida em que a arrecadação municipal se confirmar. “Se o vento virar, teremos capacidade de projetar alguma coisa, mas é pouco provável. Estamos bem pé no chão. O que vivemos em 2015 nos mostrou que não adianta pensar alto enquanto o cenário não mudar”, afirma ele, ressaltando que, para a Lei Murilo Mendes, a estimativa é de R$ 1 milhão.
Por enquanto, de acordo com o superintendente, é cedo para afirmar se haverá cortes no valor do fomento, como aconteceu no ano passado, quando a verba diminuiu para R$ 850 mil, o que corresponde a uma redução de 23%. “Nosso trabalho é voltar ao mesmo patamar. Lutamos muito para não interromper a lei este ano, mesmo que não seja com o valor desejado por muita gente”, comenta, assegurando que o pagamento aos contemplados na última edição será feito ainda no início de 2016.
Quanto ao carnaval, apesar de não haver desfile neste ano, está sendo estudada a realização de uma comemoração aos 50 anos das Escolas de Samba. “Será um dia de festa com todas as escolas presentes. Vamos trabalhar muito para começar a programar o carnaval de 2017 ainda em 2016. Mas é um trabalho muito difícil sem a certeza de dinheiro”, diz Toninho, já confirmando a participação de Leandro Sapucaí e Orquestra Voadora na programação do Corredor da Folia, agendado para acontecer entre 28 de janeiro e 5 de fevereiro.
Há sete meses de sua realização – conforme prometido pela UFJF, que deseja retorná-lo para julho -, o 27º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga ainda está no papel. “Já temos uma sinalização da Petrobras para patrocinar. E esse ano tem o Encontro de Musicologia. Mesmo que mudem os gestores todos, os projetos deverão ser mantidos, porque a universidade tem um compromisso”, afirma Valéria, assumindo o pouco tempo hábil para a produção do evento. “Nosso desejo de trabalhar com os professores do departamento de música está mantido, e todos já estão discutindo nomes e programação”, pontua, anunciando a contratação, via terceirização, do regente Victor Cassemiro para o Coral Pró-Música/UFJF e para a Camerata e Orquestra Sinfônica Pró-Música/UFJF.
No Instituto de Artes e Design da UFJF, que completa dez anos em 2016, um evento comemorativo já começou a ser erguido para o segundo semestre. “Os núcleos de área estão se reunindo para discutir a programação”, conta a pró-reitora de Cultura, também professora do instituto que definiu o rumo das artes na cidade na última década. Segundo ela já é certa a montagem de uma exposição em homenagem aos professores que passaram pelo curso de artes, incluindo o resgate das obras de Leonino Leão, pintor, desenhista, fotógrafo, gravador e professor.









