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João Pessoa, linda de lascar


Por JÚLIA PESSÔA*

02/12/2015 às 07h00- Atualizada 02/12/2015 às 12h20

Vista panorâmica da orla de Manaíra

 

João Pessoa (PB) – Quando se vê anúncios de roteiros turísticos para o Nordeste, destinos como Salvador, Fortaleza, Porto de Galinhas e Natal logo pipocam como opções, enquanto a belíssima Paraíba acaba ficando para escanteio, longe dos holofotes. No entanto, quem descarta dos planos de viagem o estado de ilustres como Augusto dos Anjos, Jackson do Pandeiro, Chico César, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, e, obviamente, João Pessoa, está pedindo, no bom português local, para “se lascar”. Na fala cadenciada e deliciosa de ouvir do hospitaleiro povo da Paraíba, o verbo reflexivo é uma máxima, quase sempre citada com o típico bom humor da Terra : “Ih, não pegue a rodovia a essa hora não que tá cheia, você vai se lascar”, “Fui para a praia, e o tempo fechou, me lasquei”, “Eu avisei que depois daquela moqueca apimentada, ele ia se lascar.” Em João Pessoa, a garantia de boa viagem começa na receptividade do pessoense: sempre preocupado em atender, orientar e mostrar ao turista seu orgulho pela cidade em que vive. “Duvido que vocês vão querer ir embora”, diz o guia Severino Neto, que depois de muito custo revela ao grupo de jornalistas o primeiro nome, preferindo ser chamado de Neto: “Danado de nome comum, é Severino para todo lado.” Realmente, não dá vontade de deixar a cidade. Das águas cristalinas da Praia do Bessa (ou “Caribessa” na piada local) até o belíssimo centro histórico com igrejas, construções e monumentos que remontam ao Brasil Colônia e Império, João Pessoa tem uma diversidade de roteiros, programas e sabores disponíveis ao turista, que Neto não se furtou em apresentar, e dos quais a repórter, que leva o mesmo sobrenome do homem que batiza a capital, não se fez de rogada em desfrutar.

Sorvete de caipirinha na extremidade mais oriental

A simpática Dona Célia e seu famoso sorvete de caipirinha com calda de cachaça
A simpática Dona Célia e seu famoso sorvete de caipirinha com calda de cachaça

É em Jampa (para os íntimos) que está a Ponta do Seixas, porção mais oriental das Américas, banhada por um sem-fim de tons de verde e azul do mar. A melhor vista do ponto é do farol do Cabo Branco, construído na época da ditadura militar e assentado sobre uma grande falésia, constantemente erodida pelas ondas. Por conta da erosão, parte da área próxima ao farol está isolada, e um trecho do mirante já se despedaçou. Ainda assim, a paisagem é de tirar o fôlego, principalmente se contemplada entre uma colherada e outra das delícias vendidas no entorno, como o sorvete de caipirinha artesanal da barraca de Dona Célia, que abusa deliciosamente da temática etílica com a cobertura de cachaça. “É tudo feito com produtos daqui, como a cana-de-açúcar. E tem também de coco verde, graviola, tapioca”, diz ela, desfilando o cardápio de ingredientes regionais seguido sempre de “Prove este também, menina”, a que obedeci, sem jamais poder opinar sobre o melhor sabor.

Na orla da praia de Manaíra e arredores, o mesmo mar límpido acompanha o trajeto que margeia a pista e lá, um ponto bom para quem quer ir às praias do centro, como Tambaú, Bessa e a própria Praia de Manaíra (esta, contudo, nem sempre própria para o banho). Parte do burburinho da noite está por lá, em quiosques do calçadão ao final da orla, onde é possível tomar uma fresca, uma cervejinha e comer um petisco, com recomendação para os frutos do mar, sempre frescos e ridiculamente baratos. Para hospedagem, vale conferir o Hotel Verde Green, completamente voltado para a sustentabilidade, com iniciativas que vão desde captação de água e luz solar até a disponibilização de bike para os hóspedes, uma boa pedida, já que a orla é fechada todos os dias para ciclistas e corredores pela manhã. Também vale a pena conferir o restaurante, com pratos típicos inusitados como o risoto de abóbora, camarão e carne-seca, mistura que parece “over”, mas acredite: você vai querer repetir. Ali pertinho, quem quiser conferir mais da gastronomia nordestina pode dar um pulo no Mangai, que oferece centenas, verdade, centenas de opções de toda a região em um buffet a quilo, boa oportunidade para degustar vários sabores do Nordeste por um preço que cabe no bolso.

Barroco tropical

 

Do litoral até o Centro, no trajeto pela Avenida Beira Rio, muitas áreas verdes ilustram a paisagem, entremeadas por obras de artistas paraibanos em cada rotatória. Chegando ao Centro Histórico, passa-se pelo Varadouro, o bairro mais antigo da cidade, revitalizado há alguns anos em uma parceria do governo do Estado com as Tintas Coral, mantendo a vasta paleta de cores das casas que, no período imperial, eram identificadas pelos tons da fachada. Muitas das igrejas do período remetem a um barroco que já vimos aqui pelas Minas Gerais ou na Bahia, como o Convento Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em barroco rococó, e a Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, situada no Marco Zero da Cidade, uma das primeiras construções dos portugueses na Paraíba.

Centro Cultural São Francisco tem rico acervo barroco e pátio com cruzeiro e Via Sacra representada em azulejos
Centro Cultural São Francisco tem rico acervo barroco e pátio com cruzeiro e Via Sacra representada em azulejos

O Centro Cultural São Francisco, situado no Centro Histórico, reúne tesouros que remetem à colônia e o império, com quatro capelas, duas dedicadas a Santo Antônio e uma a São Francisco, estas cobertas por ouro em alguns dos detalhes como os púlpitos – um deles destacado como singular no mundo inteiro pela Unesco – e as imagens e uma minúscula, de São Benedito, destinada aos escravos, retrato das raízes do abismo social histórico do Brasil. O local é um dos mais importantes acervos de diferentes vertentes do barroco, com detalhe para um estilo peculiarmente brasileiro, o barroco tropical, que em suas representações traz frutas como abacaxi, pitombo e bananas, além de flores e imagens de sereias belamente incrustadas em madeira e retratadas em pinturas, representando as tentações a que o ser humano deveria resistir. O local abrigava também um convento franciscano, e depois um seminário, desativados em 1979 e inaugurados em 1990 como centro cultural, abrigando hoje um rico acervo da cultura popular regional e nacional.

Pôr do sol à beira do Paraíba

F8: Há mais de 15 anos, Jurandy do Sax toca o Bolero de Ravel no pôr-do-sol do Jacaré
F8: Há mais de 15 anos, Jurandy do Sax toca o Bolero de Ravel no pôr-do-sol do Jacaré

 

É uma afronta deixar a capital paraibana sem conhecer o tradicionalíssimo pôr do sol na praia do Jacaré, que não é exatamente uma praia, mas as margens do Rio Paraíba; nem fica em João Pessoa, mas no município de Cabedelo, região metropolitana, a cerca de 15km de Jampa. Há mais de 15 anos, o espetáculo da despedida do sol, que valeria o passeio por si só, é musicado por Jurandy do Sax, que a bordo de uma canoa toca o Bolero de Ravel, que vai aumentando a cadência ao passo que os raios solares se despedem no horizonte.

O programa pode até parecer aqueles pacotes “só para turista” quando descrito, mas a explosão de tons de laranja, amarelo, vermelho sob a trilha sonora impactante realmente é algo que todo mundo deveria ter a chance de viver antes de se despedir do mundo. Sublime. Como estamos no ponto em que o sol se põe primeiro nas Américas, é bom chegar cedo, em torno de 15h, e dar uma voltinha na feira de artesanato local, que traz produtos feitos com couro e algodão da região, e também há casas de venda iguarias típicas como manteiga de garrafa, mil e um tipos de cocada e rapadura, cachaça, castanhas, queijo coalho, bolos de rolo, paçoca, tudo isso e incontáveis outras delícias, com possibilidade de degustação na loja. Mas é prudente ir com calma ou… vai se lascar. * A repórter viajou a convite do Mussulo Resort by Mantra