Corpos que expressam os dias

Remiwl Street Crew resume seus 3.650 dias de aprendizados e muitas histórias no espetáculo “3650 – As dores e delícias da convivência”
Foram 3.650 dias de alegrias, tristezas, conquistas, angústias, revelações, dissabores e muitos outros sentimentos naturais às convivências. Foram 3.650 dias de aprendizados e muitas histórias. Foram 3.650 dias de formação para que “3650 – As dores e delícias da convivência” ganhasse forma e fôlego. O primeiro espetáculo do grupo de dança urbana Remiwl Street Crew, que estreia nesta quarta (2), às 20h, no Cine-Theatro Central, olha para trás para comemorar o hoje. “Nesses anos todos, passamos por muitos momentos, muitos sentimentos, das alegrias às tristezas, que não são só nossos, mas próprios daqueles que se propõem a uma convivência plena”, comenta o integrante da companhia e codiretor do espetáculo Thiago Miranda.
Foram 3.650 dias para que o grupo ganhasse a cena por inteiro, sem dividi-la com outras companhias, como acontece nos muitos festivais que participa. “Temos um histórico de muitas apresentações de pocket shows em festivais. Com o tempo, amadurecemos bastante, ficamos mais seguros e começamos a buscar novas propostas. Esse espetáculo é resultado de um processo de crescimento”, conta Miranda. “A ideia inicial era contar nossa história, mas dentro dos nossos laboratórios percebemos que poderíamos retratar algumas sensações que se estabeleceram no contato. Estar em cena durante 50 minutos é uma felicidade prolongada. Comparada às curtas cenas, é uma sensação, um tesão, uma emoção multiplicada por 30.”
Foram 3.650 dias de ensaios, viagens e diferentes reconhecimentos, como a participação no programa “Qual é o seu talento?”, do SBT, no qual chegaram à semifinal, em 2010. Segundo Miranda, a formação que hoje conta com nove integrantes começou da amizade. “Resolvemos nos unir pelo amor que todos tinham pela dança. Quando surgimos como grupo, a ideia era só dançar, pensando em ir mais a fundo, mas com um foco no exercício constante”, diz, apontando as companhias The Boys, de Petrópolis, Anibal Dance, de Itajaí, e Ritmos Family, de São Paulo, como as principais e primordiais referências.
Foram 3.650 dias de uma certeza muito grande no poder da dança, fé que resultou na criação do Remiwl Base, projeto social que oferece a cerca de 50 crianças aulas gratuitas na Escola Estadual Clorindo Burnier, no Bairro Barbosa Lage, aos sábados e domingos, além de acompanhamento psicológico. O hip-hop dance, linguagem da qual lançam mão, fundamentada nas danças sociais, surgiu, de acordo com Miranda, nos clubes norte-americanos com o intuito de desenvolver os passos para trocas entre dançarinos. A partilha, então, é a base. E dela o grupo conseguiu retirar o suporte para construir todo o espetáculo “3650”. “Está sendo um aprendizado muito grande, para mim, para o Walmor Calado, com quem divido a direção, e para todo o grupo, porque estamos dando as caras e fazendo tudo. Nossa produção é independente, e isso é muito gostoso”, pontua Miranda.
Dos anos que virão
“Sempre lutei para viver da música e hoje colho os frutos dessa batalha diária. Sempre quis poder viver da dança, de dança e com a dança. Hoje estou muito realizado com as oportunidades, convites e manifestações de carinho”, emociona-se Thiago Miranda, que, desde 1998 (há 17 anos), dedica-se à manifestação, na certeza de que o corpo em movimento, cada gesto e expressão, vai muito além da arte, trazendo a rua para a sala de ensaio e para o palco. “Em nosso cotidiano, discutimos sexualidade, racismo, preconceitos, até para apontar outras realidades e saídas. Existe outro caminho, e ele é possível na dança”, comenta.
Num espaço identificado com a dança clássica e com expressões eruditas como concertos de música antiga, o Remiwl Street Crew comemora não apenas a primeira grande produção, mas também uma ocupação capaz de alterar os dias que ainda virão. “O empoderamento também é uma característica nossa. Propositalmente queremos estrear no Central para mostrar que podemos, sim, desfrutar de palcos como os grandes nomes das artes nacionais. Merecemos estar lá”, diz Miranda, para logo completar: “Assim, conseguimos mostrar para toda a classe da dança urbana que esse espaço também é nosso.” Partindo de uma leitura subjetiva do convívio entre o grupo, o espetáculo “3650” mostra como, traçando objetivos comuns, as individualidades foram superadas e um projeto amplo foi erguido. Afinal, foram 3650 dias, e muitos outros virão.
3650 – AS DORES E DELÍCIAS DA CONVIVÊNCIA
com Remiwl Street Crew
Nesta quarta (2), às 20h
Cine-Theatro Central
(3215-1440)









