Juiz de Fora no FestCurtasBH
Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte acontece entre os dias 4 e 14 de novembro de maneira híbrida; Bruna Schelb e Renata Dorea contam sobre a participação de seus filmes


Para organizadores independentes, estar dentro dos festivais de cinema é uma forma de fazer circular a produção e, ao mesmo tempo, ir na contramão da difícil questão da distribuição fílmica brasileira. Bruna Schelb, por esse fator, afirma que, apesar de ser uma questão burocrática muitas vezes, a inscrição em festivais “está dentro do processo de fazer um filme. Além de criar, conceber, dirigir e até atuar às vezes, eu faço meu filme circular”. Neste ano, ela e Luis Bocchino lançaram o curta-metragem “Olho além do ouvido”, que faz parte de uma trilogia inspirada nas questões atuais. Esse, que é o segundo, vai ser um dos filmes a compor a Mostra Paralela de animação da 23ª edição do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FestCurtasBH, que acontece entre os dias 4 e 14 de novembro.
Neste ano, o festival funcionará de maneira híbrida. Além de todos os filmes ficarem disponíveis na plataforma on-line da Fundação Clóvis Salgado de maneira gratuita, sessões para a exibição dos curtas foram organizadas para ocorrerem presencialmente, com limitação de pessoas. As performances, masterclasses e os debates continuarão sendo realizados a distância. Para Bruna, essa adaptação feita por causa da pandemia tem vantagens e desvantagens. Apesar de “perder muito o calor humano, a experiência coletiva de assistir a um filme com pessoas ao lado”, ela acredita que as produções na internet conseguem atingir um público que, muitas vezes, não teria acesso aos conteúdos. “O alcance da internet é implacável. Tem um bom público que, agora, está descobrindo o formato dos curtas e da proposta cultural que é um festival de cinema.”
Até onde o olho alcança
O FestCurtasBH, por ser internacional, ainda consegue, como Bruna diz, possibilitar o “acesso a filmes de lugares que a gente nem pensa em ir”. Para ela, “é importante, enquanto artista, estar em contato com o nosso tempo, saber o que está acontecendo não só perto da gente. Fazendo, constantemente, uma revisão na forma de pensar e narrar o mundo”. Na lista da mostra que ela participa, há filmes do Rio Grande do Sul, da França, da Polônia, do Canadá e do Reino Unido. Além dessa, outras mostras, inclusive competitivas, reúnem realizadores de lugares diversos do mundo.
As mostras competitivas são divididas em três áreas, que unem filmes de Minas Gerais, do Brasil e internacionais. Na competitiva que tem filmes só de realizadores que moram em Minas, Juiz de Fora está presente com o curta “Suellen e a diáspora periférica”, de Renata Dorea. Ela nasceu no Rio de Janeiro e o filme perpassa os arquivos de sua memória e das fotos da infância em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Ele foi feito na pandemia em um momento em que ela refletia sobre a sua relação com a família, a conexão com a baixada e a recorrente busca dos negros por um lugar melhor, referenciando a diáspora.
Renata, agora, está em Cuba, fazendo o curso de TV e Novas Mídias na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), uma das melhores escolas de cinema do mundo. De lá, ela recebeu a notícia da seleção. Ela conta, entusiasmada, que já acompanhava o FestCurtasBH e sua importância por ser um festival de curtas internacional mineiro que defende esse formato: “algo importante para pensar a democratização do cinema. Pensar em, como com um celular, a gente consegue registrar e contar uma história”. Ao mesmo tempo, Renata está prestes a terminar o curso de artes e design na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Durante esse percurso, ela levanta uma pesquisa sobre o cinema negro e um documentário sobre mulheres negras. O curta selecionado reúne essas perspectivas e conta um pouco de sua história que, como ela fala, “se espalha por todo o mundo”.


Democratização das formas de fazer
Renata concorda com Bruna quando discorrem sobre a possibilidade que os festivais feitos de maneira on-line desenvolvem de romper com as barreiras da audiência. Mas, além disso, acredita que eles acabam por democratizar, também, a produção audiovisual, principalmente por apresentar as formas de fazer. “Pra gente fazer filme, tem que assistir muito filme. Ampliar a sociabilidade para além de um território físico e pensar em um outro, virtual, é incrível. Um fenômeno a ser estudado e acompanhado na contemporaneidade.” Outro ponto que ela levanta é a capacidade de ir além do eixo Rio-São Paulo, que, ainda hoje, detém as produções de cinema no Brasil.
“Olho além do ouvido”, de Bruna Schelb e Luis Bocchino, também narra uma história, mas voltada para esse momento em que, de acordo com Bruna, “a verdade pode ser colocada em dúvida a qualquer momento”, com referência ao teatro de sombras. A proposta nasce da adaptação de realizar um curta com apenas duas pessoas. Além dessa, a ideia é homenagear professores e pesquisadores do Brasil.
FestCurtasBH
Além dos filmes de Bruna e Renata, o FestCurtasBH recebeu 2.795 inscrições de produções de 26 estados brasileiros e de 112 países. Durante os dias do evento, ele fará um percurso sobre a atual produção cinematográfica mundial. Cada uma das mostras, sejam elas competitivas, paralelas ou a especial, selecionam realizadores que conversam entre si e, sobretudo, narram a atualidade. A Mostra Especial Cosmopoéticas do (In)visível reúne curta-metragens que dialogam com a obra de Dénètem Touam Bona, filósofo de origem francesa e centro-africana, e expressam a ideia de “poética da fuga”. Os filmes estarão disponíveis no site www.cinehumbertomauromais.com/.










