Aqui jaz uma história
Nem um pouco mórbida, mas envolta na singeleza fúnebre, a morada dos mortos reproduz de alguma forma a casa dos vivos. Basta um passeio pelo Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida, localizado no bairro Poço Rico, para se deparar com um território capaz de revelar um trecho da história da cidade. Importante ruralista local, intitulado o rei do café, o bacharel em direito e diretor do Banco Crédito Real de Minas Gerais, Cândido Tostes, permanece imponente através de seu jazigo, alvo como a matéria-prima utilizada no instituto que leva seu nome. Logo ao lado, o lugar onde se encontram os restos mortais das famílias Spinelli e Arcuri preserva a grandiosidade arquitetônica que consagrou um dos seus, o arquiteto ítalo-brasileiro Raphael Arcuri. Por outras esquinas, em meio a cruzes e mensagens emocionadas, a memória da urbe se esconde nas saudades de seus habitantes.
"Alguns anos atrás, aqui era mais movimentado. Em Dia de Finados parecia Aparecida do Norte, mas ultimamente a frequência diminuiu bastante", conta Joaquim Marcos da Silva, coveiro aposentado que atualmente complementa sua renda limpando alguns túmulos. Em outubro, ele trabalha todos os dias, mas no resto do ano vai ao lugar poucas vezes por semana, já que a procura é pequena. "A cada ano, a visitação tem sido, apenas, dos que velam seus mortos. Não há interesse turístico, e os herdeiros não têm mais esse valor cultural de cuidar de seus túmulos", confirma o diretor do Cemitério Municipal João Wagner.
Maior cemitério da cidade, o Municipal preserva, hoje, uma parte mais antiga, onde se encontram jazigos do século XIX, e outra mais recente. Morta em 1878, a menina Palmira, que partiu aos 17 anos, é considerada santa pelos muitos fiéis que frequentam sua sepultura, sempre cheia de flores e, curiosamente, sem nenhuma referência à falecida, já que placas nas quais se lê agradecimentos às graças alcançadas tomam toda a extensão do humilde túmulo. Em "História de Juiz de Fora", o historiador e jornalista Paulino de Oliveira conta que foi o jornalista Jarbas de Lery Santos quem revelou a propensão milagrosa da garota enterrada no Municipal. "Muitos anos depois, como seu túmulo não tivesse inscrição e não houvesse registro dele, a Prefeitura abriu-o e lá estava Palmira em carne e osso", narra.
Igualmente emocionante, ainda na porção mais velha do lugar, o túmulo de outra criança toca pelas inscrições feitas em mármore branco. Abaixo de uma escultura de um anjo, estão as dolorosas palavras de uma mãe: "À memória de Maria L. Nunes Lima. Os dias, os mezes, os anos irão passando, e quando um dia acordar na eternidade unir-me-hei a ti, amando-te como hontem, como hoje, como sempre. Tua mãe". As palavras, ainda que desgastadas pela ação do tempo, contribuem para a melhor compreensão de um outro tempo. Em diversos jazigos, encontram-se declarações de amor, feitas por esposos ou esposas – ainda com o "z" e o acento circunflexo em espôzo -, nos quais se lê: "tributo ao amor conjugal". Em outros, os filhos mortos são tratados como "innocentes", palavra que antecede o nome e a data de partida.
"O epitáfio é uma expressão de aceitação ou desalento da morte terrena. Até a década de 1970, o cemitério revela uma identidade cultural na qual a cidade dos mortos reflete a sociedade. Desde o final do século XX, as pessoas evitam o espaço", explica o professor e doutorando em teologia e história pela Faculdades Est, no Rio Grande do Sul, Thiago Nicolau de Araújo. Segundo o pesquisador, os túmulos, que antes se apresentavam como uma afirmação de poder ostentando esculturas e longas inscrições, refletem o momento atual, sob o imperativo dos contatos virtuais e do alto consumismo. "Até a morte tornou-se prática. O último momento do ser humano passou a ser algo impessoal, perdeu-se a cultura religiosa", acrescenta, apontando para o crescente mercado de velórios on-line e cemitérios-parque.
Saudades de outrora
Como já acontece em cemitérios como o do Bairro Recoleta, em Buenos Aires, na Argentina, e nos famosos e frequentados espaços dedicados aos mortos em Paris, na França, Thiago Nicolau de Araújo defende que os cemitérios configuram um interessante destino turístico. Em Juiz de Fora, o jazigo da família Cautieiro Franco, no qual encontram-se os restos mortais do presidente Itamar Franco, poderia ser um referencial no Cemitério Municipal, mas dada a simplicidade da sepultura o atrativo torna-se baixo. O túmulo do político reflete as novas moradas, que já não ostentam obras de arte, como as imagens presentes na sepultura da família de Cândido Tostes, importadas da Itália e produzidas por Enrico Arrighini, cuja assinatura esculpiu no trabalho.
Nem um pouco simples, mas com mato cobrindo toda a sua extensão, o jazigo da família Severiano Sarmento exibe a assinatura de cada parente enterrado, além de anjos e capela em estilo eclético, predominante em todo o cemitério.
De acordo com João Wagner, diretor do Municipal, só é permitido ao cemitério perpetuar 30% do espaço total do lugar, taxa que se encontra quase no limite. "Pouca gente hoje pede perpetuidade. Até porque os locais que restam são muito ruins", comenta, referindo-se às covas mais novas, que se encontram na porção íngreme do cemitério. Segundo ele, há uma grande preocupação com a preservação das sepulturas, que são de responsabilidade das famílias, tanto que já tramita no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac) o tombamento de jazigos relevantes à história local. "Na verdade, o município é responsável por seus mortos", completa. Fazendo coro, Joaquim Marcos da Silva, profissional que se dedica à limpeza de alguns túmulos, observa que tal como um imóvel, a morada dos restos mortais também se caracteriza como patrimônio e merece ser zelada.
"Expressamos fé, mas no momento final ela não aparece. O homem de hoje foge de pensar a morte ao transformar o cemitério em um parque. Isso revela o hedonismo humano", reflete Araújo, que se dedica a pesquisar a arte tumular, defendendo sua manutenção como identidade cultural. Além da saturação dos espaços físicos, o pesquisador acredita haver uma recusa aos sentimentos religiosos. Não há mais interesse em construir um Cristo, com aparência consoladora, sentado em uma pedra, em tamanho real, como o que se encontra sob o jazigo da família Simão. "Muitos vêm aqui rezar", conta Joaquim Marcos da Silva. No misto de galeria e livro a céu aberto, as saudades são compartilhadas. O registro do que passou jaz em memória.









