Patrícia Almeida lança vídeo experimental
“Atrás da poesia, apenas uma padeira” une artesanato, digital, poesia e arte renascentista


A videoartista, poeta e produtora cultural Patrícia Almeida lança nesta quinta-feira, no YouTube, seu mais novo trabalho: o vídeo experimental “Atrás da poesia, apenas uma padeira“, realizado com o apoio da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais. Com pouco mais de dez minutos de duração, a obra faz conexões entre o poema “Vendo pão e água”, de sua autoria, e o quadro “La fornarina”, do pintor renascentista Rafael Sanzio (1483-1520), complementados pelo uso de retalhos de tecidos _ comuns no trabalho de Patrícia -, criando uma combinação entre o artesanal e o digital, e que ganham ainda mais força com o uso da música e de diversas pessoas que emprestaram suas vozes ao projeto.
Segundo Patrícia, a imagem da padeira (fornarina) no quadro de Rafael já a acompanhava há anos, mas foi no início da pandemia, em 2020, que ela decidiu desenvolver o projeto do vídeo; por coincidência, ela descobriu que o ano também marcava os cinco séculos da morte do pintor italiano. Foi assim que ela passou mais de um ano na produção da obra, que teve sua versão final concluída apenas esta semana.
“Atrás da poesia, apenas uma padeira” envolveu não apenas a pesquisa teórica, mas também o que ela chama _ apropriadamente _ de “pôr a mão na massa”, que tem ligação muito forte com suas raízes familiares. “Minha mãe, quando se mudou para Minas Gerais (Patrícia é natural da cidade fluminense de Petrópolis), trabalhou na indústria têxtil, depois virou costureira, e quando pequena me deu a liberdade de mexer na máquina de costura; então fazia roupas para minhas bonecas, de onde vem minha ligação com os retalhos e com as coisas artesanais. Ela e meu pai sempre deram liberdade para escolhermos nossos caminhos. Depois, por um período, fui a responsável por vender os pães artesanais da família, de onde surgiu o poema ‘Vendo pão e água’. Mais ou menos nessa época (entre 2008 e 2009), passei os retalhos para o computador, e as poesias, para os retalhos, o que resultou numa videoinstalação que eu fiz.”
Voltando ao vídeo experimental, Patrícia conta que desenvolveu inicialmente um projeto para o “Janelas abertas”, da UFJF, que foi aprovado e ganhou sua primeira versão. “Porém, pensei que poderia explorar e pesquisar mais, então apresentei um projeto para a Lei Aldir Blanc que poderia explorar ainda mais a proposta e a pesquisa”, justifica. “Acho interessante ter a oportunidade de falar de algo que acredito ter um valor único. Enquanto qualquer um pode jogar fora os retalhos, eles são pequenos tesouros pra gente, como dizia a Zuzu Angel. E acredito que entra todo mundo nessa história, do simples pedaço de pano até o pão que faz falta na nossa mesa, e essa figura anônima do Rafael que dizem que era uma padeira, outros dizem que era uma cortesã”, filosofa.
Parcerias a (longa) distância
Além da parte em que ela mesma colocou a mão na massa, Patrícia Almeida contou com a participação de amigos e parentes para realizar o projeto. O poema _ traduzido para o italiano pela irmã Teresa _ foi declamado pela sobrinha Rafaella, de apenas 11 anos; e a audiodescrição que aparece em determinado momento do vídeo teve a consultoria de Girléia Jardim. Ela pontua que o trabalho foi uma forma de se aproximar e/ou reaproximar das pessoas nesses tempos em que a pandemia exige o distanciamento social.
“As pessoas me mandavam determinados áudios e eu achava interessante, tanto que passei a fazer videopoemas que chamo de ‘sequestro de áudios pós-autorizados’, pois só depois que fazia é que eu perguntava se a pessoa autorizava (risos). Aí, quando comecei a gravar os áudios para o vídeo experimental, vi que não teria graça fazer sozinha, então convidei as pessoas a lerem algumas passagens”, relembra.
“Foi um exercício coletivo. Eu moro com minha filha, que fez teatro e tem visão para as artes, e é uma oportunidade para trocar ideias. Ao mesmo tempo, tem gente ali, como a Patricia Alencastro, que mora no Rio de Janeiro e conheci graças a um curso on-line, mas que virou minha amiga e topou participar do projeto. É a mesma situação com outras pessoas, como a Rosa Santos, que é de Cascavel, no Paraná”, diz, sem esquecer da participação familiar a longuíssima distância.
“A Raffaela conheci quando ela tinha 2 anos de idade, e há nove anos não nos encontramos. Acabou sendo uma história interessante se você pensar como pode ser diferente quando não se convive com a pessoa, que ela não sabe o que você escreve. Eu pedi para a mãe dela traduzir o poema, e tem uma parte que eu escrevi ‘passada’ e ela entendeu ‘estragada’, ‘quem está estragada sou eu’ (risos). A expressão ‘estou passada’ passou a ter um novo significado para nós”, encerra Patrícia, que já prepara um novo vídeo, autobiográfico, ainda sem previsão de lançamento.











