Mamm recebe exposição inédita do acervo da artista alemã Carla Pohle

Mostra estabelece ponte entre coleções de Murilo Mendes e pesquisador Jorge Coli


Por Beatriz Bath*

02/06/2026 às 06h05

Mamm recebe exposição inédita do acervo da artista alemã Carla Pohle
A artista Carla Pohle tem parte de sua obra apresentada na exposição do Mamm (Foto: Reprodução/Mamm)

O Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) recebe a exposição “Presenças suspensas: Carla Pohle e as formas da expressão”, dedicada à artista alemã Carla Pohle, cuja trajetória esteve ligada aos movimentos centrais da arte moderna europeia do início do século 20. A mostra conta com 27 obras da artista, além de itens do acervo particular do historiador da arte Jorge Coli, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A exposição integra a programação do XIV Seminário Interno do Laboratório de História da Arte e possui a curadoria do professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em História (PPGH) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Martinho Alves da Costa Junior. “Presenças suspensas” articula uma reflexão acerca das imagens que são produzidas em contextos de instabilidade histórica, política e existencial.

Carla Pohle (1883-1962) foi uma artista alemã vinculada ao ambiente do expressionismo alemão nas primeiras décadas do século 20 e participou da efervescência artística que transformou a arte moderna europeia. Em 1909, integrou a primeira exposição da Nova Associação de Artistas de Munique, ao lado de artistas como Wassily Kandinsky, Gabriele Münter e Alexej von Jawlensky.

“O espaço é comprimido, as figuras invadem a superfície. Evita qualquer sentimentalismo, numa linhagem que privilegia a interioridade e a gravidade. Suas linhas são seccionadas, em hachuras que intensificam a imagem. Tem um evidente domínio do equilíbrio nas massas figuradas. Nas aquarelas, a cor é diluída, lavada, mas sempre atravessada por eixos verticais ou diagonais estruturantes. Os mastros, troncos, linhas de encosta são fundamentais: a atmosfera é instável, mas a estrutura é firme. Isso cria tensão entre fluidez e ossatura”, descreve Jorge Coli acerca do trabalho da artista.

Carla viveu os impactos das duas guerras mundiais e teve obras apreendidas pelo regime nazista na campanha contra a chamada “arte degenerada”. Apesar de permanecer por muito tempo esquecida pela história da arte, sua obra vem sendo redescoberta por pesquisas e exposições recentes, que destacam a singularidade e a força de sua produção.

exposição carla pohle
Obra ‘Arredores de Frauenburg’ de Carla Pohle (Reprodução/ Carla Pohle)

Diálogo entre oceanos

Os trabalhos de Carla Pohle dialogam com obras de artistas que integram as coleções de Murilo Mendes, tanto nacionais quanto internacionais, sendo conectados pela abordagem da vida humana e experiências traumáticas do século 20 ao redor do globo.

“A experiência dessa aproximação procura incitar uma inteligência intuitiva, que opera em camadas silenciosas. A mostra estabelece ligações que irradiam a partir da obra da artista e se expandem pelo conjunto, fazendo emergir ressonâncias nas quais cada imagem passa a existir também como efeito das outras. A relação entre as coleções torna-se uma chave fundamental para compreender não apenas a singularidade da obra de Carla Pohle, mas como sua obra pode ser compreendida como a condição mais ampla para se pensar a humanidade e seu espaço de permanência no mundo”, destaca o curador.

Mamm recebe exposição inédita do acervo da artista alemã Carla Pohle
Exposição demonstra o diálogo entre questões da humanidade que atravessam séculos e oceanos (Foto: João Guilherme Santos/ Divulgação)

A exposição é a primeira com curadoria dedicada à obra de Carla Pohle realizada no país. “A crescente atenção internacional dedicada à artista insere a mostra do Mamm em um campo ampliado de compreensão de sua produção. A exposição individual realizada em Herrsching am Ammersee, em 2024, assim como a futura mostra dedicada às artistas do círculo do Cavaleiro Azul, prevista para Munique em 2027, evidenciam a relevância historiográfica que a obra de Carla Pohle vem adquirindo”, avalia Martinho.

A exposição também é a primeira pública da coleção de Jorge Coli, que traz um recorte específico das obras pertencentes ao historiador da arte e professor emérito da Unicamp. Ele explica que o olhar de Junior também é do colecionador: “A paixão pelas imagens se instaura com particular acuidade: Devéria, Cormon, Amisani, Amoedo, Chambeland, entre tantos outros. Para essa mostra, apenas um recorte, que obedece a uma lógica instaurada pela compreensão do conjunto de obras de Carla Pohle. É partir desse eixo que as imagens foram pensadas”.

20 anos de Mamm

“Presenças suspensas: Carla Pohle e as formas da expressão” integra as comemorações dos 20 anos do Mamm e reafirma a vocação da instituição como espaço de pesquisa, preservação e difusão cultural. “Exposições como esta desempenham papel fundamental, dinamizando o circuito expositivo e viabilizando a atualização crítica dos acervos. Elas fomentam o intercâmbio entre instituições e pesquisadores, e ampliam o acesso da sociedade à produção artística e ao conhecimento especializado”, finaliza o superintendente do equipamento gerido pela UFJF, Aloisio Castro.

Serviço

“Presenças suspensas: Carla Pohle e as formas da expressão”
Museu de Arte Murilo Mendes (Rua Benjamin Constant, 790 – Centro)
Até 27 de setembro
De terça a sábado de 09h às 18h
Domingo de 13h às 18h
Entrada gratuita

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy