Todo dia nessa estrada
Eles percorrem grandes distâncias pelo país, convivendo com a violência das rodovias e a saudade dos familiares após dias, ou meses, de viagem. Têm rotinas árduas, precisam lidar com as adversas condições de trabalho e enfrentam, muitas vezes, o preconceito da sociedade. A vida dos caminhoneiros é o tema da exposição, assinada pela artista plástica Gabi Gonçalves, "Estradas, uma história, nossas vidas", que entra em cartaz amanhã – e permanece até o dia 12 de março – no Espaço Cultural dos Correios. A história dos trabalhadores das estradas será contada por meio de fotos, áudio e vídeo, depoimentos que documentam a trajetória e as dificuldades vividas diariamente pelos profissionais.
Uma cabine de caminhão estilizada pela artista introduz os visitantes na realidade dos homens que passam mais tempo nas estradas do que em suas casa. Cobertores, utensílios domésticos e materiais de higiene pessoal, detalhes captados pelas lentes de Gabi, revelam parte do universo de pessoas que fazem de seu instrumento de trabalho um lar. "Cada detalhe do caminhão mostra a identidade do caminhoneiro, e cada foto tem uma história", explica a artista. Além das fotos, o público terá acesso a vídeos e áudios que evidenciam a rotina, as experiências e os sentimentos de personagens reais. Frases escritas nas carrocerias dos caminhões, já incorporadas à cultura popular brasileira pelo humor ou sabedoria, também ganham destaque em meio às placas de vários destinos. "É uma exposição sensível, que não prioriza a qualidade técnica, mas o olhar da Gabi, a vivência dela em relação a esses personagens", avalia a produtora da exposição, Roberta Abramo.
Visando alcançar o público de forma ampla, o projeto – produzido pela Realiza Produções e patrocinado pelos Correios – é acessível aos deficientes visuais e auditivos, que podem contemplar e interagir com a mostra a partir do conteúdo disponibilizado em fones de ouvido, linguagem de sinais e legendas em braile. Os visitantes podem ter acesso gratuito ao Espaço Cultural dos Correios, na Rua Marechal Deodoro 470, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, das 10 às 14h.
Cada marca, mancha ou rasgo nas lonas de caminhão contam a trajetória de famílias. Instigada pela história dos homens que vivem nas estradas, a artista plástica transforma lonas usadas em arte. Proprietária da marca Maria Buzina, Gabi produz bolsas artesanais, feitas a partir de lonas reaproveitas e pintadas à mão. A divulgação e, sobretudo, a valorização dos profissionais aparecem como foco da história da artista e da exposição, já que, segundo ela, o preconceito social e os estereótipos que rotulam os caminhoneiros levam a uma desvalorização dos profissionais. "Dificilmente são boas as notícias veiculadas pela mídia, o que leva a uma generalização que denigre a imagem dos caminhoneiros."
Gabi se refere às frequentes notícias de acidentes provocados por profissionais imprudentes, embriagados ou sonolentos, que acabam por contribuir com as elevadas estatísticas da violência no trânsito. Os prazos que precisam ser cumpridos, o despreparo em lidar com os altos custos de manutenção do veículo e dos equipamentos, a desvalorização dos fretes e o cansaço físico são algumas das dificuldades que, conforme a artista, não podem ser ignorados."Temos que pensar no que poderia ser evitado se eles tivessem boas condições de trabalho. Eles têm que ser valorizados e respeitados, pois não existe nada que chegue até nós e não tenha passado por eles".









