A música é clássica

Orquestra chegou a Juiz de Fora durante a semana para gravar CD no Teatro Pró-Música
Criada em 2009 por professores e alunos da Universidade do Estado do Amazonas, a Orquestra Barroca do Amazonas é conhecida por ter como especialidade o repertório luso-brasileiro do século XVIII, tendo já quatro CDs gravados. Para a apresentação deste domingo, a OBA vai executar canções dos álbuns “Dramma” e “Ópera Brasil Colonial”. O primeiro, gravado na Igreja Menino de Deus em Lisboa (Portugal), traz obras da música colonial portuguesa, de compositores como Antonio Policarpo e José Palomino. Já o segundo tem composições executadas durante o chamado Antigo Regime, com textos originais ou traduções portuguesas de compositores conhecidos no período, incluindo aí Carlos Seixas e José Maurício Nunes Garcia.Em um ano marcado por contratempos como o risco de cancelamento, adiamento e posterior confirmação – mesmo que com menos atrações e dias de apresentações -, o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga chega a sua 26ª edição e tem início neste domingo com a apresentação da Orquestra Barroca do Amazonas (OBA), que substitui a tradicional orquestra montada todos os anos para o evento, e que subirá ao palco do Cine-Theatro Central às 21h. O festival prossegue até o próximo domingo, com outras apresentações e a realização de oficinas (ver quadro).
O quinto CD da orquestra, inclusive, estava sendo gravado esta semana na cidade, com expectativa de ser concluído ainda no sábado. Entre um dos intervalos da gravação, o maestro e diretor musical da OBA, Márcio Páscoa, conversou com a Tribuna sobre a apresentação deste domingo e as atividades realizadas pelos amazonenses. “Fazemos apresentações pelo país todo e também no exterior, casos de Portugal, Espanha e Itália. Este ano, já foram mais de 20 concertos (Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, Rio de Janeiro, Petrópolis, Niterói, Campinas, Londrina, São Paulo), lançamos um CD e participamos de uma ópera que estava em cartaz em Manaus”, destaca. “Esta será nossa primeira apresentação em Juiz de Fora, e acreditamos que podemos cumprir o que se espera da gente no festival. É a oportunidade de ouvir, inclusive, um repertório inédito. É interessante poder conhecer outras propostas, uma outra experiência. Para nós, é muito legal estar numa cidade nova, estabelecer novos contatos.”
Trabalho árduo
Para uma orquestra como a comandada por Márcio Páscoa, o ofício não se resume apenas a ensaios e apresentações. É preciso fazer uma árdua pesquisa sobre o que era composto e apresentado aqui e do outro lado do Atlântico em séculos passados. “Somos vinculados a um grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas, e um viés da pesquisa é o repertório luso-brasileiro que antecedeu a independência, que a gente chama de formação da identidade do país. O período vai do século XVIII até o início do século XIX, quando Brasil e Portugal estavam sob o mesmo leque de influências. Nosso enfoque é o de mostrar como esse repertório e influência chegaram até aqui, ajudando a amalgamar o nosso gosto”, explica Páscoa. “São as músicas portuguesa, italiana e a que foi composta aqui, inclusive no século XVIII. Trata-se de um material que sobreviveu e foi sendo identificado, restaurado, e que tem sido tocado e gravado por nós. Este é o nosso diferencial. Nosso objetivo não é reproduzir o repertório standard, procuramos um repertório inédito, buscando um novo sotaque. Temos críticas elogiosas de revistas especializadas do exterior, o que mostra que a proposta está dando certo.”
Essa preocupação também chega aos instrumentos utilizados pela Orquestra Barroca do Amazonas, que lança mão de cópias fiéis de instrumentos da época, que poderiam possuir medida, formatos, técnicas de construção e materiais diferentes dos atuais. A proposta é aproximar ainda mais a música do que era ouvido nos séculos anteriores. “O mais importante, porém, é a abordagem. Você não pode tirar do instrumento aquilo para o que não foi feito, é preciso ter a sensibilidade de que ele está pronto para outro tipo de sonoridade, e isso vale para instrumentos de sopro, cordas. As pessoas que nunca ouviram e têm interesse podem ir aos concertos e ver a diferença, assim como podem também participar das oficinas para se aprofundar e ver como funcionam esses instrumentos históricos.”
O mesmo vale, segundo Páscoa, para as técnicas de canto, diferentes no período abordado pela OBA. “A abordagem do canto, mais ou menos até o início do século XIX, era baseada no chamado bel canto (estilo que foi muito influente e presente entre os séculos XVII e XIX, e que privilegiava a articulação e o virtuosismo em detrimento do drama e do canto expressivo). As pessoas confundem muito, hoje em dia, o bel canto com o canto lírico.”
Para a segunda-feira
A música do século XVIII também pode ser conferida nesta segunda-feira, dia da apresentação do grupo de câmara Academia dos Renascidos no Teatro Pró-Música. Em atividade desde 2011, o grupo formado por Alberto Pacheco (voz) e Andrea Teixeira (piano, flauta e percussão) vai executar as canções presentes nos salões da corte brasileira da época, incluindo modinhas, lundus, hinos e recitativos de salão.
Algumas músicas a serem apresentadas serão executadas pela primeira vez após muito tempo, fruto do trabalho de pesquisa feito pela Academia (nome que é uma homenagem à Academia Brasílica dos Renascidos, fundada em Salvador em 1759) nos arquivos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Para a apresentação, a dupla contará com as participações de Miriam Abad (soprano), Mário Trilha (cravo) e Viviane Sobral (piano).










